Ser crente é não crer em muita coisa

Um homem que considero muito sábio um dia me ensinou: “Você não deve crer em muita coisa”. Longe de ser um incentivo ao ceticismo, esse conselho ao longo dos anos ajudou-me a selecionar de tudo que li e ouvi o que de fato importava para a minha fé.

A ideia de compendiar as crenças não é estranha às Escrituras. Todo o espírito da lei de Moisés está resumido nos Dez Mandamentos, que no Novo Testamento encontramos espremido ainda na ordem de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, e isso abrange não só a Lei, mas também os Profetas. Ou seja, toda a prática sugerida pela revelação do Antigo Testamento caberia num versículo.

Sobre o que, na era da graça, vem a constituir a “verdadeira igreja”, preocupação que veio a gerar inúmeras correntes migratórias, não raro conduzindo a destinos fatais para a fé, temos o teste simples de João: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus.

A fé tende ao simples, ao essencial, ao indispensável. Todo o resto é acessório. Não que as convicções pessoais ou coletivas que vinculamos à fé sejam necessariamente ruins, porque ninguém vive sem convicções. Afinal, elas é que nos orientam em todos os aspectos da vida. Mas tenho para mim que as convicções também são regidas por uma regra simples: não podem se igualar e muito menos se impor ao que é exclusivo da fé.

Por exemplo, a nossa fé diz que Jesus voltará para buscar a sua Igreja e que viveremos com ele eternamente. Já as ideias pré, midi e pós-tribulacionistas são acessórias. Uma delas provavelmente está certa, mas quem pode traçar pela Bíblia um calendário preciso dos eventos futuros, se nem mesmo os profetas, inspirados diretamente por Deus, se expressaram com clareza sobre o assunto? E agora, você vai se recusar a ir para o céu se Jesus voltar num momento que desminta a sua convicção? E se depois da volta de Jesus você descobrir que não há Milênio, vai pedir transferência para o inferno? Por que apostar a salvação numa teoria, se você já tem a fé? Você pode ter a sua convicção, defendê-la, debatê-la, escrever livros a respeito dela. O que não pode é transformar em fé o que é simples convicção.

Fico exasperado quando ouço certos mestres, por mais piedosos e renomados, apresentarem teorias e meras convicções pessoais como se fossem “bíblicas”, no sentido de inquestionáveis, inspiradas, essenciais à salvação, seguidas da indefectível advertência de que os pensamentos divergentes são “antibíblicos”. No especulativo campo da escatologia, parecem ser mais esclarecidos que Daniel ou dão a impressão de que foram buscar em Patmos evidências que João deixou passar despercebidas. Posso não ter o conhecimento deles, mas afirmo que nisso eles estão errados, porque, em vez de esclarecer, semeiam confusão.

Nestes tempos de falsos cristos e teologias esdrúxulas que proliferam como baratas, a melhor atitude é nos agarrarmos à fé, porque cada vez mais iremos depender do essencial. Se necessário, abandone até as suas convicções, como o marinheiro que se desfaz da carga do navio na tempestade. Suas convicções não vão salvá-lo. Novas teorias e teologias poderão desviá-lo do céu. A única coisa que garante a sua salvação é a fé.

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4 comentários em “Ser crente é não crer em muita coisa

  1. Nunca consegui me sentir à vontade com aquelas exposições aparentemente muito bem arquitetadas que os mestres em escatologia transmitiam à igreja, os quais, por sua vez, se faziam passar por mestres cujos ensinos seriam inquestionáveis em virtude de sua pretensa erudição. Sempre tive comigo que o necessário é crer na simplicidade do evangelho. A especulação é sedutora, contudo poderá atordoar a mente, empedrar o coração e envaidecer o intelecto.

    Oseias

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  2. Quando estava terminando de escrever uma mensagem neste domingo lembrei-me do alvo da minha fala: o povo. Imediatamente pensei em alguns grandes nomes do Cristianismo. Esses falavam de maneira que todos entendessem. Portanto, quanto mais simples, melhor. Agindo assim a Terceira Pessoa da Trindade podia trabalhar nas almas sem embaraços. O ar importa mais que o perfume.
    http://www.gracasurpreendente.blogspot.com

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  3. SOU do tempo que fé ,brotava nos corações através de orações e louvores,nós passávamos noites de vigílias ,lindas noites,em que o SENHOR JESUS agia poderosamente em nossos corações,naquele tempo as pessoas criam de uma forma diferente ,com carinho sem pedir bens materiais,não pensavam em riquezas terrenas ,o alvo era a salvação.Me parece que os pregadores modernos estão preocupados com a parte financeira ,com o bem estar físico,esquecendo o primordial ,a salvação pela graça ,que não é de graça,pois tem o mais alto preço, o sangue de CRISTO JESUS NOSSO SENHOR.

    Está certo. Mais do que nunca, precisamos voltar a esse evangelho em que o alvo era a salvação.

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  4. Um sábio conselho, ainda mais no meio pentecostal, onde se muito se fala no fato de se estar buscando a Deus sinceramente, que “sabeis tudo, tendes a unção do Santo”, aliás, a isto deve-se as muitas seitas e heresias que hoje existem e como citado pelo senhor no post proliferam como baratas, por haverem crido em tudo que se lhes apareceu…
    Um exemplo que considero digno de que se preste atenção, foi o caso da igreja em Boston conduzida pelo pr Ouriel de Jesus, homens que buscavam a Deus, e nessa busca incessante acharam que tudo que lhes aparecesse então viria do Altíssimo, e culminaram por entrar em devaneios sem fim…

    É o que dá quando se perde a simplicidade da fé…

    Aliás como anda essa história, pois parece que ele andou pregando aqui nos Gideões Missionários em 2010, a AD do Brasil abriu as portas para o ministério dele ou ele se retratou?

    Era para mim ter pesquisado para ver como tinha ficado isso, mas acabei esquecendo

    Não ouvi a pregação, pois com todo respeito é um evento que não aprecio muito…

    Se todos cuidassem mais do essencial, em vez de ficar incensando as próprias opiniões, haveria muito menos aberrações doutrinárias.

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