O Espírito Santo e o perdão ou retenção dos pecados

A tarefa de ministrar algumas aulas sobre o Espírito Santo (leia aqui) levou-me a prestar atenção a alguns aspectos de sua obra, especialmente na era da Igreja, e ao consequente desejo de compartilhar as minhas conclusões com alguém (bom, porque é o que os alunos estão esperando). Assim, venho despejando as minhas conjecturas sobre aquelas pobres almas. Não satisfeito, achei por bem não poupar os leitores do blog de me acompanharem nessa jornada. Já adianto que, como me esforço para ser um professor honesto, apresentei as minhas conclusões como simples opinião, não como palavra final ou “bíblica”, como gostam de alegar certos mestres para expressar também o que não passa de opinião deles.

Uma dessas conjecturas aflorou no momento em que li a passagem de João 20.22,23. Jesus aparece aos discípulos após a ressurreição, sopra sobre eles e diz: “Recebei o Espírito Santo”. Em seguida, faz uma intrigante declaração: “Àqueles a quem perdoardes os pecados, lhes são perdoados; e, àqueles a quem os retiverdes, lhes são retidos”.

A Igreja Católica apropriou-se da ideia de reter e perdoar pecados de uma forma que não parece ter sido a intenção de Cristo, ou seja, negar ou conceder perdão conforme soprassem os ventos dos interesses da instituição, não o do Espírito — por exemplo, ameaçando excomungar as autoridades que se recusassem a queimar os ‘hereges” no tempo da Inquisição e oferecendo aos patrocinadores das Cruzadas a indulgência plenária (paraíso garantido a despeito de  qualquer  pecado que viessem a cometer; diga aí: quanto você pagaria por isso?).

Não consigo imaginar que Cristo, depois de morrer na cruz pelos pecados da humanidade, tenha simplesmente deixado a decisão de enviar para o céu ou para o inferno qualquer ser humano, crente ou não, nas mão de “podres poderes” — não só católicos, veja bem! Já imaginou situação e oposição na CGADB fazendo uso dessa prerrogativa? Uns tentariam ser rápidos na excomunhão dos desafetos. Outros tentariam ser mais rápidos na  distribuição de indulgências. Mas nem precisa ir tão longe: basta aquele presbítero casca-grossa da sua congregação decidindo o destino eterno das moças que cortam o cabelo. Terrível, não?

Alguns comentarista acreditam que cristo está apenas garantindo a salvação dos convertidos e confirmando a condenação dos incrédulos. Outros dizem que se trata da autoridade para declarar perdoados os pecados dos que se arrependem. Outros ainda creem que Jesus está se referindo ao contraste entre o judaísmo e a Igreja.

Minhas ponderações levaram-me a outro caminho, onde a Igreja fez de fato uso dessa autoridade. Para mim, isso aconteceu no Concílio de Jerusalém (At 15), quando os cristãos judeus ali reunidos decidiram os rumos da igreja gentia. Interessante é que em seu pronunciamento Tiago declara: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós…”. Ou seja, a decisão que se segue tem a aprovação dele. Em seguida, declara-se certa abertura com relação à rigorosa moral judaica e depois o que se considerará pecado: coisas sacrificadas aos ídolos, ingestão de sangue e  fornicação. O primeiro item nos afasta das confraternizações com religiões idólatras; o segundo evoca um princípio anunciado ao pé da arca de Noé, que risca do nosso cardápio o chouriço e a galinha de cabidela; o terceiro veta ao crente o caminho da esbórnia. Eis o Espírito “soprado” na tomada de decisão, os pecados perdoados (“não vos impor mais encargo algum”) e os pecados retidos, ou seja, com os quais a Igreja não irá concordar.

Comentários discordantes não serão considerados necessariamente antibíblicos.

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Um comentário em “O Espírito Santo e o perdão ou retenção dos pecados

  1. Creio que essa declaração do Nosso Senhor, revela:1) O sopro do Espírito Santo em Jo 20.22,23 é a ação regeneradora e renovadora do Consolador (Tt 3.5); 2) Sobre perdoar e reter perdão, creio que esse texto (Jo 20.22,23) tem conexão com Mt 16.19. A Ligação que a Igreja tem com Cristo (é o Seu Corpo!) é de tal maneira, que as ações disciplinares que ela executa, é como se fosse o próprio Jesus; Isto, se “ela andar como Ele andou”(1 Jo 2.6). É minha opnião.

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