Nota dez é bom

Estava lembrando hoje dos meus tempos de ginásio, cursado inteiramente no Colégio Marechal Luz, em Jaguaruna. Na época, vários professores vinham de Tubarão, cidade vizinha que generosamente supria a carência de mestres da minha terra natal.

Um desses professores importados chamava-se José, um homem moreno, com aparência de índio. Ele ensinava matemática. Eu já disse que era bom aluno, e também tirava notas boas na matéria do professor José. Aliás, num ano em particular, na sétima ou oitava série, tirei dez em várias provas passadas por ele.

Já perto do final do ano letivo, numa de suas aulas ele começou a chamar os alunos um por um à sua mesa para entregar a primeira prova do último bimestre, que fizéramos na aula anterior. Quando ele me estendeu a folha dupla de caderno preenchida com a minha letra e com as correções dele, vi que havia tirado outro dez. E ele me disse:

— Olha, eu nunca dou “ótimo” pra ninguém no boletim. Mas se você tirar dez na próxima prova, eu vou te dar um “ótimo”.

O colégio havia adotado recentemente um sistema de notas para o boletim que trocava os números pelos conceitos “ótimo”, “bom”, “satisfatório”, ‘regular” e “NA” (a nota vermelha, sigla de “necessita de atenção”). E de fato: mesmo nos bimestres em que eu tirava dez nas duas provas de matemática recebia apenas “bom” no boletim. Nunca soube por que ele não dava “ótimo” para ninguém, apenas deduzi que fosse alguma teoria particular.

Chegou então o dia da última prova, e cravei outro dez. Não lembro se ele fez algum comentário ao entregá-la, mas fiquei aguardando o glorioso momento de ser o único aluno do professor José a tirar “ótimo” na matéria dele.

Quando recebi o boletim, constatei que ele não cumprira a promessa: lá estava o inflexível “bom” figurando na janelinha da matemática pela quarta vez. Sua convicção deve ter falado mais forte na hora de entregar a nota na secretaria.

Mas não fiquei ressentido com ele. Era boa pessoa e bom professor.

 

Sangue bom

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Jaguaruna era cidadezinha de um médico só, e durante muito tempo o único desses profissionais que atendia no hospital era o doutor Francisco — nunca soube o sobrenome dele. Outra motivo de eu me lembrar dele era a sua amizade com o meu pai, em razão da afinidade que ambos tinham pelo copo.

Certa ocasião, por uma emergência qualquer no hospital, o doutor Francisco convocou o meu pai para doar sangue.

— Tudo bem! — concordou o meu pai. — Mas já aviso que a metade é álcool.

O doutor Francisco nem pestanejou:

— Assim que é bom. Já vem esterilizado.

Haja Antônio

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Estava pensando hoje em quantos Antônios fizeram parte da minha história de vida. Veja aí:

O meu avô paterno: ANTÔNIO Firmino Canto.

O meu avô materno: ANTÔNIO Tomaz Ricardo.

O meu pai: Idênio ANTÔNIO Canto.

O meu sogro: ANTÔNIO Alberto de Souza.

E ainda tive uma bisavó chamada ANTÔNIA.

Nenhum deles está mais entre nós. A sequência de Antônios talvez seja reiniciada com algum neto, futuramente.

Banquete frustrado

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Nunca matei um passarinho. Eu tinha estilingue (funda, como chamávamos em Jaguaruna), mas gastava a minha munição de pedras, bolinhas de gude ou bagas de mamona apenas em alvos fixos e sem vida. Não me conformava com o fato de alguns de meus amigos matarem os bichinhos só por esporte.

Um dia, quando eu era bem pequeno, o meu primo Dalton matou um passarinho. Uma rolinha, acho. Mas dessa vez não lamentei, porque ele tinha planos para o pequeno animalzinho abatido: iríamos comê-lo no almoço. Na verdade, fiquei todo entusiasmado com a nova experiência.

O passarinho então foi depenado, aberto ao meio, expurgado das partes não aproveitáveis e colocado à espera num pires até a hora do almoço. O pires com a pequena ave foi guardado num armário da cozinha fora da minha vista e alto o bastante para impedir que eu ficasse mexendo.

Passei horas ansiosas imaginando que o gosto daquela iguaria, que a minha mãe se prontificou a preparar especialmente para mim e para o meu primo, até porque não dava para dividir com muita gente. Para passar o tempo, fomos brincar na rua.

Finalmente, chegou a hora de preparar o nosso banquete, e corri para a cozinha, disposto a acompanhar todo o processo. Com os olhinhos brilhando acima do rosto sujo e com a reverência de quem acompanha um ritual de sacrifício, fiquei esperando o Dalton retirar do armário o que seria o nosso almoço.

Então senti o chão sumir sob os meus pés. O pires estava vazio! O prato principal do nosso almoço havia sumido!

O que teria acontecido? Mistério nenhum. O gato da casa se antecipara a nós. Sorte dele que eu também não gostava de matar gatos!