Uma mensagem imprópria (parte 2/2)

Finalmente, ele chega às dependências da administração da igreja. Vendo o gesto do pastor através da porta, Simplício, tenso e pálido como um condenado, adentra o gabinete.

— O irmão tem feito um excelente trabalho evangelístico — inicia gentilmente o pastor após as saudações e depois de estarem ambos acomodados, Simplício nem tanto. — Se um terço da igreja tivesse a sua disposição, esta cidade já estaria convertida.

Simplício está radiante com o elogio, embora não se sinta ainda tranquilo. Não seria aquela ênfase ao evangelismo uma tática para impedi-lo de discipular… e afastá-lo de Benedita? Ele sente o estômago doer.

— O irmão deve estar ciente de como é difícil conseguir autorização para evangelizar determinados lugares — continua o pastor, alheio às somatizações do jovem à sua frente.

Simplício concorda, sentindo a cor aos poucos voltar ao rosto e a dor no estômago diminuir, pois o rumo da conversa não parece apontar para Benedita.

— Lembra-se de como foi difícil penetrar no hospital, da oposição das freiras? Pois elas voltaram a reclamar. Querem que sejamos proibidos de evangelizar os doentes.

— Por quê? — quase grita o devotado evangelista, agora vermelho de cólera.

O pastor não responde, apenas estende para ele um folheto que mostra a silhueta de um homem acenando para um ônibus, e, mais acima e ao fundo, um avião que se destaca contra o Sol — ou a Lua, o pastor não sabe dizer. Simplício costuma trabalhar com os folhetos de uma respeitada organização evangelística, a pastinha agora mesmo está cheia deles. São folhetos para várias ocasiões, mas ele nunca segue o que o título sugere, por achar que, mesmo de maneira imprópria, Deus pode tocar a alma de alguém. Ele reconhece o folheto, de uma distribuição recente que incluiu o hospital da cidade. E então percebe por que aquele pedaço de papel verde tornara-se uma arma na mão das religiosas. O estômago volta a doer.

— Foi uma grande confusão, aumentada pelas freiras — informa o pastor, que notara o desconforto do evangelista. E o aconselha a prestar mais atenção às mensagens impressas que doravante for distribuir. Sim, os crentes iriam continuar o trabalho no hospital. Não, além de uns poucos sustos e alguma indignação ninguém sofreu nada de grave. Sim, ele pode continuar evangelizando. Não, nada mais a tratar. Sim, ele pode se retirar.

Sozinho e com a impressão de ter ouvido um suspiro aliviado antes que a porta se fechasse, o pastor guarda o folheto e tenta imaginar-se muito doente, num leito de hospital, recebendo um panfleto idêntico da mão de um desconhecido. Esforça-se para reproduzir a sensação experimentada por um virtual candidato à outra vida que ergue aquele papel à altura dos olhos e lê as palavras impressas na parte de baixo, em grandes letras: “BOA VIAGEM!”.

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