Nem 17 nem 93

No domingo, eu estava num tubo do Terminal do Carmo aqui em Curitiba aguardando uma conexão para o centro, quando ouvi uma garota ao meu lado comentar com o namorado:

— Puxa, já vou fazer 17.

Para quem tem 50 anos, é engraçado ver alguém preocupar-se com a idade antes dos 18. Mas eu também, quando aos 17 anos deixei a minha terra natal, Jaguaruna, cheguei ao meu novo lar, Joinville, com a impressão de ter encerrado uma longa etapa na jornada da vida.

É que a vida numa cidadezinha de 3 mil habitantes corria mesmo devagar nas décadas de 1960 e 1970. A interação com o resto do mundo limitava-se ao rádio, aos livros e à TV em preto e branco. Jornais só os que chegavam pelo correio para uns raros assinantes ou os que adentravam as outras casas como embalagem de peixe.

A frequência compulsória à escola e à igreja, o comparecimento voluntário à casa dos primos e dos amigos e as escapadelas aos campinhos de futebol (que sempre demandavam alguma estratégia para burlar o zelo assembleiano da Vó Carmira) definiam a minha vida social. No mais, eram livros e gibis devorados no sofá, passeios solitários a pé ou de bicicleta por ruas quase mortas e uma “arte” de vez em quando, que ninguém é de ferro.

De qualquer forma, meio século de vida, mesmo para quem não chega a ser um cidadão do mundo, corresponde a um respeitável histórico de erros e acertos, experiências e rotinas, amizades e aversões, motivos de orgulho e arrependimentos e uma preocupação maior com o fim da vida e com o que se pretende deixar como legado.

Embarquei no ônibus ainda embalado com essas reflexões e ali deparei com o outro extremo. Uma senhora de uns 70 anos, a quem cedi o lugar num ponto mais à frente, iniciou uma conversa com um velhinho sentado no banco atrás dela. E eu, é claro, não ia perder a oportunidade de exercitar o meu saudável hábito de ficar escutando conversa alheia.

Ela, a julgar pela aparência, pelas opiniões sobre casamento, vida moderna e catástrofes naturais e pela menção constante à vinda de Jesus tinha de pertencer a uma igreja “das antigas” (no final da conversa, descobri que era da Deus É Amor). Ele, de aspecto saudável e de mente lúcida, contou que tinha 93 anos e que era neto de uma senhora que vivera 166. Passou então a enumerar os próprios filhos, netos, bisnetos e trinetos, em número suficiente para encher uma congregação de médio porte. Era viúvo, não havia casado de novo e estava disposto a chegar aos 100 anos.

Enquanto caminhava pelo centro da cidade, fiquei pensando que aquele senhor quase centenário também acharia engraçado eu, com metade da idade dele, talvez por andar deprimido, não ter o desejo nem de chegar à próxima década. Talvez risse dos meus planos de concluir o meu legado a toque de caixa e então me dedicar a fazer algo perigoso em nome da fé — para não dar a Deus a impressão de suicídio, mas de ter morrido por uma causa nobre — e assim sair deste mundo com alguma dignidade. E nem quero pensar o que acharia disso a avó dele de 166 anos!

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6 comentários em “Nem 17 nem 93

  1. Tenho 40 anos sou presbítero na Assembléia de Deus no Estado de Alagoas, hoje estive lendo os comentários feito a narração do companheiro, quero só acrescentar que cada um de nós tem uma mentalidade diferente, temos nossa historia, nasci deficiente de uma mão, aos 6 anos cair quebrei um braço, e aos 11 anos cai de um trator que fiquei só com quatro dedo em um pé, isso me deixou com quatro dedo em um lado, aos 34 anos foi ferido por avc no meu lado bom, e no ano seguinte o governo cortou meu beneficio e ja faz 4 anos que vivo de ajuda dos irmãos da igreja, sou casado e pai de quatro moça. Queridos vendo o relato dos senhores,eu estimulo que espere no sinal de Deus,quando anove esta parada, não adianta sair de debaixo e ir sem proteção, isso é suicida, a nuvem pra mim esta parada desquer nasci, tem se movimentado muito pouco, mais prefiro não andar, e quero a proteção do altíssimo. se for com Ele eu irei a qual quer lugar, sem Ele não irei a lugar nenhum!!!!!!

