Quem é Jezabel?

Do artigo: Lições Bíblicas: “Tiatira, a igreja tolerante”, em dia de profunda irritação.

As lideranças mais legalistas das Assembleias de Deus costumam usar a figura de Jezabel para condenar a vaidade feminina na questão de usos e costumes, lembrando que ela “se pintou em volta dos olhos” (2Rs 9.30), mas isso demonstra a tendência farisaica de coar um mosquito e engolir um camelo.

O “camelo” de Jezabel era a prostituição física e espiritual (Ap 2.20). Quanto ao “mosquito”, o texto nem mesmo é condenatório, apenas descreve um costume.

É de espantar o número de líderes zelosos da “sã doutrina” que vendem o seu voto aos políticos em épocas de eleição, que são coniventes com pecados graves de membros mais abastados ou que agem como ímpios no âmbito das convenções eclesiásticas.

Eles é que se parecem com Jezabel, a despeito de não terem os olhos pintados.

Por falar em eleição… (reedição)

Com a proximidade das eleições, achei por bem recomendar a leitura ou releitura de alguns artigos que escrevi aqui no blog (clique nos títulos para ler). Acrescentei o artigo “Político crente ou crente político?”.

Esopo: sobre pastores e lobos — Uma antiga fábula, mais antiga que o evangelho, que deve ser (re)lida por todos aqueles que estejam cogitando alianças, parcerias, conluios e quejandos com políticos de posturas anticristãs.

A falácia da representação evangélica — Se alguém convenceu você de que vereadores, deputados e senadores cristãos são representantes da igreja, então não deixe de ler este artigo.

O manifesto de Tiago — “Um país dirigido pelas Assembleias de Deus — ou pelos seus representantes — não garantirá uma sociedade mais justa. Na verdade, não será melhor que um governo oficialmente católico nem mais desejável que um Estado muçulmano”. Você concorda com isso?

Os crentes e o jogo da cidadania — O crente pode protestar contra as autoridades constituídas? Até que ponto se pode exercer a cidadania sem conflitar com a fé?

Político crente ou crente político? — Desde quando ser crente é garantia de competência e de bons projetos no mandato?

Nota dez é bom

Estava lembrando hoje dos meus tempos de ginásio, cursado inteiramente no Colégio Marechal Luz, em Jaguaruna. Na época, vários professores vinham de Tubarão, cidade vizinha que generosamente supria a carência de mestres da minha terra natal.

Um desses professores importados chamava-se José, um homem moreno, com aparência de índio. Ele ensinava matemática. Eu já disse que era bom aluno, e também tirava notas boas na matéria do professor José. Aliás, num ano em particular, na sétima ou oitava série, tirei dez em várias provas passadas por ele.

Já perto do final do ano letivo, numa de suas aulas ele começou a chamar os alunos um por um à sua mesa para entregar a primeira prova do último bimestre, que fizéramos na aula anterior. Quando ele me estendeu a folha dupla de caderno preenchida com a minha letra e com as correções dele, vi que havia tirado outro dez. E ele me disse:

— Olha, eu nunca dou “ótimo” pra ninguém no boletim. Mas se você tirar dez na próxima prova, eu vou te dar um “ótimo”.

O colégio havia adotado recentemente um sistema de notas para o boletim que trocava os números pelos conceitos “ótimo”, “bom”, “satisfatório”, ‘regular” e “NA” (a nota vermelha, sigla de “necessita de atenção”). E de fato: mesmo nos bimestres em que eu tirava dez nas duas provas de matemática recebia apenas “bom” no boletim. Nunca soube por que ele não dava “ótimo” para ninguém, apenas deduzi que fosse alguma teoria particular.

Chegou então o dia da última prova, e cravei outro dez. Não lembro se ele fez algum comentário ao entregá-la, mas fiquei aguardando o glorioso momento de ser o único aluno do professor José a tirar “ótimo” na matéria dele.

Quando recebi o boletim, constatei que ele não cumprira a promessa: lá estava o inflexível “bom” figurando na janelinha da matemática pela quarta vez. Sua convicção deve ter falado mais forte na hora de entregar a nota na secretaria.

Mas não fiquei ressentido com ele. Era boa pessoa e bom professor.

 

Lições Bíblicas: “A atualidade dos últimos conselhos de Tiago”

Lição 13 — 3.° trimestre de 2014

Como o título sugere, esta lição contém assuntos diversificados, não necessariamente ligados entre si.

