Morre Arézia Cabral

Morreu ontem a irmã Arézia Lessa Cabral, esposa do pastor Elienai Cabral, que exerce um profícuo ministério de ensino no âmbito das Assembleias de Deus. Arézia também se dedicava ao ensino bíblico. Pude vê-la atuando uma única vez em Joinville, na década de 1980. O pastor Elienai emitiu este comunicado:

Descansou em Deus minha querida esposa, Arézia, nessa noite. Serviu a Deus ao meu lado por 51 belos anos. Mãe, avó e bisavó. Louvo sua vida e amor. No decorrer desse domingo, darei mais informações sobre o sepultamento que deverá acontecer na segunda-feira, pela manhã.

O mistério da geladeira

Dias atrás, a geladeira da quitinete que alugo desde que retornei a Curitiba começou a emitir um odor estranho, não aquele cheiro característico que pode ser combatido com um simples desodorizante, mas de coisa estragada mesmo. Na condição de solteiro com limitadíssimas aptidões culinárias, não guardo muita coisa nesse espaço refrigerado, exceto alguma carne no congelador e água, lacticínios, sucos, ovos, verduras, legumes e alguns potes de produtos diversos distribuídos pelas prateleiras e gavetas, tudo em quantidades mínimas.  

Numa rápida conferência visual, não vi nada que parecesse a fonte do mau cheiro. As carnes congeladas, como a maioria dos outros itens, eram de pouco tempo, os vegetais não estavam passados e os potinhos descansavam indolentes na porta fazendo companhia aos sucos e ao leite.

Intrigado, aprofundei a investigação e só consegui parecer um retardado cheirando as partes íntimas e frias do monstrinho de lata. Como nada sugeria (na minha modesta opinião) uma limpeza urgente, o mistério tornou-se ainda mais profundo e malcheiroso.

Como sei que os maus espíritos, como criaturas mal-educadas que são, costumam exalar odores fétidos para atormentar as pessoas, cheguei a pensar na possibilidade de a geladeira estar possuída. Mas como ela nunca chacoalhou, nem levitou, nem me xingou em latim, acabei descartando a ideia.

Então, ontem, após mais de uma semana de tribulações olfativas, finalmente resolvi o mistério. Um potinho de requeijão light, que não estava bem fechado e escapara à minha inspeção visual, expelia por uma abertura ínfima as evidências do fim de sua validade. Expurgada a causa do problema, tudo voltou ao normal.

Deixo então aos leitores esta preciosa lição: um milímetro de negligência pode gerar dias de sofrência.

Coisas que só eu vejo nos seriados (34)

Janela quase discreta

No sétimo episódio da primeira temporada de The Young Pope, o cardeal Voiello, chegado a uma intriga, convida o colega Michael Spencer a observar o papa pela janela aberta.

Mas na tomada de fora a janela está fechada.

Breves notas sobre as palavras de Jesus: extratos da aula 29

Os pobres (humildes) de espírito
Mateus 5.3, ARA

O Sermão do Monte (Mt 5—7) é a base da doutrina de Jesus. As bem-aventuranças podem ser consideradas a base dessa base. E, como em Mateus é fácil deduzir que elas seguem uma sequência lógica, a primeira virtude da lista — a pobreza de espírito — constitui a base da base da base. Não há como entender plenamente o que Cristo espera de seus seguidores sem conhecer o significado de ser pobre de espírito.

Bem-aventurados os humildes [pobres] de espírito, porque deles é o reino dos céus.

  • O pobre de espírito não é o pobre, a chamada vítima da sociedade. Não existe uma bem-aventurança automática creditada a alguém só porque ele é desprovido de recursos materiais ou desfavorecido com relação a outros membros da sociedade. As virtudes que Cristo espera de seus seguidores não estão vinculadas a posses materiais ou status social. A razão é simples: o pobre pode ser orgulhoso, ganancioso, cruel, injusto e depravado, como qualquer pessoa. Nada garante que um pobre seja manso, misericordioso, pacificador, e assim por diante. Sem dúvida, Deus se preocupa com os pobres (Lv 19.9-10; Tg 1.27), mas não faz acepção quando a moral e a espiritualidade estão envolvidas (Lv 19.15; ver Dt 1.17; At 10.34-35).
  • A passagem paralela de Lucas 6.20 menciona apenas os “pobres” nessa bem-aventurança. A razão é que nos tempos de Cristo (e em outras épocas também) os ricos tendiam a transigir com o paganismo, e era entre os pobres que se encontravam as pessoas mais piedosas, ou seja, estatisticamente os pobres eram mais fieis que os ricos. Convém lembrar ainda que na cultura judaica os ricos eram tidos por bem-aventurados, não os pobres.
  • No princípio, ser “pobre” significava passar necessidades materiais. Mas como os necessitados geralmente não tinham outro refúgio a não ser Deus, a “pobreza” recebeu nuances espirituais e passou a ser uma humilde dependência de Deus.
  • O pobre de espírito também não é o crente “fraco” (Rm 14) nem o de pouca instrução, que nos arraiais eclesiásticos são chamados “humildes”. Nenhuma dessas condições diz respeito ao que Jesus tem em vista aqui. O crente “fraco” é simplesmente alguém que precisa robustecer sua espiritualidade, e o “humilde” não passa do crente que precisa se instruir. Não é raro nas igrejas pessoas terem certo orgulho de sua ignorância, como se isso lhes desse algum crédito espiritual. Nem o orgulho nem a ignorância são esperados de um seguidor de Cristo, como ele mesmo diz: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11.28).
  • O pobre de espírito é aquele que se aproxima de Deus e, quanto mais próximo dele, mais consciência tem de sua condição miserável. Nessa proximidade, ele também percebe o estado decaído do mundo e se convence de que a única esperança de salvação reside em Deus. De nada importa a quantidade de recursos materiais que possua ou o estrato social a que pertença, tudo se dissolve diante das riquezas da graça. Então ele reconhece a sua pobreza e passa a depender exclusivamente de Deus. Um hino da Harpa cristã diz: “Às alturas santas ninguém voa sem as asas da humilhação”. Quem não alcança essa percepção é um simples iludido com a autossuficiência e cai na condenação de Laodiceia (Ap 3.17).
  • O orgulho espiritual ou religioso impede a sintonia plena com Deus, pois o pobre de espírito é aquele se esvazia do humano para ser cheio do divino. Mas devemos cuidar para não nos orgulharmos de nossa pobreza de espírito, porque o orgulho espiritual é estática em nossa comunicação com Deus. Os fariseus tinham bons propósitos no início, porque trabalhavam para trazer o povo de volta à obediência da Lei. Mas depois começaram a entupir o canal com as suas regras e tradições e passaram a admirar a própria piedade. Com isso, perderam a sintonia com Deus, como o rio que se torna mais poluído à medida que se afasta na nascente e se aproxima das cidades. Assim, quando o Messias chegou, estavam tão desconectados de Deus que nem foram capazes de reconhecê-lo.
  • O Reino dos céus pertence ao pobre de espírito aqui e na eternidade porque “ninguém há que tenha deixado casa, ou mulher, ou irmãos, ou pais, ou filhos, por causa do reino de Deus, que não receba, no presente, muitas vezes mais e, no mundo por vir, a vida eterna” (Lc 18.29-30). Essa bem-aventurança encerra um dos maravilhosos paradoxos da fé cristã: o pobre de espírito fica sem nada para ter tudo (Mt 16.25).