Devemos julgar a letra das músicas? (Parte 1/3)

A recente e insistente discussão em torno da música “Faz um milagre em mim” (ou “Como Zaqueu…”), de Regis Danese, levou-me à pergunta que dá título a este artigo. Respondo de imediato: devemos. Justifico a resposta em seguida e aponto os erros que devem ser evitados. Como em toda discussão, há também quem discorde: para eles, esse julgamento é dispensável. Comecemos com os discordantes.

Li testemunhos de alguns que cantaram a música do Danese, com o cantor ou sem ele. Eles afirmam ter participado de um verdadeiro e sincero ato de adoração. Outros “sentiram a presença de Deus” ou algo assim. Não estranho tais testemunhos. Tenho presenciado isso o tempo todo, em mais de quatro décadas de convivência com o ambiente eclesiástico. Há hino cuja letra não diz absolutamente nada, mas arranca lágrimas da plateia. Se isso define a autêntica espiritualidade, devo entender então que, se a música cantada tem uma letra idiota, confusa ou mesmo herética, ela se presta à adoração e ao louvor, desde que o povo se emocione com ela? Que o ininteligível pode ser louvor se for sincero? Mas como tais palavras podem ser sinceras se o adorador não faz ideia do que está dizendo? Como pode ser louvor o que não passa de um amontoado de asneiras em evangeliquês? Aquela história dos gemidos inexprimíveis do Espírito não se aplica aqui. Ao ouvir certas músicas, por certo o seu gemido é mais de desconsolo.

Temos de admitir que podemos ser enganados pelas nossas emoções. Por pertencer à Assembleia de Deus, tenho um conhecimento enciclopédico do assunto, até meio sem querer. Entretanto, confundir emoção com espírito de adoração não é privilégio dos pentecostais, é próprio de todo ser humano confinado à esfera religiosa. Entendo que nesses casos a música é mero pretexto. Estamos querendo extravasar algo de nosso íntimo ou mesmo nos emocionar. Isso não é adoração, é cartarse. (Em tempo: não vejo problema na emoção diante de Deus, como já escrevi aqui. A adoração está ligada à emoção, mas nem toda emoção que sentimos no culto é adoração. Entendo também que a emoção pode ser legítima sem ser adoração.)

A ideia de que sentir-se bem com uma música na igreja autentica o clima espiritual saudável, portanto, não procede. Faz parte do que chamamos “teologia popular”, aquela casca de convicções pouco abalizadas que acaba encobrindo a teologia saudável. É um terreno perigoso, do qual podem brotar figueiras, mas também é propício aos espinheiros. Teologia popular é aquela que demitiu o guardião da verdade e virou terra de ninguém, favorecendo a confusão. E todos hão de concordar que uma adoração expressa em palavras sem sentido não é o que Deus está buscando.

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5 comentários em “Devemos julgar a letra das músicas? (Parte 1/3)

  1. Prezados irmãos sugiro principalmente os que cantam que não continuem dizendo que são Levitas. Não são, pois Levitas só eram os da tribo de Levi. Cantar, louvar entre outras coisas do genero, não é Ministério, é dever , gratidão. Certo.

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  2. pert enco a igreja catolica, e muitas vezes me indigno com o comportamento de alguns fieis, pois durante a leitura da palavra as pessoas “aproveitam” para conversar,levantar do banco para tomar agua,etc.Mas, qdo a musica toca todos estao a postos.Eu sempre me quetiono o que todos vieram fazer aqui que nao se alimentar da palavra?

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  3. Olá Judson!
    Só não acho como deve-se julgar a letra do hino. Eu particularmente me preocupo muito com a letra do hino que vou cantar. Particularmente, se for hino pra exaltação do homen, hinos de auto-ajuda, me recuso a cantar. Canto somente aquilo que for pra exaltação do nome do Senhor, pra adoração. Mas uma coisa te confesso…. minha vida eh cantar, sem isso não sei o que seria de mim. Amo louvar, amo cantar, enfim, sou um Levita, com minhas falhas e defeitos, porém, tento fazer o melhor.
    Abraços meu amigo.
    Moisés Vieira

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  4. Judson,
    A questão é mesmo como você, com sapiência, expôs. A música, só ela, é sim capaz de levar-nos a uma introspecção profunda. Ela pode, conforme a melodia, formar uma grande egrégora, envolvendo a todos. Isso significa que não há necessidade de entendimento de nenhum tipo de letra/poesia, pois a harmonia, por si só, é suficientemente envolvente, levando da simples e inconsciente emoção à adoração. Porém, quando se trata de shows ou apresentações ao vivo, a interpretação pode ser completamente diferente. Em casos tais, sobressai a emoção de apenas ver e ouvir, por entretenimento.

