“Ovelha” não é elogio

Não sei por que nós, cristãos, fazemos tanta questão de dizer que somos ovelhas. São as criaturas mais toscas da face da terra. A ovelha foi o animal que primeiro se deixou domesticar, concordando com as limitações do curral e submetendo-se ao humor do guia humano na obtenção de alimento e abrigo. Ela abandona os filhotes para não se separar do grupo, depois precisa ter a perna quebrada para não se perder do mesmo grupo pelo qual abandonou os filhotes e se cair de mau jeito não sabe nem se virar, morre de fome e sede contemplando o céu.

Foi a esse animal estúpido que o supremo Pastor nos comparou. Mas foi com o maior carinho. Ele esclarece: “Vocês são tosquinhas, mas eu sou bom”. Isso resolve a questão e também dissipa qualquer dúvida de malícia no epíteto pouco elogioso. Por ser bom, ele nos ama de verdade e nos defende com a própria vida. Seu cajado mágico nos conduz a vales deslumbrantes, onde nos regalamos no pasto verdinho e nas fontes de água fresca e cristalina. Devolvemos a gentileza com lã, queijo roquefort e mesmo com a nossa carne, às vezes oferecida num sacrifício que não entendemos bem.

Há outros pastores também, alguns providos daquela bondade que define o vinho, apesar das inevitáveis deficiências, as quais tentam compensar com bons discursos, mesmo conscientes de que não atingirão as virtudes e metas neles proclamadas. São, no entanto, bons pastores, confiáveis até onde o homem pode ser. Proliferam, contudo, os pastores que têm no espírito puro vinagre, e as ovelhas só os seguem porque, como já se demonstrou, são burras e dependentes. Com promessas mirabolantes, eles conduzem o rebanho a pastagens estorricadas, dão-lhe água poluída com a mais nova fórmula de detergente e fazem tosquia no inverno. E a ovelha tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

Entretanto, forçadas a conviver com as teologias malandras que redundam em anúncios de milagres a preço tabelado e poderes que não servem para nada, algumas ovelhas começaram a desconfiar, apesar de serem ovelhas. Foi assim que redescobriram o poder do balido, recurso que lhes permite expressar diretamente ao supremo Pastor os seus reais sentimentos, dúvidas e necessidades e até os seus protestos (olha só, ovelhas evoluem!), seja na privacidade de seu cantinho no curral, seja na publicidade da Internet. O bom Pastor entenderá e tomará providências. Outras ovelhas também entenderão. Já aqueles pastores de índole azedada se mostrarão indiferentes ou, na melhor (ou pior?) das hipóteses, ressentidos. Com isso, provar-se-ão capazes de outra proeza, entre as tantas que alardeiam: a de serem mais toscos que o rebanho.

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