Sheherazade tinha 1001 coisas para dizer

***

Causou-me asco a notícia de que Rachel Sheherazade está proibida de emitir opiniões, por pressão dos comunistas e da canalha politicamente “correta”, que abriga em suas hostes até mesmo alguns cristãos.

Como não assisto à TV aberta, fiquei sabendo da existência da moça e de suas opiniões pela Internet. Vi pela primeira vez o nome dela num cartaz carregado por militantes gays, que dizia: “Cala a boca, Sheherazade“. Mesmo sem saber de quem se tratava, simpatizei com ela imediatamente, porque o caráter de alguém é medido pelas pessoas a quem ele incomoda. Intrigado pelo furor que os comentários da âncora do SBT Brasil (o nome do jornal a que nunca assisti) causaram entre os “progressistas”, procurei alguns vídeos no Youtube e constatei que as opiniões da moça eram simples e diretas e condenavam a corrupção, as ditaduras, os desmandos do governo, o crime, o desrespeito, a insegurança pública, e assim por diante, coisa que todo cidadão que tenha um pingo de decência e mais de dois neurônios irá concordar.

E, por falar em raciocínio, o que mais me espantou não foi a visível irritação dos que apoiavam as causas citadas acima. Fiquei admirado com o que não vi. Não encontrei nas críticas exacerbadas à jornalista um único argumento digno de nota. Apenas xingamentos e o desejo que que ela parasse de opinar. As declarações sobre o marginal amarrado a um poste por populares geraram vários artigos de especialistas, mas todos cheirando a falácia jurídica e a pretexto para legalização da censura. E ninguém se arriscou a refutar a “campanha Adote um Bandido”, a não ser com mais xingamentos.

Toda essa polêmica pelo menos serviu para uma coisa: mostrou a fragilidade dos ideais “progressistas”. Mandaram Sheherazade calar a boca, colegas de profissão chamaram-na de fascista e imagino que algum dono de loja teve as vitrines quebradas por causa dela. Houve quem expressasse o desejo de vê-la estuprada, e isso foi publicado no Facebook de um dos filósofos governistas (se esse é o argumento do filósofo, imagine o dos idiotas úteis!). Sobre o incidente, a jornalista Mônica Bérgamo, da Folha de São Paulo, em matéria considerada neutra, limitou-se a dizer: “Quem fala o que quer, lê o que não quer na Internet” — e nenhuma crítica ao apologista do estupro. Mas o fato é que ninguém conseguiu remover uma vírgula do que foi dito por Sheherazade. Então, que ideologia é essa, posta a nocaute por comentários de 60 segundos? 

Mas por fim, em nome dos “direitos humanos”, expressão bonita transformada em dejeto político, prevaleceu a força bruta do poder. Sheherazade foi amarrada ao poste ideológico dos causídicos da infâmia para execração pública e gáudio da ala política que passou todo o mês de março choramingando a censura dos militares. 

Sheherazade ainda tinha muita coisa para dizer, mas os petistas e quejandos começaram a “democratizar” a imprensa brasileira. Os ideais “progressistas” estão seguros agora. 

Só o politicamente “correto”…

***

Só o politicamente “correto”…

… cria leis que punem com maior rigor quem maltrata um animal do que quem maltrata um ser humano.

… entende que a mais natural das condições humanas, o ser macho ou fêmea, é simples estereótipo.

… prefere dizer “pessoa verticalmente comprometida” a pronunciar a palavra “anão”.

… transforma escritor consagrado em ignorante que desconhece a realidade da própria época  (Mark Twain que o diga). 

… cria palavras como “afrodescendente” para não ofender pessoas da raça negra e “fundamentalista” para ofender os cristãos.

… usa discurso de ódio para acusar os outros de fazerem… discurso de ódio.

… confunde opinião contrária com preconceito.

… é tolo o bastante para acreditar que pode consertar a natureza humana com semântica.

… prega a tolerância e a liberdade enquanto incensa regimes ditatoriais.

