Vida plena em casca de noz

O apóstolo Paulo aconselhou os cristãos de Roma a não ambicionarem coisas grandiosas. Fiquei pensando se não seria um freio ou mesmo um impedimento à tendência natural que tem o ser humano de sonhar, porque se fosse eu estaria em apuros. Não consigo parar de sonhar, de imaginar algumas obras que, a meu ver, contribuiriam para o Reino de Deus, ou pelo menos me fariam sentir menos inútil. Mas não creio que seja essa a questão. Penso que o apóstolo está ensinando como estabelecer a base correta para tudo que o cristão pode e deve fazer nesta vida, inclusive sonhar.

Essa base consiste em assumir um compromisso total com o ambiente em que Deus nos permitiu viver, ainda que se assemelhe mais a um cubículo que ao horizonte. A verdade é que vivemos suspirando por algo que nem conseguimos enxergar, enquanto a nossa casa desaba por falta de cuidado. Achamos que podemos consertar o mundo, mas não limpamos o nosso quintal. Paulo tenta nos conduzir na direção oposta: aplicar tudo que somos e possuímos à nossa realidade, ainda que para nós não passe de um mundinho ridículo e sem graça.

Observe que o capítulo 12 de Romanos, onde está inserido o conselho apostólico, descreve o compromisso cristão em todos os aspectos — a vida como sacrifício vivo para Deus, o ministério que exercemos na igreja e a atitude para com todos ao nosso redor. Portanto, a grande lição aqui é que a vida cristã e produtiva que Deus deseja de nós pode ser vivida no nosso bairro ou mesmo entre as paredes frias de um quarto de hospital. É isto que o texto deixa evidente: a vida plena no Espírito cabe numa casca de noz.

José, o sonhador, quando era escravo na casa de Potifar não ambicionava o lugar do seu amo, porém chegou ao máximo que um escravo podia chegar. Na prisão, embora desejasse a liberdade, ele não fez pouco caso dos horizontes limitados, e chegou ao máximo que um prisioneiro podia chegar. José se dedicava inteiramente ao seu mundo, mesmo que esse mundo fosse a masmorra — e ele saiu da masmorra para governar o Egito! Se quisermos ingressar no mundo amplo dos nossos sonhos, a chave é a dedicação total ao pequeno mundo que compõe a nossa realidade. Ainda que não sonhemos, acabaremos descobrindo um mundo de infinitas possibilidades do lado de dentro da nossa cerca.

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11 comentários em “Vida plena em casca de noz

  1. Olá Querido Amigo!
    Ótimo texto, gostei muito; estou vendo que estás “afiado” com as letras. Aproveito o ensejo para falar da alegria do reencontro, embora curto naquela oportunidade.
    Lendo os posts, gostei também das reflexões (advindas da experiência vivida) de Battista Soarez.
    Talvez pudéssemos refletir também que neste momento do AGORA (enquanto se lê este tosco comentário), é provável que tenhamos uma visão acerca da espiritualidade e, talvez, daqui há dez anos, possamos estar com outra percepção daquilo que observamos hoje, quiçá ainda um pouco mais amadurecida. E seguindo a linha de que “pensar ainda não é pecado”, sugiro a leitura do livro “O Dalai Lama Fala de Jesus”. A obra é resultado de um encontro cristão onde o Dalai Lama foi convidado para tecer comentários sobre algumas passagens do evangelho. Alguns pontos dignos de nota: a lucidez de um líder de outra tradição espiritual ao falar das palavras do Cristo e o relato dos cristãos participantes dizendo o quanto foram fortalecidos na própria fé pela maneira que o Dalai Lama posicionou-se frente às escrituras.
    Talvez “pensar ainda não seja pecado”…
    Um grande e fraterno abraço!

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  2. Caro escriba

    E como poderia ser diferente?

    Como tornar público um debate entre uma ovelhinha indefesa (eu… risos…) diante de um mega escriba calejado da pena e amigo íntimo da prosa e do argumento (você… risos…).

    Por outro lado, se você “perder” o debate, vou te poupar da vergonha pública… risos…

    Tua “ameaça” me lembrou do finado Rabsaqué…
    Eu como Ezequias ficarei dentro da muralha, não sairei para o combate em campo aberto, e tu podes me “ameaçar” a vontade… (risos…).

    Fica na paz!

    Estou esperando a “minha hora”… zzz zzz zzz zzz (risos…)

    Grande abraço!

