Sangue bom

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Jaguaruna era cidadezinha de um médico só, e durante muito tempo o único desses profissionais que atendia no hospital era o doutor Francisco — nunca soube o sobrenome dele. Outra motivo de eu me lembrar dele era a sua amizade com o meu pai, em razão da afinidade que ambos tinham pelo copo.

Certa ocasião, por uma emergência qualquer no hospital, o doutor Francisco convocou o meu pai para doar sangue.

— Tudo bem! — concordou o meu pai. — Mas já aviso que a metade é álcool.

O doutor Francisco nem pestanejou:

— Assim que é bom. Já vem esterilizado.

Haja Antônio

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Estava pensando hoje em quantos Antônios fizeram parte da minha história de vida. Veja aí:

O meu avô paterno: ANTÔNIO Firmino Canto.

O meu avô materno: ANTÔNIO Tomaz Ricardo.

O meu pai: Idênio ANTÔNIO Canto.

O meu sogro: ANTÔNIO Alberto de Souza.

E ainda tive uma bisavó chamada ANTÔNIA.

Nenhum deles está mais entre nós. A sequência de Antônios talvez seja reiniciada com algum neto, futuramente.

Banquete frustrado

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Nunca matei um passarinho. Eu tinha estilingue (funda, como chamávamos em Jaguaruna), mas gastava a minha munição de pedras, bolinhas de gude ou bagas de mamona apenas em alvos fixos e sem vida. Não me conformava com o fato de alguns de meus amigos matarem os bichinhos só por esporte.

Um dia, quando eu era bem pequeno, o meu primo Dalton matou um passarinho. Uma rolinha, acho. Mas dessa vez não lamentei, porque ele tinha planos para o pequeno animalzinho abatido: iríamos comê-lo no almoço. Na verdade, fiquei todo entusiasmado com a nova experiência.

O passarinho então foi depenado, aberto ao meio, expurgado das partes não aproveitáveis e colocado à espera num pires até a hora do almoço. O pires com a pequena ave foi guardado num armário da cozinha fora da minha vista e alto o bastante para impedir que eu ficasse mexendo.

Passei horas ansiosas imaginando que o gosto daquela iguaria, que a minha mãe se prontificou a preparar especialmente para mim e para o meu primo, até porque não dava para dividir com muita gente. Para passar o tempo, fomos brincar na rua.

Finalmente, chegou a hora de preparar o nosso banquete, e corri para a cozinha, disposto a acompanhar todo o processo. Com os olhinhos brilhando acima do rosto sujo e com a reverência de quem acompanha um ritual de sacrifício, fiquei esperando o Dalton retirar do armário o que seria o nosso almoço.

Então senti o chão sumir sob os meus pés. O pires estava vazio! O prato principal do nosso almoço havia sumido!

O que teria acontecido? Mistério nenhum. O gato da casa se antecipara a nós. Sorte dele que eu também não gostava de matar gatos!

Confissão de adolescente

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Eu era bom aluno. Tinha facilidade para aprender e estudava muito pouco fora do horário de aula. Quando a prova exigia apenas que se reproduzisse o texto do livro ou do caderno para responder às perguntas, eu me sentava em algum lugar e decorava quantas páginas fossem necessárias, às vezes quando já estava pronto para ir à escola. Vez por outra, tirava uma nota um pouco baixa, mais por desatenção ou por um “branco” ocasional.

Eu via os meus colegas escondendo papeizinhos com cola na manga do uniforme ou escrevendo fórmulas na palma da mão e até achava engraçado. Também acontecia de todo mundo querer sentar perto de mim em dia prova. Eu não gostava de ficar soprando respostas, embora fizesse isso às vezes, mas não me importava se alguém copiasse alguma resposta de mim.

Mas venho aqui confessar o meu pecado: eu também colei na escola. Foram apenas duas vezes, uma vez no primário (quarta série, eu acho) e outra vez no ginásio. Fora isso, devo ter conferido uma ou duas vezes a minha resposta com a do colega do lado.

A primeira vez que colei foi num teste de geografia. Eu havia faltado à aula e não me preocupei em copiar a matéria de ninguém. Assim, chegou o dia da prova e eu não estava preparado. Alguém me falou que seriam cinco questões, e em cada questão teríamos de escrever o nome dos estados que formavam uma das regiões do Brasil. Sem tempo para decorar, copiei num papel bem pequeno, em letra bem miúda, todas as siglas dos estados por região. Na hora da prova, coloquei o papelzinho debaixo da folha para facilitar a consulta. Tirei dez.

A segunda vez foi numa prova de técnicas comerciais. Eu havia esquecido que era prova. Alguma coisa eu sabia, mas era muito pouco para conseguir uma nota decente. Como não havia preparado cola, retirei o caderno de baixo da carteira e copiei o que pude. Num certo momento, quando vi o professor mais distraído, cheguei a colocar o caderno em cima da carteira. Não tirei dez, mas ainda me saí bem.