O Dia do Amigo e o meu amigo Campêlo

Hoje, 20 de julho, comemora-se o Dia do Amigo no Brasil, no Uruguai e na Argentina. O dia 18 de abril também celebra as amizades por aqui, talvez mais que a data de hoje. Mas como não é prioridade do blog celebrar datas, costumo usá-las apenas como pretexto para puxar algum assunto, como faço agora.

Campêlo

Veio-me à lembrança neste dia o meu amigo Ildo Campêlo, pernambucano radicado em Joinville. Lembro-me que no final da década de 1980 ele apareceu nos escritórios da Assembleia de Deus de Joinville, instalados numa casa atrás do templo-sede, na companhia do pastor Satyro Loureiro, que a partir de então vivia dizendo: “Temos de levar o Campêlo para o céu”. Eu trabalhava na tesouraria e fundara o jornal O Assembleiano (ainda como um veículo de comunicação da igreja) havia pouco tempo e acabei solicitando a ajuda do Campêlo, que era um jornalista experiente, além de poeta e de longe o radialista mais conhecido da cidade. Nossa amizade e parceria começou ali.

Criado na Igreja Batista do Recife, depois que se mudou para Santa Catarina ele chegou a frequentar a Assembleia de Deus de Joinville, na década de 1960, porém se afastou do evangelho e era tão conhecido na cidade por suas bebedeiras quanto pelo seu trabalho no rádio. Seu reingresso na igreja teve altos e baixos, justamente por causa do alcoolismo, porém ele não tornou a abandonar a fé.

Campêlo era um amigo leal, e às vezes caçoávamos da nossa amizade, porque éramos muito diferentes. Eu ainda não chegara aos 30 anos e ele já passara dos 50. Tínhamos temperamentos diferentes e divergíamos em quase tudo, da política à teologia. Ele era desbocado, e eu, inimigo de palavrões. Eu era recatado, enquanto ele parecia desconhecer a palavra “vergonha”. Um dia, no meu aniversário, ele me deu um disco de presente com esta dedicatória: “Por que somos amigos?”. Eu nunca soube responder. Era assim.

Quando ele estava à morte, por conta dos exageros do passado, eu já morava no Rio de Janeiro. Fui visitá-lo no hospital, e tive de voltar no outro dia, porque ele não me reconheceu da primeira vez. Ele morreu dias depois, em 25 de julho de 2001, data que também me inspirou a escrever este artigo. Fiquei sabendo de que nas últimas horas de sua vida ele deu um poderoso testemunho de fé, transmitido por uma rádio de Joinville (conto essa história outro dia).

Aliás, Campêlo era exímio contador de história, e ele mesmo protagonizava algumas. Reproduzo agora uma destas, contada por Léo Saballa, outro radialista de Joinville, da época anterior à sua reconciliação com a igreja:

Ildo Campêlo marcou época no rádio de Joinville, com seu sotaque nordestino e facilidade com que usava as palavras nas suas críticas ácidas e ao mesmo tempo bem humoradas. O problema é que ele não podia beber.
Durante anos, Campêlo dividiu a sua atividade na Rádio Cultura com uma assessoria na câmara de vereadores. Quando ocorria algum evento festivo programado pelo legislativo, era uma preocupação geral, pois depois de beber o radialista ficava imprevisível e sempre aprontava alguma. Na festa da concessão de honraria a um empresário de Joinville, no refinado salão da Sociedade Harmonia Lyra, Campêlo não largava o copo. O local estava repleto de autoridades, inclusive com a presença do então governador Esperidião Amin.

O presidente da câmara, vereador Alsione Gomes de Oliveira, não escondia a sua apreensão. “Cuida do Campêlo”, dizia a todo instante para os funcionários da câmara. Chamado pelo protocolo, Alsione leu emocionado o belo discurso, destacando as qualidades do homenageado. Quase ao final do pronunciamento, a voz inconfundível de Ildo Campêlo ecoou pelo ambiente, provocando risos e constrangimento:

— Amin, está gostando do discurso? — perguntou Campêlo.

O governador deu um sorriso amarelo e discretamente balançou a cabeça afirmativamente.

— Pois é, eu que escrevi hoje à tarde — revelou o radialista, para desespero do orador.

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3 comentários em “O Dia do Amigo e o meu amigo Campêlo

  1. Judson, sou testemunha da admiração e lealdade do pai por você, que dizia ele ser UM AMIGO DE VERDADE VERDADEIRA. Abraço. Viviane Campelo Feltz.

    Muito grato pelo seu depoimento, Viviane. Lembranças a todos aí.

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  2. Caro Judson,

    Ildo Campêlo realmente foi uma figura. Há uma reportagem realizada por ele para jornal O Assembleiano (out/dez de 1988) que considero emblemática. É um texto revelando a dinâmica do processo de crescimento da congregação do bairro Portinho em Joinville. Nessa reportagem, ele de forma detalhada, observa e relaciona a expansão da igreja com a vinda de várias famílias para a cidade, e descreve a precariedade das casas e barracos no local. Pesquisando tempos depois para um artigo, descubro uma outra citação relacionada ao Campêlo. A citação, apresenta-o como forte crítico dos descasos das autoridades e cidadãos locais com o migrante. Foi interessante, pois dessa forma pude entender a escrita, e as críticas que ele deixa transparecer na reportagem. Um belo trabalho! Ajudou-me muito.

    Abraços!

    De fato, Mário Sérgio. O Campêlo tinha visão aguçadíssima para os problemas sociais. Você deve lembrar que o programa de rádio dele seguia essa linha crítica.

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