E se você pudesse nascer outra vez? (Parte 1/2)

Publiquei este artigo, faz uns dez anos, num periódico da CPAD. Reproduzo aqui com as necessárias adaptações.

Não escolhemos nascer, muito menos o ventre que nos trouxe à luz, as nossas características naturais oSalvador Dali - New Manu o lugar do mundo em que aportamos. Misteriosas decisões foram tomadas na eternidade, fazendo nascer mocambeiros e aristocratas, aleijões e apolíneos, burundineses e suíços. A parte o desejo de sempre querer mais, inerente à natureza humana, é razoável pensar que algumas pessoas desejariam realmente a chance de um novo nascimento, pudessem elas mesmas determinar as variáveis que marcariam a sua outra existência.

Ao tetraplégico, não faria muita diferença nascer no Burundi ou na Suíça, se lhe fossem permitidas as realizações mais simples, como caminhar e alimentar-se sozinho. O sertanejo sem chuva e sem lavoura escolheria uma casa onde se pudesse fazer uma refeição decente todos os dias. Claro, haveria quem optasse por nascer herdeiro de Bill Gates ou quem desejasse trocar a vida dura de plebeu para fazer estripulias ostentando um sobrenome real.

Novo nascimento, um desejo antigo

Todavia, se por um lado tais sonhos são impossíveis, por outro a consoladora ideia de um novo nascimento acompanha a humanidade desde os tempos antigos. Conta-se que Pitágoras certa vez censurou uma pessoa que espancava um cachorrinho: “Não bata nele, pois é a alma de um amigo meu! Reconheci-o quando o ouvi ganindo”. Talvez o filósofo estivesse fazendo graça, mas ele cria e ensinava a doutrina da transmigração das almas.

A concepção do retorno da alma a este mundo em sucessivos nascimentos popularizou-se com a chamada “doutrina da reencarnação”, que não é, como muitos pensam, uma invenção de Allan Kardec, o pai do recente espiritismo. A reencarnação consta de tratados religiosos de séculos antes de Cristo e era ensinada até nas escolas judaicas.

Os reencarnacionistas propõem uma série de nascimentos como forma de purificação da alma, até que esta atinja um estado ideal, o nirvana. Assim, segundo essa crença, o incansável nascituro, quem sabe hoje um pacífico rato de biblioteca, pode ter sido um neto de Caim, um soldado romano, um índio quíchua ou um náufrago do Titanic.

Parece insuficiente aos anseios de sua alma? Pois bem, a metempsicose — a citada doutrina da transmigração — ensina que a alma humana também é capaz de dar vida a vegetais e animais, o que pode acrescentar à biografia milenar de nosso pacato intelectual uma existência como limoeiro, ou talvez tenha sido ele o cachorrinho que despertou a compaixão de Pitágoras.

As teorias da reencarnação e da transmigração, inaceitáveis para quem crê no evangelho, refletem no entanto um pensamento correto: ao ser humano é mesmo necessário um novo nascimento.

Parte 2/2.

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4 comentários em “E se você pudesse nascer outra vez? (Parte 1/2)

  1. Dilton – Sobre sua colocação do aperfeiçoamento ocorrer na condição de espírito:
    Na verdade, pelo que entendo e acredito, não! Não seria mais fácil crescer dessa forma, justamente, porque o crescimento se dá na forma física. Como espírito, cada um percebe o pensamento do outro, e assim não há mentiras, falsidades… não há como ser uma pessoa (espírito) ruim, entre eles. As paixões, o egoísmo, os sentimentos bons ou mesquinhos, as frustrações, a maldade, o amor e o ódio, tudo isso, ocorre no mundo físico. Aqui, é que precisamos nos modificar. Agora, não há exigências para que o “homem” acredite nisso. Acreditar no renascimento do espírito em outro personagem não significa facilidades ou dificuldades após a morte… Não há necessidade de se crer. O que precisa, é justamente realizarmos a ideia básicade colocada numa frase, do seu comentário: _Sejamos, pois, bons enquanto pudermos sê-lo! Se conseguirmos, seremos bons aqui… e se houver uma vida após a nossa existência, isso de alguma forma nos ajudará. E se houver um renascimento, quem sabe nem seja preciso ocorrer, já que pudemos crescer o necessário nesta nossa experiência física. abraço!

