A primeira bicicleta é difícil esquecer

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Minha inteligência motora sempre foi a de um retardado, por isso aprendi a andar de bicicleta só aos 13 anos. A paciência do Rui, um amigo e colega de escola, permitiu-me dar as primeiras pedaladas. Depois fui me exercitando como podia explorando a generosidade preocupada dos amigos.

A minguada pensão da Vó Carmira, com quem eu morava, não lhe permitia comprar uma bicicleta nova. Mas alguns meses depois, após algumas negociações com o irmão Ronaldo, o acordeonista da igreja e dono de uma oficina de bicicletas, tornei-me o feliz proprietário do almejado veículo. Ele juntou algumas peças que sobraram de outras reformas e construiu uma geringonça híbrida de Caloi e Monark, aro 26, pintada de azul-claro. Lembro-me de mais tarde tê-la enfeitado com limpa-cubos e com uma capa de selim do Vasco.

Uma bicicleta não chegava a ser uma necessidade na Jaguaruna da década de 1970, uma vez que os lugares que eu costumava frequentar raramente ficavam a mais de um quilômetro de casa. Era mais diversão. Às vezes, saía para passear em trajetos que incluíam calçadas, ruas e estradas de barro e até o estreito caminho ao lado dos trilhos do trem. Algumas imprudências me renderam uns tombos, mas nada grave ou digno de menção.

Eu também costumava sair montado no monstrinho azul para fazer rondas aleatórias pela cidade: na casa do Tio Ézio, para assistir televisão, ler revistas  ou desfrutar a companhia das minhas primas-irmãs; no Bar do Oto, para conversar com o meu amigo e primo Édson; em qualquer loja de pouco movimento, como eram quase todas, para aliviar o tédio de algum amigo entre os raros fregueses; na casa de um amigo, para trocar gibis. Como sempre fui distraído, às vezes eu chegava em casa sem a bicicleta. Então refazia o itinerário todo a pé até encontrá-la — e sempre a encontrava, porque ninguém roubava bicicleta em Jaguaruna.

Tenho muitas lembranças dessa companheira de quase-aventuras, mas, estranhamente, não consigo lembrar que fim ela teve. Não creio que seja um daqueles bloqueios mentais decorrentes de um trauma. Deve ser apenas uma anotação perdida na gaveta da memória. Quando lembrar, eu conto a vocês.

Janela indiscreta

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De 1970 a 1978, morei numa casa em que as janelas principais eram guarnecidas por venezianas. Meu quarto ficava na parte da frente, de onde se podia ver toda a movimentação da rua além do muro, a uns quatro metros da janela.

Quando as venezianas estavam fechadas, as lâminas oblíquas permitiam apenas olhar para o chão, um ou dois metros adiante. Mas logo descobri um diferencial na janela do meu quarto. Uma das lâminas era um pouco torta e me permitia ver quem passava na rua, e o melhor, sem ser visto!

Certo dia, esta ovelhinha, ainda adolescente, viu ali uma boa oportunidade para azucrinar a vida dos passantes. Nas tardes mais tediosas, eu abaixava os prendedores de ferro, fechava as duas folhas de madeira e ficava espiando pela fresta até alguém aparecer no meu campo de visão. Jaguaruna era uma cidadezinha de 3 mil habitantes na época, por isso não havia aquele fluxo de povo, e a espera às vezes se estendia por alguns minutos — mas era um tempo muito bem compensado, como já vou explicar.

Assim que algum dos meus amados conterrâneos passava na frente da casa, eu dizia lá do meu esconderijo:

— Boa tarde!

O educado cidadão virava a cabeça para responder ao cumprimento e então ficava atônito quando não via ninguém. Alguns chegavam a voltar para investigar mais a fundo a origem da voz, mas nunca encontravam nada, é claro. Em alguns casos, quando a pessoa, para lá de encafifada, estava se afastando, eu a cumprimentava outra vez. E ela apressava o passo para sair logo dali. Então eu deitava na cama e literalmente rolava de rir.

Só houve um dia em que fiquei sem graça. Eu estava no meu posto quando vi se aproximando o Seu Vilmar, que tinha uma escola de datilografia em casa, justamente onde obtive o meu diploma de catamilhógrafo, que guardo até hoje. Era um homem dos seus 60 anos, do tipo distraído, que andava um pouco inclinado para a frente, fitando o chão. Pareceu-me a vítima ideal e, já antecipando umas risadas, falei através da fresta de madeira:

— Boa tarde!

Sem reduzir a velocidade dos seus passos miúdos, ele apenas virou a cabeça na direção da casa e respondeu:

— Boa tarde! — e continuou o seu caminho normalmente.

Ainda há outra pegadinha que criei aproveitando a mesma janela e que até gerou comentários na cidade, para meu íntimo regozijo. Mas conto essa história em outra ocasião.

Hora do recreio

Talvez seja o plano de fazer em breve uma viagem à minha terra natal, mas ando pensando muito na época em que eu cursava o primário na Escola Básica (hoje Colégio) Marechal Luz, em Jaguaruna, no final da década de 1960 e início dos anos de 1970.

