Talvez seja o plano de fazer em breve uma viagem à minha terra natal, mas ando pensando muito na época em que eu cursava o primário na Escola Básica (hoje Colégio) Marechal Luz, em Jaguaruna, no final da década de 1960 e início dos anos de 1970.
As lembranças dos últimos dias não têm sido da sala de aula, mas do recreio, quando uma revoada de pequenas e elétricas criaturas vestidas de azul-marinho e branco se espalhava pelas dependências externas do colégio: o pátio interno, lugar de cerimônias e mais tarde também quadra esportiva, point das brincadeiras de roda; o galpão sem paredes, onde era servida a merenda; a grande área com boa parte de chão batido, que comportava até um pequeno campo de futebol. Havia ainda uma parte do terreno em que cresciam umas poucas árvores, arbustos e de vez em quando uma pequena horta. Nos lugares de pouco trânsito, alguns alunos se reuniam para jogar e assistir às partidas de bola de gude ou participar de qualquer outra brincadeira mais recatada.
Eu gostava de brincar de polícia e ladrão. Logo que começava o recreio, alguém gritava: “Soldadinho!” (a brincadeira era conhecida apenas por esse nome), e logo os interessados se aglomeravam para formar os grupos. Um bando se escondia ou apenas ficava a uma distância segura, e o outro ia capturá-los. Traçava-se no chão um retângulo ou uma meia-lua, geralmente aproveitando-se como um dos lados a mureta alinhada com a área de chão batido ou qualquer estrutura reta de alvenaria. Ali ficavam confinados os “presos”. Se um fugitivo passasse por dentro da “cela”, todo o bando estava livre de novo. Considerava-se vencedor o grupo que estivesse em fuga na hora que batesse o sinal.
Uma atração à parte eram as brigas. Da mesma forma em que se anunciava a brincadeira de soldadinho, alguém gritava: “Brigaaaaa!”. Em segundos, formava-se a plateia, ninguém disposto a separar os combatentes.
Ninguém exceto o Seu Herculano, o servente e faz-tudo da escola. Era um negro alto, de postura ereta, que andava, gesticulava e falava com idêntica lentidão. Nunca o vi agitar-se nem erguer a voz. Era o tipo que sairia andando calmamente de um incêndio enquanto os outros estivessem se jogando pela janela. Mas bastava ele se aproximar da região do conflito naquela sua cadência sossegada, e logo os ânimos se acalmavam.
Lembro-me de um dia em particular, em que ele resolveu mudar de tática. Estávamos assistindo a uma briga atrás da cozinha, que ficava numa das extremidades do galpão, quando o Seu Herculano passou a certa distância, no mesmo passo descansado, sem ao menos olhar para a rinha improvisada. Ele se aproximou de uma pequena árvore e, sem dizer palavra, sacou um facão, cortou um galho fino e começou a desbastá-lo, sem nenhuma pressa. Aos poucos, uma vara de tamanho respeitável foi surgindo em sua mão.
Até hoje ninguém sabe dizer se o Seu Herculano faria ou não uso do novo acessório, porque nem os brigões nem a plateia ávida de sangue ficaram ali para confirmar.
Acho que não se fazem mais recreios como antigamente.
