O abismo em nós

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche dizia: “Se você olha muito tempo para um abismo, o abismo também olha para dentro de você”. Num conhecido salmo, encontramos a declaração de que um abismo chama outro abismo.

Essa é a má notícia sobre o que já é ruim. Se temos um problema real e buscamos ajuda, mesmo espiritual, corremos o risco de tornar esse mal que nos aflige não um acidente, um efeito colateral ou um atraso de vida: a obsessão pelo livramento pode nos levar ainda mais para dentro do abismo de onde tentamos escapar. O incidental torna-se então o centro de nossa vida.

O abismo para o qual escorregamos chama outro que pode nos engolir — um abismo de águas que nos cobre por inteiro, como lembra o profeta Ezequiel. Se pensamos demais numa tentação, ela não se afastará de nossa mente, não importa quanto oremos. Se nos concentramos em vencer a mágoa ou a tristeza, acabamos por mantê-las sempre perto de nós e as elegemos companheiras indesejáveis de nossa jornada.

Nesse processo, destronamos a Deus e erigimos um altar a Preocupação. Todos os dias, nos inclinamos diante dela. Não podemos servir a Deus porque estamos ocupados em prestar nossas honras diárias a essa deusa cruel e egoísta. As águas abismais nos arrastam como uma enchente para fora da cidade de Deus, e o perdemos de vista.

E a má notícia da má notícia sobre o que já é ruim é que não temos forças para retornar por nós mesmos. Na melhor das hipóteses, habituamo-nos ao sofrimento e arriscamos uns passos na escuridão do abismo. Pode haver sobrevivência, mas não uma vida plena; alguma adequação, porém jamais a alegria.

A solução, como recomenda Jesus no Sermão do Monte, é priorizar outra vez o Reino de Deus. Isso já torna o que nos incomoda menos significativo, o abismo começa a encolher. No processo, cumpre-se a promessa que “as demais coisas nos serão acrescentadas”. Bons pensamentos virão, e a tentação terá de dar lugar a eles. As alegrias da vida espiritual saudável ofuscarão a tristeza.

Em breve, estaremos em estrada firme outra vez, sem medo do precipício.

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2 comentários em “O abismo em nós

  1. Amigo Judson,

    Fazia tempo que eu não comentava um artigo de sua autoria. Você tem razão, que o Reino seja prioridade em nossas vidas.

    Abraço,

    Oseias Balzaretti Ferreira

    Seja sempre bem-vindo, Oseias.

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  2. Assim, como Friedrich Nietzsche outros filósofos, pensadores e poetas retratam bem “o abismo” em seus textos; gostaria de deixar um pensamento de Victor Hugo: “Há certas descidas ao fundo do abismo, que retiram um homem do meio dos vivos.”

    Portanto, sejamos fortes/perseverantes em nossa fé em Cristo, para vencermos a cada dia os “espaços acidentais” que se apresentam em nossa jornada.

    Um abraço.
    PS.: Judson, considere-se um vitorioso, continue perseverando.

    Muito obrigado pelo incentivo, Sueli.

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