Quem vai ficar com a bagagem? (reedição)

Nos tempos em que Davi liderava um bando de renegados e vivia às turras com o rei Saul, aconteceu um episódio interessante. O pequeno exército, ao retornar de uma jornada, encontrou a cidade em que moravam incendiada e vazia. Os amalequitas a haviam atacado e levado consigo mulheres, crianças e tudo que conseguiram carregar. Sem nenhuma hesitação, decidiram tomar de volta o que lhes fora roubado. Alguns deles, no entanto, estavam cansados demais para encarar outra batalha. Tomou-se então a decisão natural de deixá-los cuidando da bagagem (na verdade, os únicos bens que o grupo agora possuía).

Apesar de representarem um terço do contingente dos soldados, a decisão de não aproveitá-los foi acertada, porque o cansaço deles exerceria influência negativa sobre o moral da tropa. Assim, tinham mais chances de vencer com quatrocentos homens motivados que com seiscentos desanimados — qualquer militar em posição de comando sabe disso. Cabe aqui o princípio que defendi no artigo Quando a melhor ajuda é não fazer nada. Os duzentos homens cansados praticamente garantiram a vitória dos quatrocentos no momento em que concordaram em não participar da batalha. A contrapartida dessa resignação, entretanto, não é a inutilidade, porque os pertences do bando ficaram sob a responsabilidade dos duzentos homens. Naquele momento, a subsistência do grupo dependia deles. Como  negar a importância desse trabalho?

Numa leitura da Igreja atual, os guardadores de bagagem representam os ministérios invisíveis, que não aparecem na televisão, não recebem homenagens públicas nem ostentam títulos e siglas ao lado nome. Na verdade, são quase sempre anônimos, como os levitas do tabernáculo (não os do DVD). Não são como a classe sacerdotal, com seus paramentos chamativos e seu prestígio político. Estão mais para a viúva pobre e suas moedinhas. Ninguém toca trombeta quando eles passam ou quando apenas cumprem sua obrigação. A devoção deles é secreta e quando querem uma bênção precisam se espremer no meio da multidão, porque não têm pistolões, e ninguém lhes facilita a vida.

Os ministérios visíveis também são necessários, mas o trabalho dos anônimos é vital. O tabernáculo — o departamento, a igreja, a Igreja, quem sabe o mundo — não sai do lugar sem eles. Com a proliferação dos obreiros narcisistas nestes dias confusos, precisamos, mais do que nunca, entender a graça do ministério invisível. Porque, se todo crente achar que tem vocação para herói, quem vai cuidar da bagagem?

É hora de reativar a crença de que Deus dará a devida recompensa ao trabalho de cada um, com absoluta justiça. Comparado com os dividendos eternos, o reconhecimento humano é fumaça. E aqui vale lembrar outro fato interessante no episódio mencionado no início: os que ficaram com a bagagem receberam prêmio igual ao dos que foram para a guerra. Quem se habilita?

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7 comentários em “Quem vai ficar com a bagagem? (reedição)

  1. Então professor… era o senhor mesmo…
    Prazer revê-lo virtualmente neste espaço.

    Se precisar de um advogado… risos… me escreva…

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  2. CARAMBA Natan!!!! Eu lembro de vc, sim, maninho!!! E também lembro dessa história (super verídica – haha). Bom, em todo caso fico feliz que vc tenha tirado bom proveito da analogia. Sobre a barba “a la protestante purista”, já não uso mais. Ficou por demais clara (iluminada – rs) e já não me sentia bem ao mirar o espelho toda manhã.
    Um fortíssimo abraço e que Deus lhe abençoe em sua outra carreira (que nem sei qual é!!). Então temos mais um irmão que comumente conhecemos!! Legal!! Abração a vc também, Judson. Olha só que encontros seu blog está promovendo!
    Claudiomir

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  3. Caro Judson

    Como bom jornalista você não resiste a uma história… risos…

    Eu era um péssimo aluno da Faculdade de Engenharia de Joinville.
    Detestava o curso e tudo o que ele representava: Cálculo, Álgebra, Programação de Sistemas e outras coisas…

    E o professor (coitado) teve que me aturar em sala.
    Geralmente eu ficava pensando em…

    Um dia depois de eu fazer uma pergunta, o professor me disse:

    “Natan você é o tipo do aluno pinto…”

    A turma riu e ficou em suspense.