    PS: Caro, tome minhas palavras como brincadeira entre amigos. Tenho certeza que terás bons argumentos e isto somente me auxiliará a aprender ainda mais a defender a minha fé. E se eu estiver errado, fique tranquilo, me alistarei ao seu lado sem problemas.

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  3. Caro Natan,

    Não fui eu quem recusou um debate aberto no blog, mas a sua hora está chegando. :-)

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  4. Caro Judson

    Naquele outro post você deveria ter colocado mais fotos para que eu pudesse pelo menos ver o Oficial Barrigudo Canto, para ver se num caso hipotético de convocação eu estaria bem protegido… risos…

    Seria também interessante rever o Oficial Selner, “velho” professor e vê-lo se está tão magro assim que caiba ainda numa farda de trinta anos… risos…

    Tem gente que guarda vidro de pepino velho… e tem gente que guarda farda antiga… risos… Não duvido que ele também tenha o terno do casamento… risos… Devem ter sido boas recordações.

    Mas enfim, o post aqui é outro.

    Concordo contigo que a “ambição” que Paulo está falando é algo mais…

    Afinal não ambicionamos “novos céus e nova terra”?
    Não ambicionamos a ressurreição?
    Ver o Senhor?
    Ter um corpo ressurreto semelhante ao Dele?
    Não ambicionamos coisas boas para o futuro dos nossos filhos?

    Pois todas estas coisas são grandiosas ambições e perfeitamente lícitas.

    E também é bom lembrar o final do texto daquele capítulo que fala sobre a fé… onde sim José é um exemplo de um cara que saiu da prisão para governar o Egito, mas existiram muitos que não “saíram” e que foram queimados vivos, serrados ao meio etc… e nem por isto tiveram menos fé.

    A vida de fé no hoje não deve estar condicionada na perspectiva de “governar o Egito” amanhã ainda neste mundo.

    Até porque os três jovens não se curvaram diante da imagem covictos de que iriam morrer na fornalha, só não foram porque Deus tinha um plano maior para o caso específico, mas muitos e muitos foram devorados pelos leões de Nero, foram queimados vivos e nem por isto desistiram da fé.

    Gostei muito e concordei também com o Prof. Claudiomir quando disse que para salgar é necessário se misturar. Muito boa a observação “… a “salgar” o mundo, coisa impossível sem que se misture.”

    Leiam sobre Teonomia…

    As igrejas tem se tornado verdadeiros mosteiros modernos, onde as pessoas se trancam na espectativa da volta iminente do Senhor.

    Prega-se muito o IDE evangelizar (para o arrependimento) e deixa-se de lado o outro IDE de ensinar as nações (construir cultura cristã que contamine o mundo com os valores do Reino).

    Se bem que nem mesmo arrependimento tem sido pregado, mas sim uma espécie de auto-ajuda evangelical…

    Sua perspectiva de ser útil no contexto onde se vive é perfeita e para mim se tornou claríssima quando eu compreendi o que significa Deus ser efetivamente soberano sobre a minha vida e também quando eu lembro da letra de uma música do Paulo César Brito que dizia numa parte “… se (Tu) vens, o NADA em TUDO se transforma…”.

    Não deve haver espaço para a ansiedade, o nosso Deus, a meu ver, é soberano, e estamos exatamente no lugar onde Ele planejou que estivéssemos, e é neste lugar que somos necessários ao Reino e é ali que devemos exercer os nossos ministérios (não estou falando de ser pastor ou obreiro de alguma igreja).

    E derradeiramente acrescento que o ministério de um homem começa na sua própria casa e na relação com a sua esposa e filhos.

    E para se saber se estamos nos conduzindo bem neste ministério, não devemos perguntar para nós mesmos, mas os outros devem perguntar isto para os nossos filhos e para a nossa esposa.

    Ou seja, não devo perguntar para “mim mesmo” sou um homem de Deus?

    Mas alguém ou eu mesmo deve perguntar para a minha esposa… ele, o teu marido é um homem de Deus?

    “Pouco importa ganhar o mundo inteiro e perder a “própria alma””.

    Parabéns pela sua reflexão.
    Nisto concordamos.

    Sobre o que discordamos, estou pacientemente esperando as tuas considerações……… zzzzzz zzzzzz zzzzzz zzzzzz… risos…

    Acho que eu morro e tu não as manda.
    Acho até que estás com “medo” de mim… risos…

    Grande abraço!