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  2. Bem, vocë sabe (e acompanhou) que experimentei isso, de forma severa, bem antes.

    Mas tive uma ideia genial para nós dois: descobri uma tribo de canibais primitiva, ainda não civilizada, que precisa de missionários transculturais. Que tal irmos para lá?

    Abraços,

    É uma opção. Apenas estou curioso: será que vão me servir bem passado ou malpassado?

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  3. E eu que imaginava que você estava na casa dos 25 a 35, pois geralmente suas ideias é comum em pessoas dessa idade. Bom para você que aos cinquenta ainda está mentalidade tão atuais e claro com a experiência de idade.Deixo aqui também minha experiência: Em minha infância cursei o SENAI, o qual terminei o curso aos 17 anos e logo em seguida já estava no mercado de trabalho, e não demorou muito para me tornar um bom mecânico. Com 20 anos o orgulho já tomava conta de mim, que muita vezes falava comigo mesmo: “eu sou o cara!” . hoje a realidade é outra, quando chega um cliente dizendo você é o ” cara”, eu falo: fui o cara, depois dos 30 estou desaprendendo tudo que um dia aprendi!

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  4. Pois é, Judson,

    Evangelizar no morro do Juramento, onde os bandidos estão armados até os dentes e não existe perspectivas de nenhuma UPP, pode ser até uma boa ideia.
    Mas essa “melancolia” por terminar esta parte da história não acredito ser um sentimento tão raro assim. Afinal Paulo falou disso aos coríntios e, uns sete anos depois, aos filipenses sobre o mesmo assunto: “melhor ir”.
    Se prega tanto que o céu é bom, mas quando chega na hora H quase todo mundo gostaria de passar a vez. Estranho, né?
    Mas continue… e que o Senhor o abençoe cada vez mais.

    Ruy, aqui em Curitiba também tem uns lugares perigosos. Eu tenho outra coisa em mente, mas quem sabe como plano B…

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  5. Então amigo Judson, nos cinquenta e ainda meio depressivo? E eu então, que nos trinta e quatro ingenuamente pensava que a melancolia pegava de jeito dos trinta até aos quarenta…

    Oseias

    Por que ninguém me falou isso antes?

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  6. Quando eu era adolescente queria logo chegar as 18, quando cheguei nos dezoito, devido a vida perigosa que levava queria voltar a ser menor!
    Já na casa dos 20, quando falecia um conhecido com 50 a 60 e todos diziam:
    – Nossa como morreu novo! – Eu pensava que tinha vivido até demais, que eu mesmo queria no máximo ir até aos 40, pois achava que após essa idade, a vida não teria mais graça!
    Na casa dos 30 passei a repetir o que antes me parecia insensatez, quando alguém vem a falecer com 50 a 60 anos, a primeira coisa que me vem a mente é:
    – Nossa morreu muito novo!!!
    Mas penso que para pessoas da minha geração, que teve (tem, eu tenho) uma alimentação nada saudável, muita química e porcarias outras, se passar do 70, é como diz o salmista:
    – Canseira e enfado da carne…

    E os planos? Países comunistas?

    Lembre-se que tem gente que acha que faz grandes coisas, quando na verdade nada faz, e há os que pensam nada fazer, estando fazendo Grandes Obras…

    Quem edifica, só vê o resultado completo após a obra estar concluída, e isso meu irmão só naquele dia…

    Acho que o senhor se enquadra no 2º grupo …

    É o que espero…

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