Morre o evangelista internacional Morris Cerullo

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Morreu na madrugada de hoje, aos 88 anos, o evangelista internacional Morris Cerullo. Não sei quanto da autenticidade de seu ministério evangelístico em seus primeiros anos de fé, porém ele se destacou muito mais após se metamorfosear em guru da teologia da prosperidade. Como só noticio a morte de figuras conhecidas do mundo cristão com quem tive alguma interação, lembro que interagi com ele em duas ocasiões.

Começo com a segunda, de forma indireta, quando trabalhei como um dos revisores em sua Bíblia de estudo batalha espiritual e vitória financeira (lançada no Brasil pela Central Gospel), um daqueles trabalhos que o profissional só pode classificar entre os ossos do ofício. A primeira foi quando assistia a uma campanha realizada na cidade de Joinville (SC). Narro os detalhes mais adiante.

Tenho de dizer que Cerullo é o caso típico de fama no mundo cristão que não deve ser confundida com gigantismo espiritual. Para mim, representa um exemplo execrável de fé distorcida (se tal existiu algum dia no caso dele). Penso que alguém com esse currículo talvez nem deva ser contado entre os cristãos. As razões já foram explicitadas aqui mesmo no blog e reproduzo a seguir.

Deparei no site do pastor Caio Fábio com a denúncia de que Cerullo forjava milagres de curas com falsos paralíticos em suas cruzadas. Também assisti a uma de suas cruzadas, mas, como simples espectador no meio de milhares de animados assembleianos, tendo ouvido apenas maravilhas acerca do milionário evangelista, nem mesmo cogitava tais manobras. No entanto, não precisei testemunhar nenhuma fraude para ficar decepcionado. Um fato que presenciei deixou-me bastante chocado e triste. Relato-o agora aos meus poucos e fiéis leitores.

No início da década de 1980 (a mesma a que remete a denúncia de Caio Fábio), Morris Cerullo fez uma cruzada em Joinville, a convite do pastor Satyro Loureiro, o qual, apresso-me a dizer, não tinha outra intenção a não ser a salvação de almas e curas divinas. Já no final da reunião da noite, numa cena digna dos evangelhos, alguns homens carregando um velho sofá abriram caminho entre a multidão. Deitado no sofá, estava um homem de aspecto cadavérico, muito pálido, talvez um doente de câncer em estado terminal. Com muito esforço, chegaram junto ao palanque. Um admirável ato de fé, sem dúvida.

Cerullo já havia orado pelos enfermos. A reunião estava sendo encerrada, mas ele ainda estava na plataforma. Fiquei observando, na expectativa de que algo grandioso fosse acontecer. O aclamado evangelista olhou para os homens que carregavam o amigo doente e então tomou uma atitude: virou as costas e, seguido pelos seguranças, foi para o hotel.

Houve ainda uma reunião num ginásio de esporte da cidade, com aparato semelhante ao da campanha, sob o pretexto do anúncio de uma grande profecia. Longa mensagem para dizer apenas que o mundo devia se preparar para “grandes descobertas espirituais”. O desfecho foi o apelo a uma grande oferta em dinheiro, cada alegre contribuinte apresentando as cédulas com a mão fechada e erguida diante de Deus.

Mas sou grato a Cerullo, porque esses dois golpes certeiros na pouca credulidade que ainda ainda conservava nesse tipo de empreendimento levaram-me a buscar respostas e a entender melhor o significado do evangelho.

Mero cristianismo

Dois mil anos se passaram.

E tem gente discutindo se o monopólio da igreja pertence aos católicos ou aos protestantes.

E tem gente mais aferrada a credos, confissões e estatutos que ao evangelho.

E tem gente pregando que só uma fina estirpe, registrada no cartório da Reforma, terá direito ao Lar eterno.

E tem gente que acredita que a salvação pode ser bloqueada e desbloqueada a qualquer momento, como amizade do Facebook.

E tem gente achando que quem usa bermuda vai para o inferno.

E tem gente delimitando o que o Deus soberano faz ou deixa de fazer.

E tem gente convicta de que sua denominação de cem anos finalmente descobriu a verdade.

E tem gente que não consegue distinguir igreja de templo.

E tem gente pagando bênção com carnê.

E tem gente venerando arcas de isopor.

Aquela teoria de que Cristo desceu da cruz e migrou para a Índia já não me parece tão absurda.

O mistério do açucareiro

AçucareiroNuma tarde de setembro, quando ainda morava em Jaguaruna, estranhei ver o açucareiro, que mantinha em cima da geladeira (foto), com a tampa levantada. Havia uns três dias que não usava açúcar e tinha certeza de que ele estava fechado. Sem ânimo para conjecturas, baixei a tampa e voltei ao computador, pois o trabalho costuma me preocupar bem mais que os enigmas domésticos.

Uma hora depois, voltei à cozinha e lá estava o dito cujo expondo de novo a sua doçura interior ao mundo. A ideia de a casa ser habitada por algum espírito, um pneuma brincalhão, passou-me rapidamente pela cabeça, mas não tempo suficiente para me convencer. Baixei a tampa mais uma vez e voltei ao trabalho.

Mais uma ida à cozinha, e agora a tampa erguida parecia caçoar de mim numa gargalhada muda. Pela terceira vez, empurrei-a para baixo. Mas então resolvi ficar de tocaia, a fim de resolver o mistério.

Segundos depois, a tampa começou a tremer e a ensaiar nova e autônoma abertura. E tudo foi esclarecido.

Era um pneuma, sim, mas não um espírito com vontade própria: apenas o vento que entrava pela janela e sem dificuldades empurrava de passagem a leve tampa de plástico para cima.

Aí só faltou descobrir o que eram aquelas batidas metálicas perto da minha janela de madrugada. Mudei-me para Joinville sem descobrir esse outro mistério.

Xará infeliz

Pego um livro na expectativa de uma leitura relaxante e eis que deparo com este trecho:

Erros irreversíveis

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