Igreja boa é refeitório

De uma mesa de restaurante aqui em Curitiba, guarnecida por cumbucas de feijoada e algumas cervejas, veio-me a iluminação do que pode ser a melhor forma de culto.

Cultivando o meu hábito de ouvir conversas alheias com a dedicação de quem cuida de um orquidário, fiquei atento à conversa dos quatro homens que ocupavam a referida mesa, ao lado da minha, e conversavam justamente sobre o fato de estarem à mesa. Um deles disse:

— Isto é desestressante. Aqui falamos das dificuldades que cada um tem na vida, rimos, discutimos nossas opiniões.

Os outros concordaram. Eu também, em silêncio, enquanto fingia estar mais concentrado no meu prato. Aliás, nenhuma novidade no comentário. Nossas maiores “descobertas” são na verdade coisas que já sabemos, de uma forma ou de outra. Um dia, descobrimos que a pessoa com quem convivemos há muitos anos não é tão má (ou tão boa) quanto pensávamos, mas essa percepção geralmente vem do que já sabemos a respeito dela, não é? Ou percebemos, depois de muito pensar, que a melhor atitude a tomar em determinada situação é aquela que sabíamos ser a melhor desde o início.

Mas já estou indo para a sobremesa. Voltemos às cumbucas. As vasilhas fumegantes lembravam pequenos sacrifícios consumidos num clima de certa reverência. Quando lemos sobre as oferendas prescritas na lei mosaica, tendemos a pensar em algo que simplesmente era entregue, mas nem tudo era consumido pelo fogo do altar. Nas grandes celebrações, principalmente, a maior parte da carne ia para as mesas. Os sacerdotes tinham o seu quinhão. As famílias literalmente faziam a festa com a melhor carne do rebanho e com outras guarnições que traziam de casa.

Na Igreja primitiva, os altares e os sacerdotes foram dispensados, mas não a comida. A ceia ritualística era o complemento, representação terrena da comunhão vertical com o Altíssimo, mas era na horizontalidade do sagrado refeitório que os laços do amor fraterno se fortaleciam. Os cristãos do primeiro século assim reunidos também falavam das dificuldades da vida, riam e expressavam opiniões, embalados pela comida farta e diversificada. Eles eram admirados por sua unidade e por sua união, mas sem dúvida a gastronomia merece boa parte do crédito.

Nos dias de hoje, em que tanto se reclama da falta de comunhão entre os irmãos e tanto se fala de voltar ao evangelho simples, temos a oportunidade de descobrir o que já sabemos: as igrejas precisam voltar a ser refeitórios. Se o pastor pretende um retorno ao cristianismo mais puro, que comece a comprar mesas. Que se façam dos cozinheiros ministros e se patrocinem cursos de garçom para os diáconos. O incenso da oração mantém a comunhão com Deus, mas o cheiro da comunhão com o próximo, com o irmão em Cristo, é o que emana das terrinas e assadeiras.

Os bancos da igreja nos permitem apenas olhar para a frente, sem conversas paralelas, apenas “com Deus”. A mesa garante a comunhão multidirecional e libera a conversação, a entrevista, a tribuna informal, as confissões, o envolvimento emocional que pode salvar uma vida.

Em suma, se o cristianismo pretende continuar a distribuir o Pão do céu com todo vigor, está precisando redescobrir a comida caseira.

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7 comentários em “Igreja boa é refeitório

  1. Congreguei num lugar que tinha a fama de ser frio (espiritualmente falando) enquanto a cidade passava por um grande avivamento, por lá nada mudava, eu percebi que ao término do culto em cinco a dez minutos no máximo, quase todos já tinham ido embora, restando o dirigente e uns poucos presbíteros, eu sugeri ao dirigente que precisávamos nos confraternizar mais, e nessas mesmas palavras lhe disse:
    – Irmão precisamos reunir esse povo, mesmo que seja para comilanças!
    Conversamos sobre a possibilidade de fazer umas refeições com a congregação, mas por motivos de trabalho. mais uma vez tive que mudar de cidade, mas soube que ele não prosseguiu com o projeto…

    Penso ser uma ótima forma de confraternização, parabéns pelo post…

    Quase não tenho tempo de vir na blogosfera, mas quando venho, a primeira página que visito é a sua, as vezes por pouco tempo só venho aqui e me deleito com algumas leituras e desligo o notebook. Seus posts são praticamente os únicos que comento, embora as vezes comente algo no blog do Pr Geremias do Couto…

    Que Deus continue te inpirando e abençoando, assim outros como eu também são abençoados…

    Muito obrigado pelo incentivo, Moyses. E aquele dirigente deveria ter ouvido você.