… se sente “ofendido” com um salmo e aprova a distribuição de pornografia gay para menores.

… faz a expressão “pró-vida” parecer uma coisa ruim.

Tudo isso que você leu está acontecendo mesmo. Então, caro leitor, a única conclusão a que podemos chegar é esta: quem é ou se considera politicamente “correto” não passa de um retardado!

Quem te viu, quem TV

***

Uma pesquisa encomendada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência concluiu que apenas 3% dos brasileiros não assistem à televisão.

Eu com certeza estou entre os 3%, se a pesquisa diz respeito à TV aberta. Já tive o hábito de ficar horas diante do aparelho. Assisti a umas poucas novelas do início ao fim, a muitas edições do Jornal Nacional e até algumas daquelas porcarias que infestam os lares nas tardes de domingo, ainda que nunca como entusiasta, e estou incluindo nisso o futebol. Mesmo assim, nada que se compare ao tempo que sempre dediquei aos livros.

Já tive TV paga e por vários anos ignorei a TV nacional. Com o avanço da Internet nos últimos anos, baixo os filmes, documentários e seriados que quero assistir. Busco informações nos blogs e nas revistas e jornais eletrônicos. E já é coisa demais.

Não sei se a pesquisa fez este tipo de questionamento, mas percebo no telespectador comum uma dependência quase química e uma fidelidade quase religiosa à programação da TV aberta. Diante das críticas ao conteúdo apresentado nos canais gratuitos, já vi muita gente retrucar: “Mas então o que eu vou assistir?”.

Se não se cogita um substituto, como um livro ou a conversação, a resposta para mim parece óbvia: nada.

Mas vá convencer disso 130 milhões de brasileiros!

Marco Civil da Internet e a minha opinião

***

O Marco Civil da Internet, ou PL 2126/2011 foi aprovado ontem na Câmara dos Deputados. Lendo aqui e ali, parece que no geral o documento é visto como uma coisa positiva para o Brasil e para os usuários da Rede, especialmente os que a utilizam para  trocar ideias e informações, opinar e formar opinião.

Festejam-se os avanços na “neutralidade” da Internet e na privacidade dos usuários. Até revistas como a Veja, não sem antes comemorar uma derrota do governo num item qualquer, parece satisfeita com o documento. Alguns especialistas em leis enxergam certas incoerências nos artigos relativos a ambos os temas, mas não se vê uma desaprovação total. Parece que também vamos ter downloads mais rápidos — ou mais lentos, segundo alguns.

Alguns parágrafos me pareceram meio bobinhos, como a “preservação da natureza participativa da rede”. Entendi mal, ou a Rede é por definição participativa? Outros me parecem mera encheção de linguiça ou demagogia, mas vá lá: nem tudo que sai daquela Casa é brilhante.

O que quero saber é como será tratada a minha opinião depois que a lei começar a vigorar. A proposta em princípio é ótima: o Marco tem “o intuito de assegurar a liberdade de expressão e impedir a censura”. Além disso, parece estabelecer critérios mais justos para a retirada de conteúdo, que hoje é bastante arbitrário. Se isso de fato vigorar, pode não ser o fim da censura, que de fato existe, mas pelo menos é um avanço (mas leia aqui).

Mas é nesse aspecto que o terreno fica nebuloso. Para começar, constam das Disposições Preliminares os “direitos humanos”, a “pluralidade” e a “diversidade”, elementos bem-vindos numa situação “normal”, mas no entendimento do atual governo, como uma infinidade de fatos registrados na própria Rede atesta amplamente, podem ocultar intenções menos nobres. Entre os especialistas, há quem diga que o Marco mascara a censura.

Seja como for, o que mais me causou estranheza — e para mim decide a questão — foi encontrar na Rede ilustres petistas que até ontem criminalizavam opiniões em nome dos “direitos humanos”, da “pluralidade” e da “diversidade” do dia para a noite virarem paladinos da liberdade de expressão.

Perdoem o meu ceticismo, mas…