Sobre mudanças e apreensões

Estou para me mudar. De cidade. De rotina. De planos.

E toda mudança, ainda que impelida por boas expectativas, tem as suas apreensões.

Despedidas.

Abandono da zona de conforto.

Lembranças e planos que se misturam.

Incertezas. (Estou magoando alguém ao partir? Devia ter ficado mais um pouco? Estou indo para o lugar certo? As coisas vão sair como planejei? O que faço com esta caneca do Elvis?)

Arranjos de última hora.

A viagem, aquela espécie de limbo, em que não se pertence a lugar nenhum.

A chegada, uma incógnita. Porque, apesar dos planos, do otimismo e de relativas garantias, ninguém pode ter certeza de nada.

O futuro a Deus pertence, diz o clichê, mas o problema é saber onde o meu se encaixa.

Se me concentrar em Deus, ele aplainará os meus caminhos, diz a Bíblia, mas nem sempre consigo ver para onde estou sendo levado.

Aguardo uma orientação menos sutil, mas não ouço vozes interiores. Nenhuma criatura luminosa vem me visitar. As jumentas não falam comigo.

Contudo, me apanho crendo. (“Se a paz sobre nós seu véu descer/ Se a tempestade a terra abalar…”)

É que a fé tem as suas apreensões também, conclui este meu ser incoerente.

Mas como é possível ter fé e estar apreensivo? Não sei. (Ah, Chicó!) Só sei que é assim.

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Lições Bíblicas: “Os pães da proposição”

Lição 12 — 3.° trimestre de 2018

A lição utiliza-se dos pães da proposição para destacar dois símbolos do pão nas Escrituras: a Palavra de Deus; Jesus, como “o pão que desceu do céu”.

Os pães da proposição
Para esta seção, destaco a explicação da Enciclopédia de Bíblia teologia e filosofia, de Russell Norman Champlin e João Marques Bentes:

Ao falar sobre os pães da proposição, entretanto, as Escrituras utilizam-se de quatro descrições designativas distintas, no Antigo Testamento: 1. “pães da proposição” [Êx 25.30]; 2. “doze pães” [Lv 24.5-7]; 3. “mesa da proposição” (Nm 4.7); e 4. “pão contínuo da proposição” [2Cr 2.4]. A primeira dessas designações fala sobre o “pão da face” ou “pão da presença”. Há um paralelo na expressão assíria akalpanu. A segunda dessas designações refere-se ao pão como um memorial. A terceira, ao pão como uma exposição permanente. E a quarta dessas expressões como um arranjo ou arrumação, ou seja, sobre a mesa onde aqueles pães ficavam expostos. Essa variedade de nomes, aplicada aos pães da proposição, indica a importância que esses pães tinham, dentro do cerimonial do tabernáculo e do templo de Jerusalém.

A Palavra de Deus, o pão da vida
A expressão “o pão da vida” é atribuída a Jesus na Bíblia (veja Jo 6.35, na Leitura diária”). Seu uso aqui pode gerar alguma confusão, mas é também aplicável ao fato de a Palavra ser o nosso alimento espiritual e, portanto, o que nos mantém vivos espiritualmente. Sugiro a consulta a comentários sobre o salmo 119. Você poderá extrair e repassar aos alunos interessantes aspectos da influência e dos benefícios das Escrituras em nossa vida. O autor menciona a resposta de Jesus a Satanás durante a tentação no deserto (baseada em Dt 8.3). Isso fala não só de sustento, mas também do estabelecimento de prioridades na vida cristã. Então, vamos lá:

A recusa de Cristo em transformar pedras em pães para se alimentar pode ser explicada de maneira simples. Se na hora em que estivermos almoçando o nosso filho sofrer um acidente, não há dúvidas de que vamos nos levantar imediatamente da mesa e correr para o hospital. Só voltaremos a pensar em comida quando situação se acalmar. A satisfação de uma necessidade legítima fica em segundo plano quando algo mais importante está em pauta. Foi por isso que o escravo de Abraão se recusou a comer antes de resolver a questão do casamento de Isaque. Jesus pensava da mesma maneira.

A luta espiritual no deserto era tão intensa que Jesus não dispensou ao corpo um segundo de atenção além do necessário. Com certeza, ele não queria se distrair na luta contra o seu perigoso oponente, porque o propósito da tentação, como se sabe, era minar as bases de seu ministério. Ceder à tentação da satisfação pessoal naquela hora, ainda que tal ato fosse justificável, seria comprometedor  para o seu ministério porque a ideia era que o Filho do Homem prestasse serviço à humanidade, e não o contrário. Transformar pedras em pão no momento sugerido por Satanás (que seria o pior momento, alguém duvida?) significaria desprezar algo que era prioridade na missão.