As lembranças dos últimos dias não têm sido da sala de aula, mas do recreio, quando uma revoada de pequenas e elétricas criaturas vestidas de azul-marinho e branco se espalhava pelas dependências externas do colégio: o pátio interno, lugar de cerimônias e mais tarde também quadra esportiva, point das brincadeiras de roda; o galpão sem paredes, onde era servida a merenda; a grande área com boa parte de chão batido, que comportava até um pequeno campo de futebol. Havia ainda uma parte do terreno em que cresciam umas poucas árvores, arbustos e de vez em quando uma pequena horta. Nos lugares de pouco trânsito, alguns alunos se reuniam para jogar e assistir às partidas de bola de gude ou participar de qualquer outra brincadeira mais recatada.

Eu gostava de brincar de polícia e ladrão. Logo que começava o recreio, alguém gritava: “Soldadinho!” (a brincadeira era conhecida apenas por esse nome), e logo os interessados se aglomeravam para formar os grupos. Um bando se escondia ou apenas ficava a uma distância segura, e o outro ia capturá-los. Traçava-se no chão um retângulo ou uma meia-lua, geralmente aproveitando-se como um dos lados a mureta alinhada com a área de chão batido ou qualquer estrutura reta de alvenaria. Ali ficavam confinados os “presos”. Se um fugitivo passasse por dentro da “cela”, todo o bando estava livre de novo. Considerava-se vencedor o grupo que estivesse em fuga na hora que batesse o sinal.

Uma atração à parte eram as brigas. Da mesma forma em que se anunciava a brincadeira de soldadinho, alguém gritava: “Brigaaaaa!”. Em segundos, formava-se a plateia, ninguém disposto a separar os combatentes.

Ninguém exceto o Seu Herculano, o servente e faz-tudo da escola. Era um negro alto, de postura ereta, que andava, gesticulava e falava com idêntica lentidão. Nunca o vi agitar-se nem erguer a voz. Era o tipo que sairia andando calmamente de um incêndio enquanto os outros estivessem se jogando pela janela. Mas bastava ele se aproximar da região do conflito naquela sua cadência sossegada, e logo os ânimos se acalmavam.

Lembro-me de um dia em particular, em que ele resolveu mudar de tática. Estávamos assistindo a uma briga atrás da cozinha, que ficava numa das extremidades do galpão, quando o Seu Herculano passou a certa distância, no mesmo passo descansado, sem ao menos olhar para a rinha improvisada. Ele se aproximou de uma pequena árvore e, sem dizer palavra, sacou um facão, cortou um galho fino e começou a desbastá-lo, sem nenhuma pressa. Aos poucos, uma vara de tamanho respeitável foi surgindo em sua mão.

Até hoje ninguém sabe dizer se o Seu Herculano faria ou não uso do novo acessório, porque nem os brigões nem a plateia ávida de sangue ficaram ali para confirmar.

Acho que não se fazem mais recreios como antigamente.

Uma lição de prudência

Desde que aprendi a ler, ainda antes de entrar na escola, tornei-me viciado em leitura. Quando comecei a cursar o primário, na Escola Básica (hoje Colégio) Marechal Luz, em Jaguaruna, encantei-me com os livros que continham crônicas, pequenas histórias e poesias para ensinar Língua Nacional. Eu não tinha paciência para esperar a aula. Aliás, nem para esperar o ano letivo: quando as aulas começavam, eu já tinha lido o livro inteiro. Às vezes, na casa de um amigo, eu deparava com um desses livros, mais antigo, de um irmão mais velho ou mesmo de um dos pais dele. Se eu não pudesse ler o livro ali mesmo, pedia emprestado. Foi num desses livros “extraclasse” que encontrei a poesia simples que reproduzo a seguir. Bem, depois de quarenta anos não lembro o título nem o autor, mas do texto ainda guardo cada palavra. O motivo de eu publicá-la aqui? Não sei. Tenho andado mais nostálgico que o normal. Deve ser isso. Mas é um texto divertido, pode até ser aproveitado para ilustrar um sermão sobre prudência. Vai ficar lindo você declamando no púlpito:

Dona Maria, uma velha,

A encarnação da prudência,

Ao neto sempre aconselha

Proceder com previdência.

Pergunta-lhe o neto um dia:

Vovó, que é ser previdente?

E a boa dona Maria

Respondeu-lhe meigamente:

Ser previdente, disse ela,

É pensar no mau venturo,

Com a louvável cautela

De prevenir o futuro.

Por exemplo, está chovendo:

Ao quintal não sairás.

Provas, assim procedendo,

Que tens juízo, meu rapaz!

Passa-se um curto momento,

E já com água até os joelhos

Lá pelo enxurro barrento

Do quintal anda o fedelho.

E disse a vovó, zangada:

Passa pra dentro, rapaz!

Não me obedeces em nada,

Que marotinho estás!

Vovó, eu fui previdente,

Não podes ralhar-me, não,

Disse o rapaz calmamente.

Não temas constipação.

Fui previdente, aí está:

Do teu xarope, avozinha,

Antes de vir para cá,

Tomei uma colherinha.