Esopo: sobre pastores e lobos

Encontrei num livro digitalizado em inglês uma coletânea das fábulas do lendário escritor grego Esopo. Uma delas chamou-me a atenção: O lobo e o pastor. Como não achei uma tradução decente, conto a história com as minhas palavras.

Certo pastor, envolvido no afã diário de guiar o seu pequeno rebanho a águas tranquilas e pastos verdejantes, notou que um lobo seguia de perto as ovelhas. Apreensivo, passou a vigiar cada um dos movimentos do animal. Com o passar das horas, entretanto, deu-se conta que em nenhum momento o lobo tentou atacar uma ovelhinha que fosse.

No dia seguinte, lá estava o lobo, e o seu comportamento era cada vez mais estranho. Em vez de ameaçar as ovelhas, parecia agir como guardião. E, de fato, dia após dia, mostrava-se cada vez mais útil, ajudando o pastor a reunir o rebanho e até conduzindo de volta ao grupo algum animalzinho lanudo que se desgarrava. O trabalho do pastor foi ficando cada vez mais fácil, e as ovelhas se acostumaram àquela presença, que em outros tempos seria motivo de pânico.

Um dia, o pastor foi chamado ao vilarejo onde morava para atender a uma emergência e não teve dúvidas: deixou o rebanho aos cuidados do lobo. Quando retornou, deu de cara com a tragédia, montada inteirinha não só diante dele, mas também com a ajuda dele. Por todo o pasto, jaziam ovelhas mortas e semidevoradas, outras estavam desaparecidas, outras ainda, desnorteadas, vagavam a distância. Enquanto amargava a perda, teve de reconhecer: “Eu mereci. Quem me mandou confiar num lobo?”.

Encerro a história com palavras de um judeu, ditas cerca de seis séculos depois: “Quem lê, que entenda”.

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5 comentários em “Esopo: sobre pastores e lobos

  1. Judson,
    A estória reflete bem os lobos com comportamentos de ovelhas que nos rodeiam. Sempre afirmei que o bem e o bom duram até que o dia seguinte amanhece.

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  2. Caro Judson: Estimulado pela fábula de Esopo, meti-me a pesquisar sobre cães pastores e passo a passo fui levado ao período neolítico, quando parece que humanos domesticaram lobos. Epa! domesticar lobos?! Paleontólogos e outros estudiosos chegaram à conclusão de que lobos, mesmo domesticados, geravam filhotes ferozes, isto é, a domesticação não lhes mudava a natureza. Em outras palavras: lobo é lobo, mesmo quando ajuda a cuidar de rebanhos. Na primeira oportunidade mostra a que veio. É o que se pode constatar nestes tempos trabalhosos. Fraterno abraço.

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  3. Achei muito bom! Qualquer semelhança com o que acontece em nossos
    arraiais, não é mera coincidência. Um abraço

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