Jesus Cristo, o pão que desceu do céu
Você pode estabelecer uma relação entre Jesus, como “o pão que desceu do céu” e o maná, que sustentou os israelitas no deserto (Êx 16; faça um paralelo com Jo 6.41-58). Como auxílio, o comentário de  William Hendriksen, em seu  Comentário do Novo Testamento, sobre a passagem de João (grifos do original):

Para o contraste entre o “pão comum e o maná do céu”, cuja antítese os judeus tinham proposto, Jesus ofereceu um contraste ainda melhor: O “pão” (maná), considerado como um tipo, versus o pão verdadeiro, “Eu mesmo”, o Antítipo. […]  A maior objeção dos judeus foi à declaração de Cristo a respeito de si mesmo […]. Portanto, lemos, porque dissera: Eu (mesmo) sou o pão que desceu do céu. Ele mesmo, e não o maná que fora dado a seus ancestrais, era o verdadeiro pão que, tanto sustentava quanto dava vida. […]  Note: o crente “tem”, aqui e agora, a vida eterna. Esta vida é dom de Jesus, como o “pão da vida”. Conseqüentemente, este pensamento se repete: Eu sou o pão da vida [cf. 6.35). Este pão faz o que nenhum outro pão, nem mesmo o maná, fez ou é capaz de fazer: ele concede e sustenta a vida, banindo a morte. Ele confere e sustém a vida espiritual, banindo a morte espiritual. Entretanto, ele também afeta o corpo, ressuscitando-o no último dia, para que seja conforme ao glorioso corpo daquele que é o Pão da vida (cf. Fp 3.21).

A semente sempre morre (reedição)

Grain of Wheat Dies

Na década de 1970, um obreiro do Rio Grande do Sul foi convidado para pregar na AD de Jaguaruna. Eu tinha uns 11 ou 12 anos, e ele cismou que eu ia ser missionário ou algo assim. Um dia, pouco antes do culto, ele estava lá em casa e me chamou para perto de si. Com a Bíblia aberta, mostrou-me uma passagem bíblica e explicou em poucas palavras como dividir um sermão. Após o curso de homilética mais rápido da história, ele me perguntou sobre qual texto eu gostaria de pregar. Escolhi João 12.24: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto”. No culto à noite, ele me chamou ao púlpito para que eu lesse o texto e fizesse um breve comentário. Acrescentei uma poucas palavras ao que havia lido, e a igreja explodiu em “glórias” e “aleluias” (mas não se iluda com o projetinho de Spurgeon: aquela igreja “glorificava” por qualquer coisa).

Até hoje me pergunto por que escolhi aquele texto, mas a ideia da semente me fascina desde então. O motivo é o seu ciclo paradoxal: ela precisa desaparecer para ser algo, e esse algo produz novas sementes que precisam desaparecer. É também o grande apelo do evangelho: para ser o que Deus quer, você tem de negar a si mesmo. Para ser, deixe de ser. É como diz uma composição de Edison Coelho: “Eu devo ser não eu,/ mas devo ser alguém/ que renuncie o ser/ para só ser o bem”. Deus nos chama para a vida produtiva por meio dessa morte. A conclusão óbvia é que a semente que não morre não produz fruto.

Mas a semente sempre morre. Se ela não se desfaz no solo, está condenada à morte de não morrer. A semente traz em si o esboço dos futuros órgãos da planta, mas não passará de um esboço se não cair na terra. Por si só, ela não cresce nem se move, e detectar vida nela é quase impossível. Não importa por quanto tempo seja preservada, ela jamais será planta. É a morte que não se deseja para a semente, porque o “fruto”, que é o nosso potencial, se perde na casca.

O conhecido episódio do encontro entre Cristo e o moço rico exemplifica esse tipo de morte. O jovem tinha qualidades impressionantes, mas ainda era uma semente. De fato, uma semente pode ser impressionante. O coco do mar, do arquipélago de Seicheles, no oceano Índico, chega a pesar 30 quilos. É a maior semente do mundo. Mas continua sendo uma semente. O jovem rico era como o coco de Seicheles. Impressionante, mas inútil para os planos de Deus. Ele preferiu o segundo tipo de morte. Então, se a morte é inevitável, escolhamos morrer no terreno da vontade divina.

