O ministério fonográfico do Tio Lilino

Existem bons hábitos que alguns cristãos cultivam, sem nenhuma pretensão a não ser proporcionar um momento agradável a outros irmãos, que acabam assumindo características de ministério, se despirmos a palavra dos rigores institucionais. Já falei aqui da Vó Carmira e seus ministérios, o dos botões e o do portão, que tinham propósitos evangelísticos. Pois bem, o Tio Lilino, irmão dela, também exercia um desses ministérios informais, o que dá título a esta postagem.

Na segunda metade da década de 1960, o Tio Lilino começou a comprar os seus discos. Com o primeiro lote, comprou também um toca-discos portátil. Lembro-me de que era de plástico forte, de cor clara. Na tampa, que servia de caixa acústica (mono, é claro), havia um filete de metal. Acho que a marca era Philips. Tais artigos eram quase um luxo na época, ainda mais na pequena Jaguaruna, que nem mesmo tinha loja de discos: quem quisesse comprar discos, evangélicos ou “do mundo”, tinha de ir a Tubarão.

O Tio Lilino gostava de fazer visitas e, pensando em compartilhar com os irmãos aquele raro prazer, habituou-se a levar uma meia dúzia de discos e o toca-discos, claro, sempre que resolvia aparecer na casa de alguém. Transportar o aparelho era fácil, pois havia uma alça para esse fim. Aliás, todos os que ele comprou depois tinham essa característica. As visitas eram feitas geralmente no domingo à tarde, quase sempre a irmãos que moravam a certa distância da cidadezinha — saudáveis quilômetros de caminhada, porque o Tio Lilino nunca teve carro.

Acompanhei-o em muitas dessas visitas. Às vezes, ajudava a levar os discos; às vezes, carregava o toca-discos. As conversas giravam em torno de temas bíblicos, assuntos da igreja e algumas amenidades. Tudo bem: de vez em quando rolava uma murmuraçãozinha ao som de “Cem ovelhas” ou enquanto Curió e Canarinho estribilhavam ao fundo: “Subo morro e desço morro/ Carregando a minha cruz…”. Mas nada que demandasse uma praga de serpentes.

Entre conversa e música, uma parte que eu apreciava muito: o invariável “café covarde”, aquele que só vem para a mesa com um bom reforço (piadinha sem graça que ouvi centenas de vezes no ambiente assembleiano). No fim da tarde, de estômago e ouvidos satisfeitos, cada um retomava a sua vida.

Digo que essas visitas constituíam um ministério porque traziam benefícios evidentes: amizade cristã, comunhão consolidada e momentos de verdadeira devoção instigados pelos hinos que saíam daquela caixa de plástico. Era vida cristã celebrada no cotidiano, bênção resultante de um sacrifício agradável. Essa prática se seguiu por vários anos. Mas aos poucos os irmãos foram comprando também os seus aparelhos e declarando independência dos discos do Tio Lilino.

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4 comentários em “O ministério fonográfico do Tio Lilino

  1. Juju,
    Vou chamá-lo assim (tu detestava) pois você vai voltar no tempo….a irmã Carmira e a irmã Liquinha te chamavam assim, vá lá então…
    Lembro demais do dito toca discos bege com verde, lembro também da eletrola, que além dos discos mencionados rodava também Otoniel & Oziel, Ageu Pereira, Jair & Hosana, Irmãs Falavinha e tantos outros, e não poderia jamais me esquecer do Trombone de varas tocado de forma magnífica pelo irmão Lilino. Fiz parte da “orquestra” dele (Trombone, Acordeon(Ronaldo) e eu, às vezes toca bumbo e às vezes tocava violão) nós a chamávamos carinhosamente de “furiosa”; tenho ótimas histórias passadas junto com ele, muitas delas nas visitas às igrejas das cidades vizinhas, indo de kombi, sem jamais passar dos 80KM por hora, pois sempre ele dizia, que os anjos estavam guardando aquela condução somente até o limite permitido….Se fôssemos tocar num local à céu aberto a noite, ele punha um lenço branquíssimo com as beiradas meticulosamente enroladas sobre aquela cabeça que brilhava, não tinha um único fio de cabelo, tudo isso para não “pegar” sereno; ficava ridículo esta cena, mas ele era assim, engraçado… Tenho muito mais histórias dele…….sou o Daniel filho da irmã Nina e do irmão Marcos, lá da rua Laguna em Jaguaruna.
    Saudades mano!!!!
    Um grande e forte Abraço
    Pr. Daniel Bitencourt – Florianópolis/SC

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  2. Judson, além do “famoso” toca-discos, o Tio Lilino possuía, a meu ver, o seu melhor arsenal ministerial, qual seja, o velho “trombone de vara”. Sabes quem herdou aquela preciosidade?

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  3. Caro Judson Canto,
    Parabéns pela postagem, além de registrar parte do cotidiano evangélico brasileiro, também me emocionou quanto as músicas citadas.
    Que saudade!
    Um grande abraço!
    Pr. Carlos Roberto

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