Uma mensagem imprópria (parte 1/2)

O nome Simplício lhe caía bem. Seis anos de crente e ainda mantinha a fé despojada dos novos convertidos, o entusiasmo de quem exercita os primeiros passos na vida cristã. Faltava a ele um pouco de maturidade, talvez. No entanto, as maneiras simples lhe permitiam um viver feliz e descomplicado, sem as constatações melancólicas que permeiam as ponderações mais profundas.

Simplício era também, ou em consequência, um incansável evangelista, que não poupava ninguém: estudantes, passageiros estressados nos coletivos, os bêbados do quiosque do calçadão central, policiais, ambulantes, o padre e até o prefeito. Parecia que ninguém na cidade havia escapado às suas prédicas incisivas ou aos seus folhetos. Quando não estava trabalhando na fábrica ou participando de algum culto ou trabalho promovido pela igreja, Simplício estava evangelizando.

Por isso, a situação é inusitada: neste momento, ele não está trabalhando, nem cultuando, nem evangelizando e caminha triste na calçada, sem aquela disposição característica do ganhador de almas. O paletó cinza, curto e surrado parece de chumbo, a vergar-lhe a espinha. E a indefectível pastinha, em que carrega, desde a conversão, a Bíblia, a revista de escola dominical e outras preciosas “literaturas”, para usar o jargão evangelístico, parece pesar como uma cruz.

Registre-se ainda que nesta mesma semana ele passou a dedicar-se a uma quarta atividade: a do discipulado — tarefa da qual se incumbira com redobrado zelo, sempre afirmando para si mesmo que o fato de a pessoa sob os seus cuidados ser uma jovem e atraente viúva, convertida no domingo anterior, em nada influenciara esse desdobramento em seu labor ministerial.

Mas certamente não é para a casa de Benedita — esse o nome da discípula — que ele agora se dirige. Porque então o paletó se transformaria em asas, e a pastinha, que já guarda entre os sacros volumes alguns inocentes segredos, numa cúmplice sem peso. O desanimado evangelista arrasta-se em direção à igreja, mas dessa vez não transparece no rosto a radiante expectativa que antecede um culto. Mesmo porque, àquela hora, a nave do templo era exclusividade da zeladora e seu monótono aspirador.

Pela primeira vez, Simplício fora convocado ao gélido — pelo menos agora assim o imaginava — gabinete pastoral. E era para uma reprimenda, segredara-lhe um amigo diácono. Sua conduta irrepreensível estava maculada. O combalido caminhante busca atinar o motivo. Está quase convencido de que é por causa da viúva. Talvez o pastor tenha achado demais quatro visitas em quatro dias (hoje seria a quinta em cinco dias, não fosse a inesperada convocação).

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