    “OOOh professor! O que é que o senhor quer dizer com isto?”

    Ele passou a explicar…

    “Um pintinho se você pega uma bola de bilhar e joga para a frente num piso plano, o pintinho vai correndo e olhando para a bola… passado um tempo de correria ele já não sabe mais do porquê está a correr atrás da bola e vai tangenciando e se distraindo com outras coisas… Você é assim, no início da aula você presta muita atenção, e depois vai desligando e divagando em pensamentos e depois me faz perguntas de coisas que eu acabei de explicar…”

    A turma caiu na risada e eu também.

    Sei lá porque, mas nunca esqueci desta história… o restante acabei esquecendo e guardando apenas a questão de modelagem de dados do tipo relacional, o resto entrou no mar do esquecimento da minha mente.

    Anos depois, quando eu mesmo já era professor… na mesma área… quando eu via um aluno de olhar distraído, ou quando era feita uma pergunta “idiota” de algo que eu tinha acabado de falar, lá eu com os meus botões voltava no tempo e lembrava “… tu és um aluno pinto”.

    Acho que também por isto eu fui sempre misericordioso com os alunos, lembrava da minha própria lamentável situação quando aluno, e endurecia pouco e sempre sem “perder a ternura”.

    O Professor Claudimir foi o primeiro luterano convertido que eu conheci… eu conhecia poucos luteranos…

    Era um homem sério, dedicado, e extremamente inteligente.

    A vida passou e foi cada um para o seu lado.
    Hoje já deixei de lado o mundo de TI, mas incrível entrar num blog entre zilhões de endereços possíveis de se navegar, e lá está o velho mestre “Tu é o aluno pinto…”.

    E continuo distraído… as vezes estou lendo um livro páginas e páginas e acordo num estalo e tenho que voltar a ler tudo de novo o que eu já havia lido sem ler…

    Na igreja uma frase, uma letra de um cântico e já passo a escrever um blog de cabeça…

    Quanto a você Judson, não imagino você com a tua barriga fazendo NPOR… risos…

    Grande abraço.

    Aliás, muitos anos depois vi de relance o professor e ele estava com uma barba alá Abrahan Lincol (como se escreve isto?).

    Aquelas barbas sem bigode onde o cara ficar parecido com aqueles personagens que pararam no tempo de uma igreja batista que tem no filme “A Testemunha” com o Harrison Ford.

    De longe percebi que era o Professor Claudiomir.

    Grande abraço a ambos.

    Mundo pequeno!

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  4. Caríssimo Claudiomir Selner

    E para satisfazer minha curiosidade, por acaso vc era professor da FEJ de uma disciplina que lembro vagamente ser Análise de Sistemas em aproximadamente 1992 em Joinville?

    Se for o mesmo… então que grande coincidência encontrá-lo por aqui… eu sou o “aluno pinto”…

    Lembrou?

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  5. Caríssimo Judson,

    Suas reflexões e análises são sempre pertinentes e oportunas. Louvo a Deus por sua acuidade visual (do espírito e no Espírito, é claro!). É bom e edifica ler seus comentários. Este, por exemplo, sobre “quem vai ficar com a bagagem” é 10.

    Receba meu abraço fraterno,

    Pr. Josemar

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  6. Caríssimo Canto.
    Muito interessante a sua perspectiva (e muito bem escrito, aproveite-se dizer de passagem!).
    Para satisfazer minha curiosidade, por acaso vc fez NPOR em 1980 em Joinville?
    Forte abraço
    Em Cristo
    Claudiomir SELNER

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