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  2. Muito legal o texto e as ideias e questionamentos que o Dilton levantou no seu comentario. Essa linha de RACIOCIONIO tem crescido muito aqui nos EUA, junto do atheismo. Pelo menos aqui na regiao de Boston, ou a pessoa simplesmente nao acredita em Deus ou acha que Deus e’ 1 so’ e todas as religioes estao certas, cada um ve Deus de uma forma diferente. Concerteza isso vai crescer muito no BR tambem, questao de tempo.
    Ja usei diversas “taticas” de evangelizacao com esses americanos, consegui ver pouquissimos resultados…muito proximo do zero…nao me chateio porque sei que fiz o que pude e creio que a semente pode ter sido plantada. Mas vejo como que nos evangelicos estao desacreditados, em parte por ataques de Satanas mas em grande parte pelas nossas atitudes. Hoje em dia somos bons para pregar, escrever livros, produzir programas de televisao, organizar mega eventos de massa…mas poucos de nos temos vivido o evangelho, temos a teoria mas a pratica tem sido colocada de lado….a aparencia ta muito legal mas o conteudo se contradiz com principios basicos da Biblia. Milhares e milhares de evangelicos no Brasil e ainda tem gente passando fome. Se fossem milhares de evangelicos segundo a igreja citada em Atos duvido que haveria fome…quando falessem sobre os “evangelicos” a palavra AMOR seria a primeira a vir a mente….e’ obvio tambem que estamos longe disso. De uns anos para ca parei de colocar como prioridade (nao e’ mais prioridade mas continuo buscando) conhecer mais a biblia porque vi que primeiro preciso viver realmente o “arroz e feijao” que ja sei.
    Voltando ao assunto, acho que nos “evangelicos” precisamos viver esse arroz com feijao porque de palavras e argumentos, uma pessoa igual o Dilton esta lotada, ele precisa ver luz.

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  3. Olá Judson, Dilton! Esse texto seguido pelo comentário do Dilton me fez pensar e refletir sobre como o homem tem essa mania infeliz de misturar espiritualidade pura e simples com religião. Religião é instituição humana, sujeita à falhas humanas e distorções igualmente humanas. Religião é letra, costumes, tradições, normas, estatutos, tudo criado pelo próprio homem. No texto o Judson faz referência ao evangelho. Antes do cristianismo, as boas novas de Cristo já estavam por aqui. E acredito que todos devem sim, renascer em Cristo. Mesmo que não tenha esse desejo ardente de nascer de novo, se pudesse, como ponderou Dilton, tudo bem! Então não queira nem pense nisso, mas tenha em mente que muitas coisas na vida, atitudes, idéias, pensamentos e erros cometidos, só mudarão com, metaforicamente falando, esse novo nascimento. Novo nascimento de nossa natureza espiritual. E de todo coração, nada poderá me tirar da presença daquele que eu sei ser o único capaz de me fazer nascer de novo a cada dia: Jesus Cristo, o único mediador entre minha humilde pessoa e Deus!

    Grande abraço queridos!! Deus os abençoe!

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  4. Judson,

    Não me parece unânime a ideia de querer renascer. No particular, bastaria uma vida mais longa, pois só assim os ideais poderiam ser todos alcançados. Quantas coisas vamos deixar de fazer nessa pequena passagem? Quantas realizações ficarão pela metade, frustradas? Demais disso, não convencem as seguintes teses: morremos e reencarnamos para, num novo ciclo, que aparentemente é infindável, continuarmos o crescimento/evolução (reencarnação); morremos e vivificamos para que o nosso espírito possa reencontrar o nosso corpo (o original) (ressurreição).

    Ao que parece, as duas doutrinas indicam claramente que o homem tem medo da morte do corpo físico, haja vista que, nas duas hipóteses, o importante é que o espírito retorne para um corpo qualquer.

    Ora, se há espírito, e ele deve ser perene, qual o motivo de querer voltar para um corpo físico? Para continunar evoluindo? Não seria mais coerente pensar que na condição de espírito o aperfeiçoamento se daria com maior facilidade?

    A verdade, sem questionar a existência ou não de um plano/dimensão diferente desse em que vivemos, é que o “desconhecido” motiva todo tipo de conjectura.

    Se considerarmos a dimensão do universo, o conhecimento que dele possuímos e, também, das coisas divinas, sopesando, ainda, o ínfimo alcance intelectual sobre todo o conjunto, outra não será a conclusão senão a de que nada sabemos sobre nada.

    Crer, então, advém dessa força desconhecida e da nossa própria ignorância. Sejamos, pois, bons enquanto pudermos sê-lo!

    Cada religião prega que ela é a única e verdadeira, que seus princípios, dogmas, preceitos e conceitos estão pautados na sabedoria divina, que só ela conhece.

    Como entender/conciliar a diversidade de religiões, a saber: 1. Panteismo: Deus e todo o universo são uma única e mesma coisa e que Deus não existe como um espírito separado (xamanismo, religiões célticas, druidismo, amazônicas, silvículas norte-americanos, etc.); 2. Politeismo: presença de vários Deuses (Religião grega, egípcia, xintonismo, mitologia nórdica, religião azteca e maia, etc.); 3. Monoteismo: existência de um só Deus (Bhramanismo, zoroastrismo, judaísmo, sikhrismojudaísmo, cristianismo e islamismo – com as ressalvas que fazem entre si); 4. Ateismo: convicção de que Deus não existe (Taoísmo, confuncionismo, budismo, jainismo, etc.).

    Qual delas poderemos seguir sem titubear? A tua? A minha? A de fulano ou a de sicrano?

    OH! DÚVIDA CRUEL! Enquanto isso, seguimos no caminho da benquerença, da compreensão, da solidariedade, da fraternidade e da tolerância, sobretudo.

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