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  5. Excelente!

    Acho que será bem frutífera aquela nossa “outra discussão” por e-mail.

    De fato a emoção é bem vinda quando consequência de um pensamento ou liturgia que esteja baseado na escritura.

    A emoção gratuita leva apenas à diversão da alma.
    Os espíritas se emocionam, os islâmicos idem, os bahais também, e todas as manifestações religiosas se emocionam, mas a emoção em si não é chancela de verdade espiritual, nem mesmo falar em línguas (que é assinatura dos pentecostais) uma vez que no centro de umbanda e os muçulmanos também falam em línguas….

    Hoje eu até sou mais radical (ainda tolero), mas faço restrição a qualquer expressão que seja “irracional”, ou seja, despojada de conteúdo verbal que permita a pessoa pensar nos motivos da adoração.

    Exemplo: Um solo de música… (exceto aqueles onde a música é tão conhecida que as pessoas pensarão na letra e terão consequente edificação racional) que em geral serve só para a exautação de quem toca, concerto de música clássica na igreja…. (já vi com estes olhos que a terra há de comer, tocarem Aida na igreja (e dê-lhe emoção na igreja qua achava que estava ouvindo música sacra…) enfim… o culto deve ser racional e a emoção que vier disto deve ser consequência e não o objetivo final. Danças…

    Eu sou chorão, mas sempre estou com o “alerta” ligado para não dar vazão para enganar a minha própria mente com emocionalismo.

    Todas estas expressões culturais são bem vindas, mas não no culto para adoração, mas fora dele, existem lugares próprios para isto.

    Assim se eu quero me divertir, não é à igreja que devo ir.

    Mas infelizmente, hoje na maioria das igrejas, e no seu habitat com muita ênfase (com todo o respeito afinal foi onde fui criança), toda a liturgia é feita para “divertir” a alma dos que ali estão.

    E de tal forma feito, que se o culto não tiver estes elementos, o cara vai para a casa achando que o culto foi ruim (não se divertiu, não se emocionou, não foi oferecer nada foi apenas receber a “benção”).

    Eu quando estou bem irônico costumo dizer que de muitas igrejas (digo cultos), se tirarmos o nome de Jesus do seu contexto, quase ninguém vai sentir falta, mas se tirarmos estes elementos (hino especial, testemunhos da própria espiritualidade, exautação da antiga pecaminosidade – quanto mais pecador supostamente tiver sido mais emoção vai tirar da platéia, apresentações show de corais, orquestras, etc..) se tirarem estes elementos… o povo aí sim vai sentir falta.

    Fui num culto (faz algum tempo) na IEAD (me desculpe me delongar), e teve de tudo (disfarçado de envagelho), teve mensagem seicho-noiê (como se escreve isto?), teve auto-ajuda evangelical, teve mensagem de motivação e tudo num só culto… saí de lá muito triste, principalmente por ver ao redor de mim e perceber que as pessoas não percebiam que estavam sendo enganadas, não percebiam que o conteúdo da mensagem era claramente anti-bíblico, e principalmente choravam e se emocionavam com tudo aquilo.

    Claro que o pregador leu um versículo no início do texto, mas depois passou a contar história e o versículo só serviu de pretexto para o conteúdo neurolingüístico evangelical que ele pretendia dar.

    A pregação com algumas pequenas alterações (tirava o versículo fora e mais um dois “Jesus” que ele pronunciou aqui e ali), serviria de palestra de auto-ajuda em qualquer outro contexto.

    E chamaram isto de pregação da “Palavra”.

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