Lições Bíblicas: “A lâmpada arderá continuamente”

Lição 11 — 3.° trimestre de 2018

O universo era escuro, caótico. Então Deus disse: “Haja luz”. Após a Queda, a humanidade mergulhou em outro tipo de escuridão, a espiritual, até que “o povo que andava em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região da sombra da morte, resplandeceu-lhes a luz” (Is 9.2). Cristo veio esclarecer as coisas, veio desfazer a confusão que reinava num mundo sem esperança, onde todos estavam condenados, até mesmo os fiéis cumpridores da Lei — que não conseguiam cumpri-la, na verdade (Rm 3). Algo que vale a pena lembrar: a luz é mais forte que as trevas. A escuridão não consegue repelir a luz, não tem força para invadi-la. O contrário é que acontece: aonde quer que chegue a luz, a escuridão se dissipa. Esse é o nosso poder sobre o mundo, mas parece que desconhecemos a nossa força.

O candelabro de ouro
Uma curiosidade, apontada pelo Daladier Santos: “O castiçal que aparece na revista CPAD se refere ao Chanucá […], uma festa judaica, também conhecido como o Festival das luzes. “Chanucá” é uma palavra hebraica que significa “dedicação” ou “inauguração”. […] Esta festa tinha um candelabro de 9 braços. Ainda alguns judeus a comemoram como lembrança de sua independência pelos Macabeus. Portanto o candelabro que aparece na revista da CPAD está errado, pois o original do tabernáculo e o que está em Jerusalém em exposição tem sete braços”.

Jesus, a luz eterna e perfeita
Muito interessante a explicação de William Barclay, em seu comentário da passagem de Jo 8.12:

No entardecer do primeiro dia da festa [dos tabernáculos] havia uma cerimônia chamada a Iluminação do Templo. Desenvolvia-se no Pátio das mulheres. O pátio estava rodeado por profundas galerias, construídas para dar localização ao público. No centro do pátio se preparavam quatro grandes candelabros. Quando chegava o anoitecer se acendiam os candelabros e, conforme se contava, enviavam um resplendor tão patente por toda Jerusalém que todos os pátios da cidade ficavam iluminados por seu brilho. E depois, durante toda a noite, até que o cantar do galo na manhã seguinte, os homens mais destacados, mais sábios e mais santos de todo o Israel dançavam perante o Senhor e entoavam salmos de alegria e de louvor a Deus enquanto o povo os observava. De maneira que durante a festa dos tabernáculos o resplendor das luzes do templo iluminava a cidade e transpassava a escuridão de suas praças, pátios e ruas. O que Jesus diz é o seguinte: “Viram que o resplendor das luzes do templo atravessa a escuridão da noite. Eu sou a Luz do mundo e para o homem que me siga haverá luz, não só durante uma noite de festa, mas também durante todo o trajeto de sua vida. A luz do templo é brilhante, mas ao final se debilita e desaparece. Eu sou para os homens a luz que permanece para sempre.”

Mantendo a luz brilhando continuamente
As ações do justo são pequenas lâmpadas que tentam compensar a escuridão da noite, embora ele esteja ciente de que a rua ainda permanecerá na maior parte escura e assustadora. É como a história do sujeito que lança estrelas do mar de volta ao oceano: ele sabe que milhares de outras morrerão na praia, mas não aquelas. Acendemos uma lâmpada quando nos recusamos a prejudicar alguém, quando denunciamos o mal ou mesmo quando o sofremos sem culpa. A justiça brilha nos que fazem leis justas e nos que se recusam a cumprir leis injustas e entre os que continuam pobres ou anônimos por não se venderem. É assim que tornamos a rua um pouco mais iluminada.

Lembre os alunos de que o mundo só conhecerá a justiça plena quando Cristo reinar neste mundo e todas as sombras fugirem ao brilho abrangente do Sol divino. A justiça é o estado final das coisas, e só Deus poderá implantá-la no mundo de modo definitivo. As notícias que margeiam a barra de rolagem de um único site bastam para nos convencer disso. O mundo está cada vez mais tortuoso e jamais encontrará sozinho a retidão. Assim, enquanto o Sol não brilha, resta ao crente alegrar-se no fato de ser justo e orgulhar-se de pelo menos contribuir para que a grande rua deste mundo não mergulhe na escuridão total.

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