Até os confins da terra (parte 1/4)

A dupla de missionários já estava bem próxima de seu objetivo. Ao longe avistavam o pequeno aglomerado de habitações humildes que se destacava num vasto ermo. Ernesto começou a entender o que o pastor Jorge quis dizer com “vocês tiveram a honra de passar direto ao último estágio da Grande Comissão”. Ele e o seu companheiro, Osni, haviam inchado de orgulho por não precisarem experimentar, “Jerusalém”, “Judeia” e “Samaria”. A igreja os estava enviando de uma vez aos “confins da terra”. Mas agora Ernesto não estava tão certo do mérito da façanha. Lembrou-se também de que o pastor Jorge era um tanto dado ao sarcasmo.

De fato, a igreja de onde provinham era de uma proverbial negligência à obra missionária. E o departamento missionário só foi criado depois que um dos pastores da oposição, de olho na presidência, lançou a ideia, que sabia ser do agrado da maioria dos membros. O pastor Jorge, mais que depressa, convocou o ministério e anunciou:

— Temos feito relaxadamente a obra do Senhor. Temos sido egoístas, negando às pessoas a oportunidade de alcançar o céu. Deus tem abençoado esta igreja, e é hora de despertar do sono da negligência e cumprir a ordem maior de nosso Salvador. Por isso, a partir de hoje, está criado o nosso Departamento de Missões.

A reação foi imediata. Começou com o pastor Maurício, que levou a mão à frente do rosto para cobrir a boca desmesuradamente aberta. Depois, um a um, todos os outros bocejaram. O pastor Jorge continuou:

— Eu serei o presidente. O pastor Clério, nosso vice-presidente, será o vice-presidente. O pastor Maurício, nosso tesoureiro, será o tesoureiro. O pastor Juarez, nosso secretário, será o secretário. Esqueci alguém?

O presidente da igreja pensou ter ouvido alguém resmungar: “Irmã Minervina”, mas preferiu creditar à própria imaginação o fato de ouvir o nome de sua amada progenitora aflorar numa reunião de ministério. Foi quando o pastor Juarez, sempre meticuloso, mexeu-se na cadeira:

— Tenho a impressão de que está faltando alguma coisa…

Os obreiros trocaram cochichos entre si, mas não chegaram a nenhuma conclusão. Até que alguém, timidamente, sugeriu:

— O missionário?

O pastor Jorge lançou-lhe um olhar quase homicida, mas teve de dar o braço a torcer.

— Não tenho dúvidas de que Deus usou o pastor Saulo para nos lembrar desse importante detalhe — acudiu. E acrescentou docemente: — Algum candidato?…

Seguiu-se um previsível remexer de cadeiras. Os olhares dos homens reunidos em torno da maciça mesa de mogno vagaram pela sala, cada um perscrutando pontos imaginários de interesse para não encarar o líder. A onda de constrangimento passou quando o mesmo pastor Saulo, um tanto hesitante, ergueu o braço.

— O senhor tem uma chamada? — inquiriu o pastor Jorge, deleitando-se interiormente com a possibilidade de enviá-lo para as selvas da Nova Guiné ou qualquer lugar do outro lado do mundo.

— Não, não… apenas me lembrei daquele rapaz que deu um testemunho na segunda-feira.

— Aquele que disse que sonhou que estava pilotando uma colheitadeira?

— Ele disse que tem uma chamada missionária.

— Tem outro rapaz, o do montão de foices, que contou o seu sonho na vigília de sábado.

— Montão de foices? — estranhou o pastor Jorge.

— Você, na vigília?! — espantaram-se os outros.

— Não pude ir à vigília, foi minha mulher quem me contou. Um rapaz sonhou com um montão de foices. Então, apareceu um anjo e atirou uma foice para ele…

O pastor Jorge pensou que não seria ruim haver dois candidatos. Soava bem dizer a igreja que estavam enviando missionários. Lembrou-se também de que as ofertas seriam mais vultosas.

— Vamos convocá-los imediatamente — decidiu.

Parte 2/4


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