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  2. Caro Judson
    O seu texto provocou-me três reações: fisiológica, psicológica e espiritual. A primeira provocou-me literalmente fome. A segunda remeteu-me à minha cidade natal, Paranavaí (onde invariavelmente todas as festividades eram acompanhadas de um banquete, cujo tempero, devo reconhecer, é incomparável). A terceira, fez-me lembrar que a igreja está sedenta de Deus e com fome da Palavra. Deus o abençoe ricamente neste ministério de nos servir uma boa reflexão nesse buffet em forma de blog. Abç.

    Bem lembrado, Neir. Será sempre um triplo banquete.

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  3. Judson! Seus textos sempre muito inspirados e reflexivos. Abraços meu amigo,que Deus continue a abençoa-lo e de uma passadinha no meu blog. Fique na paz do mestre!!

    Grato, Moisés. Eu também acompanho o seu blog.

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  4. Caro Judson!
    Apreciei muito este post, muito oportuno, aqui na Igreja que congrego meu pastor é festeiro… sempre que convoca uma reunião de algum departamento incentiva uns comes e bebes entre os participantes no final da reunião (algo simples, um cafe, chá/bolo ou salgado, folhado/refrigerante, suco, dependendo do clima), temos cafe antes das EBDs e comemoramos os finais de trimestre da EBD com cafe manhã especial. Mas o melhor é dentro da programação de nossa Escola Biblica uma vez ao ano, temos uma tradição ja de 10 anos o pastor programa uma vigilia (culto de 24 horas) do meio dia de sabado ao meio dia do domingo e nesse periodo é servido almoço, jantar, ceia, cafe manhã (para o físico)na edição 2011 foram servidas mais de 3000 refeições. É feita uma escala para que cada setor participe no horario determinado (sendo que é livre e incentivado para os membros que quiserem ,com propósito de participarem as 24 horas, fiquem a vontade), de forma que o templo fica lotado as 24 horas, (para o espiritual) temos palavra de Deus(muita biblia), louvor, varios periodos de orações(de joelho/ sentados/em pé), varios periodos de batismo em águas, e após cada batismo é celebrado a Ceia do Senhor, sempre com preletores e cantores convidados, (sem re- té- té…kkk) mas com muita manifestação do poder de Deus, curas, batismo no Esp. Santo e renovação espiritual . Tudo isso para que haja interação e comunhão entre povo de Deus. Ah tudo com decencia e ordem para que não provoquemos ira nos vizinhos do templo principalmente na madrugada, temos o apoio da guarda municipal na questão do trânsito ao redor do templo, e o nome do Senhor tem sido glorificado, os irmãos renovados e as conversações posta em dia…rs e amizades fortalecidas.
    Abçs
    Paulo – AD Interior de SP

    Caro Paulo, para mim o ideal é que as refeições se tornem a rotina, uma “ceia do amor” no mínimo semanal, em que todos cooperam com alguma coisa e todos dividam tudo (seria impraticável a igreja patrocinar tudo). Mas os resultados que a sua igreja obtém só nessas ocasiões especiais (veja também o comentário da Angela) demonstram quanto a comida e as conversas à mesa podem fortalecer a comunhão no Corpo de Cristo, tão escassa hoje em dia.

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  5. Como sempre…adorei o post…aqui na igreja temos uma oração aos domingos as 7:30 seguida de um café, eu não tinha me atentado ao fato, mas como vc falou, realmente, é um momento em que a gente se reune, ri, brinca, COME, troca idéias, surgem sugestões para programações…e depois sentamos na calçada da igreja (no sol em dias frios) e esperamos a EBD começar.

    Pena que nem todos partilham esses momentos mas até q pra uma oração tão cedo no domingo temos uma boa cooperação…e ainda tem aqueles que só chegam na hora do café kkkk

    Abr,

    Parece que a sua igreja está no bom caminho…

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