O valor da paciência e a proibição do juramento (Tg  5.7-12)

Sobre a paciência, veja o comentário de Simon J. Kistemaker:

A paciência é uma virtude que poucos têm e muitos procuram. Vivemos numa sociedade que defende a palavra instantâneo. Mas ser paciente, da maneira como Tiago usa a palavra, é muito mais do que esperar passivamente que o tempo passe. Paciência é a arte de suportar alguém cuja conduta é incompatível com a de outros e por vezes opressiva. Uma pessoa paciente acalma uma briga, pois con­trola sua ira e não busca vingança (comparar com Pv 15.18; 16.32). O termo longânimo não significa sofrer por um pouco, mas tolerar alguém por um longo tempo. Em outras palavras, paciência é o contrário de ser irascível. Deus demonstra paciência ao ser “tardio em irar-se” quando o ser humano continua a pecar, mesmo depois de muitas admoestações (Êx 34.6; Sl 86.15; Rm 2.4; 9.22; 1Pe 3.20; 2Pe 3.15). O ser huma­no deve refletir essa virtude divina em sua vida diária.

Sobre a questão do juramento, é instrutiva o que encontramos em O novo comentário bíblico, embora contradiga um pouco o autor da lição (mas veja 1Ts 2.5):

Não jureis. Tiago não está proibindo o cristão de fazer um juramento em um tribunal ou invocar Deus como testemunha de alguma declaração significativa (1Ts 2.5). Em vez disso, ele está proibindo a prática antiga de apelar a vários objetos diferentes para confirmar a veracidade da declaração de alguém. Essa prática se aproximava muito da idolatria, pois implicava que tais objetos tinham espíritos. A advertência nesses versículos pode servir como um lembrete para que observemos aquilo que dizemos. Não devemos usar o nome de Deus de um modo im­pulsivo; e devemos ter cuidado para falar sempre a verdade.

A unção de enfermos e como Deus ouviu a Elias (Tg  5.13-18)

A unção com óleo e a oração da cura cabem melhor aqui na perspectiva pentecostal de Vernon Purdy:

Cla­ro está que é a oração, e não a unção com azeite ou a imposição das mãos, que leva à cura. Há quem fale hoje na cura divina como algo “excepcio­nal e inesperado”. Mas a Igreja Primitiva não acreditava que a cura divina fosse “um ato totalmente inesperado da parte de Deus”. Pelo contrário, oravam pelos enfermos com plena expectativa de sua recuperação. A linguagem de Tiago 5.14,15 não titubeia quanto a isso. Afirma claramente que “a oração da fé salvará o doente”. Obviamente, Deus pode dizer “não” às vezes, e assim faz. Na sua sabedoria, Ele pode recusar a cura, mas não é esta a norma indicada pelas Escri­turas. A vontade normativa de Deus é curar os enfermos por causa da obra de Cristo, mediante a fé que os crentes têm nEle.

A importância da conversão de um irmão (Tg 5.19,20)

Estes dois versículos têm interpretações diferentes conforme o posicionamento doutrinário da denominação ou da pessoa. Os que advogam a “segurança/ perseverança da salvação” (aquela ideia do “uma vez salvo, salvo para sempre”) entendem que quem se desvia da verdade não está perdido, mas pode sofrer algum tipo de disciplina da parte de Deus ou mesmo a “morte”, que nesse caso seria literal, não espiritual. A doutrina da Assembleia de Deus diz que é possível, sim, o convertido perder a salvação. É como também entendo, embora a discussão não caiba neste espaço.

Apenas ressalto que vejo na prática assembleiana a crença errônea de que o simples ato de pecar já nos tira a salvação. Assim, se estivermos cometendo um pecado ao morrer ou na hora do arrebatamento da igreja, estaremos perdidos, diz a tal crença. Mas não é assim, do contrário estaríamos salvos ou perdidos diversas vezes ao dia, uma vez que todos nós pecamos. Vejo a perda da salvação como um processo que que abre caminho para a apostasia, e o momento em que a mudança de condição acontece exatamente talvez seja impossível determinar, até para a própria pessoa. Mas a condição de quem caiu da graça pode ser percebida, do contrário o conselho de Tiago não faria sentido.

Nota: Deixe o seu comentário, esse retorno é importante para mim. Se quiser compartilhar algo sobre o assunto desta lição, que também ajude os outros professores, fique à vontade.

Lição 1 do 4.° trimestre (aguarde).

BIBLIOGRAFIA. Kistemaker, Simon. Tiago e epístolas de João. Tradução de Susana 
Klassen. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. * Purdy, Vernon. A cura divina. In: 
Horton, Stanley M. (Org.). Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal. 
Tradução de Gordon Chown. Rio de Janeiro: CPAD, 1996. * Radmacher, Earl D. et 
alii. O novo comentário bíblico: Novo Testamento. Tradução de Bruno Destefani et 
alii. Reimpr. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2010.