É oficial: virei escravo do tempo

Recebi hoje um e-mail com um poema de Mário Quintana, que teve em mim o efeito de uma profecia de Natã. Não que eu já não tivesse percebido, mas é que nos habituamos a administrar as percepções. Só que um dia elas nos derrubam. E esse dia foi hoje. Sinto-me acorrentado a um relógio daqueles antigões, do tamanho de um armário, e estou paralisado, sem conseguir tirar os olhos do pêndulo. Enquanto isso, as oportunidades passam, as boas ideias são aproveitadas por outros e os sonhos, cansados de esperar, vão povoar a mente de alguém que consiga se afastar cinco metros da sua cadeira sem se sentir culpado.

Mas tenho de admitir: eu criei esta situação. Eu mesmo me algemei ao relógio. E o mundo agora não admite que eu tenha outra postura: a família, os que contratam meus serviços, os credores. Até o Bart, nosso cachorro, estranha quando dou uns passos lá fora para esfriar a cabeça. E reconheço que todos têm razão. Se tenho alguma justificativa, deve ter ficado no bolso do outro casaco, junto com a chave das algemas. Ao mesmo tempo, cobram de mim normalidade. Tenho de dar mais atenção aos que me cercam, fazer sala para as visitas, ir mais à igreja, cuidar da saúde, visitar a mãe no feriado, aceitar todos os convites para festas de aniversário sem esquecer que, se alguém ficar chateado, a culpa é toda minha.

Eu devia ter feito aquela oração de Moisés. Assim, teria o relógio como aliado, não como feitor. Que esperança eu tenho? Talvez os cupins comam o relógio. Talvez as algemas enferrujem. Mas oro para que antes disso um anjo venha abri-las.

Ainda tenho muito a dizer… mas estou sem tempo. Por isso, vamos ao poema, que as palavras de Quintana são melhores que as minhas:

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, passaram 50 anos!

Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que,
infelizmente, nunca mais voltará.

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7 comentários em “É oficial: virei escravo do tempo

  1. Em geral, qd as pessoas se sentem assim como vc, é porque correram tanto atrás de um certo padrão de vida que acabaram se enredando em atividades que com o tempo se tornam verdadeiros monstros. Eu, por exemplo, se tivesse dito “sim” a todo trabalho freela que me apareceu, não seria mais um ser humano, e sim uma máquina tresloucada de fazer revisões – sem fins de semana ou feriados. Talvez eu nem estivesse mais casada… Qd percebi que as coisas estavam começando a sair do controle, forcei-me a aprender a dizer “não”. Hoje sou mais criteriosa e, embora não tenha ainda o padrão de vida com o qual sonhei, posso garantir que meus bens mais preciosos – marido e filhas – podem dizer que de fato possuem uma esposa e uma mãe.
    Grande abraço, amigo.

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  2. Simplismente profundo…Não preciso falar nada.

    Um forte abraço primo!!!!!!

    saudade……

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  3. Judson,
    Outrora, os nossos pais e avós viam o tempo passar contando os dias pelos ciclos da vida, que era marcada pelos fatos naturais. Hoje, não há como relegar a segundo plano o controle de cada minuto, em face dos eventos que criamos, porque buscamos sempre não perder as opostunidades descortinadas, ante a perspectiva da perda pela concorrência ou, quiçá, pela necessidade, mesmo.

    Mas o tempo não é implacável apenas com a rotina profissional do dia a dia. Ele também o é com as relações entre pessoas. Muitas vezes, por culpa nossa, ou do outro, o bem-querer se esvai, perde o encanto em face das atitudes, e o tempo, nesse aspecto que enluta, é inexorável.

    Ao contrário do “lat amicu”, que os temos por opção, oportunidade ou acaso, tanto o “lat parente” quanto o “lat affine” adquirimos pelo “destinar”. As relações com o primeiro deles, se não rompidas, e nesse caso é porque não eram verdadeiras, normalmente são perenes. Quem não tem saudade de um grande amigo! O contrário ocorre com os demais, cuja relacionação é capaz de se romper definitivamente. Nessa hipóstese, o tempo nada produz.

    Afora os nexos pessoais, é de bom alvitre um mínimo de disciplinamento do nosso tempo profissional. É grave quando até o teu cachorro estranha a tua presença. Está na hora de repensar. Vale a pena toda essa ocupação, ainda que por uma causa nobre?

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  4. Kharis kai eirene

    Gostaria de saber quem é a pessoa que não vive o mesmo dilema; que não chora a mesma dor silenciosamente; que não sente a necessidade de se doar mais, de viver e amar mais. Ainda bem que tivemos tempo de ler e refletir sobre o texto; de nos olharmos pela tela digital; de nos corresponder-mos sem ser visto. Somos escravos do tempo e não conheço alguém que seja tão livre a ponto de dizer que o “tempo não é importante”.

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  5. MUITAS COISA DEIXAMOS PRA TRÁS,SIM!
    MAS VIVEMOS FALANDO ,PENSANDO E NÃO AGIMOS.
    FAÇO TUDO QUE POSSO PRA AMAR MEUS “IRMÃOS”,NUNCA DEIXO PRA AMANHÃ DIZER , EU TE AMO.
    NÓS MESMOS SOMOS CULPADOS PELA NOSSA TRISTEZA.
    EU SEMPRE DIGO PROS MEUS FILHOS,”NÃO EXISTE TRISTEZA E NEM ALEGRIA,EXISTE MOMENTOS DE TRISTEZAS E MOMENTOS DE ALEGRIAS’ E APROVEITAR ESSE MOMENTO DE ALEGRIA PARA AMAR O ´PRÓXIMO COMO ASSIM MESMO.
    SINTO FALTA DE VC MEU IRMÃO! E DEIXO AQUI O QUE NÃO TE FALEI AINDA, TE AMO PRIMO.

    UM BEIJO DE SUA PRIMA

    CIRINHA

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  6. Judson, amado!

    Que pérola literária! Não estou falando do poema do Quintana, que eu já conhecia. Lindíssimo! Refiro-me à sua reflexão, com aquele toque tão intimista, característico de seu modo de filosofar e pensar a vida!

    Sua reflexão aliada ao poema do Quintana, então, tocou o meu coração por sua beleza e concretude existencial. Uma verdadeira joia! Preciso pensar mais sobre isso e agir!

    Aquele abraço!

    Josemar

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  7. Judson…

    Estou na mesma situação que você, e estava muito pior quando trabalhei na Editora Vida. Tomei coragem para mudar, mas algumas coisas ainda precisam tomar outro rumo… o problema é que me falta tempo para pensar nisso.

    Difícil, amigo.

    Adorei sua meditação hoje.

    Até mais!

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