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  5. Judson, meu caro amigo, olha eu aqui de novo!

    Voltei para dizer algo que, talvez, interesse a seus leitores. Não sei. Na dúvida, vale acrescentar que o problema da vida plena é a “não vida plena” do problema, ou, melhor dizendo, ter vida plena apesar do problema ou da pluralidade desde.

    Tenho 27 anos de igreja evangélica: CINCO deles de infantilidade e fanatismo (quando vivia comparando o estilo comportamental dos meus irmãos em Cristo e confundindo usos e costumes com santidade); DEZ de decepção e esgotamento (quando minhas motivações espirituais eram barradas pelo poder da inveja e por líderes imaturos que se acham donos de igreja, e pensam que ser ovelha do Senhor é ser animal de cabresto); CINCO de reflexão, autoterapia e autodefesa (tentando me curar dos machucamentos desumanos e sarar as feridas causadas por “amizades” de estrebaria, familiares psicastênicos de cônjuge e por aqueles que se diziam meus pastores); e, finalmente, SETE anos de ministério pastoral (no qual está sendo possível conhecer uma realidade que eu não conhecia enquanto membro comum da igreja: ciúmes, arrogância espiritual, desconfiança e inimizade na irmandade do Corpo SAGRADO).

    Voltei aqui porque reli seu texto e deparei-me com duas frases de efeito: “A VERDADE é que vivemos suspirando por algo que nem conseguimos enxergar, enquanto a nossa casa desaba por falta de cuidado”….. “ACHAMOS QUE PODEMOS CONSERTAR O MUNDO, MAS NÃO LIMPAMOS O NOSSO QUINTAL”.

    Que verdade absoluta! Seu texto pode estar sendo o início de uma discussão bastante prolongada. Até porque pensar ainda não é pecado. Pelo menos enquanto não surguir um Estatuto que o faça ser.

    Com os rumos que a igreja tem tomado nos últimos anos (desviando-se dos princípios da justiça do Evangelho bíblico em detrimento de estatutos e doutrinas religosas), viver a vida plena, as esperiências pessoais com Cristo, e a Comunhão na Unidade do Corpo Espiritual, vai cada vez mais se afastando da plenitude da Vida.

    Nesse caso, ter vida plena seria o mesmo que viver a plenitude da vida. Até porque não se pode viver a primeira fora da dimencionalidade da segunda. Mas tá dicífil em tempos de sincretismo evangélico e descomunhão do Corpo de Cristo.

    Abraço,

    Pr. Battista Soarez

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  6. Oláaa Judson!!
    Muito edificante sua mensagem. Tenho procurado me dedicar ao máximo no meio em que vivo, tenho procurado fazer o melhor sempre àqueles que me estão próximos, um dia chego lá. Sua mensagem só veio reforçar o meu esforço, a minha busca. Obrigado. Que Deus continue a abençoa-lo. Abração!

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  7. Caríssimo Canto, que bela reflexão!!
    Se eu pudesse acrescentar algo, diria apenas que “assumir um compromisso total com o ambiente em que Deus nos permitiu viver” (como vc bem coloca) é também conquistar a confiança das pessoas à sua volta e, muitas vezes, para isso é necessário admitir a possibilidade de se “lambuzar” com aquilo que julgamos “mundano” (sem se “conformar” a esse mundo, claro fique). Isso não é para todos, entendo perfeitamente, mas fica o desafio da reflexão para que, ao menos, não haja o julgamento sobre os que se arriscam a “salgar” o mundo, coisa impossível sem que se misture. É necessário que se tome o cuidado para que os “santos” (“separados”) não fiquem tão “separados” a ponto de não serem mais nem luz nem sal da terra. O sal não tem utilidade se não se misturar aos alimentos. A luz só faz sentido na comunhão com a escuridão. Não por menos, Cristo angariou para si fama de beberrão e glutão, pq sua santidade não era no sentido de ser separado para o serviço de Deus no templo, mas para o serviço de Deus na comunhão com o pecador. Ser separado (santo), nesse sentido, significa ser, precisamente, misturado. Como permanecer sal e luz na comunhão com o mundo é que é a questão. Particularmente, não vejo isso como possível sem escandalizar os puristas. Nem Cristo escapou disso…
    Forte abraço, querido irmão.
    Claudiomir

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