Lições Bíblicas: “A longa seca sobre Israel”

Lição 3 — 1.° trimestre de 2013

Sinto-me na obrigação de iniciar este comentário com a tentativa de contornar a confusão que, a meu ver, irá causar a “Orientação pedagógica” da revista do professor (p. 18). Recomenda-se ali que o professor trace um esquema na lousa para conceituar e explicar a diferença entre “seca” e “estiagem”.  Sem dúvida, é interessante que algumas definições sejam dadas na abertura da aula, de modo a facilitar a compreensão do aluno sobre um ponto básico ou recorrente. Eu mesmo tenho feito isso em meus comentários quando percebo a necessidade de algum esclarecimento inicial. Então, qual o problema aqui? Na verdade, são vários.

Para começar, temos as definições/ diferenças em si. No item (1), que seria o conceito, consta que a seca ou estiagem (grifo meu) resulta de um longo período de insuficiência de chuva. Claramente, houve aqui uma ligeira adaptação da Wikipédia, que a despeito de ser um projeto louvável, nem sempre traz as informações mais precisas. O que não se percebeu foi que a definição selecionada entende “seca” e “estiagem” como sinônimos (assim também o Novo dicionário Aurélio; o Houaiss traz “estiagem prolongada”, o que já estabelece uma diferença). Depois o verbete diz que há diferença entre os termos e então as especifica. Trata-se de um artigo mal elaborado e contraditório.

A confusão é aumentada porque “seca” e “estiagem” também são usados de forma intercambiável na lição. Nos “Objetivos”, consta “longa estiagem”; no comentário em si, “longa seca”, “estiagem” e “seca”. No texto bíblico da ARC é “seca”.

É dito também na “Orientação pedagógica” (na Wikipédia) que a estiagem ocorre num intervalo de tempo e que a seca é permenente. É certo que existem regiões áridas, mas as secas também podem ser temporárias e ocorrer em regiões classificadas por outros climas.

Além disso, o que será uma pergunta óbvia dos alunos, nem a lição nem o livro Porção dobrada, lançado em dobradinha (com trocadilho) com a revista esclarecem se o episódio bíblico é uma seca ou uma estiagem, explicação que se tornou mais que necessária em face da confusão que se verificou. Por exemplo, o aluno poderia pensar: “Se a seca é permanente, e o clima seco no episódio bíblico em questão durou três anos e meio (Tg 5.17), isso não seria apenas uma estiagem?”.

Como resolver isso? O site do Instituto Nacional de Meteorologia explica que a seca deve ser prolongada o bastante “para que a falta de água cause sério desequilíbrio hidrológico”. Ou seja, seca é a estiagem que afeta com alguma ou com muita gravidade a vida em determinada região. Nem seria preciso estabelecer aquelas diferenças, mas poderíamos definir estiagem como a ausência temporária de chuva, periódica ou incidental, que não chega a afetar de modo significativo a região em que ocorre. Foi o que pude deduzir de minhas pesquisas aos sites de meteorologia. Com base nessas definições, agora você pode afirmar que no relato de 1Reis 17 e 18 o que temos é uma seca, não uma estiagem.

O clima da Terra Santa é uma história à parte. Henri Daniel-Rops informa que “em poucas horas podemos ir das praias de um lago que poderia estar no Paraíso para a confusão amedrontadora dos cumes de montanhas, ravinas ressequidas e sopés dos montes cobertos de cardos”. Ainda segundo Daniel-Rops a terra inteira de Canaã deveria ser uma região árida, mas um acidente geológico (ocorrido há milhões de anos, segundo o Atlas Vida Nova da Bíblia e da história do cristianismo) alterou toda a geografia física da região, daí a diversidade de climas em tão pouco espaço. Leia também o “Auxílio bibliográfico I” da lição (p. 22).

O porquê da seca/ Os efeitos da seca/ A provisão divina na seca/ As lições deixadas pela seca

A seca foi resultado de um ato direto de Deus para punir a idolatria de Israel, instituída pelo casal real. Embora o povo houvesse exigido que se trocasse a teocracia (governo direto de Deus) pela monarquia (1Sm 8), Deus ainda estava no controle dos rumos da nação, por misericórdia e por fidelidade aos seus propósitos. O episódio sem dúvida revela o caráter divino, que rejeita e pune o pecado, mas tenha cuidado ao aplicar esse princípio à vida cristã. Nem sempre o pecado implica um castigo visível ao pecador. Talvez seja melhor usar a seca de 1Reis como metáfora da seca espiritual que inevitavelmente sobrevirá sobre aquele que se afasta de Deus. A chuva era considerada bênção de Deus na antiga cultura de Israel (Dt 28.12), e a sua interrupção, um castigo pela desobedência (Dt 28.24). Da chuva dependia a prosperidade da terra, sem essa providência divina, o resultado seria a miséria. A pessoa que peca contra Deus e não se arrepende experimentará a falta de chuva espiritual e deixará de usufruir os benefícios da fé.

Você deve destacar também que todo ato divino de disciplina tem o objetivo de fazer com que o ser humano torne  reconhecer o governo de Deus sobre a sua vida, depois que cair em si e comparar a sua situação de miséria com a vida que antes Deus lhe proporcionava. Mas como o ser humano é complicado, nem sempre ele se decide pelo arrependimento. Em Apocalipse 16.8-11, lemos que, apesar dos terríveis castigos que serão enviados por Deus sobre a humanidade, a resposta será blasfêmia, em vez de arrependimento.

BIBLIOGRAFIA: Bíblia. Português. Bíblia de estudo NVI. Nova versão internacional. 
Org. por Kenneth BARKER. Trad. Gordon Chown (notas). São Paulo: Vida, 2003. * 
Champlin, Russell Norman; Bentes, João Marques. Enciclopédia de Bíblia, teologia 
e filosofia. 4. ed. São Paulo: Candeia, 1995, v. 2. * Daniel-Ropes, Henri. A vida 
diária nos tempos de Jesus. Tradução de Neyd Siqueira. São Paulo: Vida Nova, 1983. 
* Dowley, Tim. Atlas Vida Nova da Bíblia e da história do cristianismo. Tradução 
de Robinson Malkomes e Eber Cocareli. São Paulo: Vida Nova, 1997. * Gonçalves, 
José. Porção dobrada. Rio de Janeiro: CPAD, 2012. * Schultz, Samuel J. A história 
de Israel. Tradução de João Marques Bentes. 4. reimpr. São Paulo: Vida Nova, 1988. 
* Unger, Merril Frederick. Manual bíblico Unger. Revisado por Gary N. Larson. 
Tradução de Eduardo Pereira e Ferreira & Lucy Yamakami. 3. reimpr. São Paulo: 
Vida Nova, 2011.
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2 comentários em “Lições Bíblicas: “A longa seca sobre Israel”

  1. Você fez uma enorme tempestade em uma coisa desinteressante e nada (ou pelo menos quase nada) esclareceu sobre o mais importante da lição. Resumindo, o professor quem vem procurar aqui o auxílio para uma boa aula depara-se com uma grande confusão criada do que não existe e nada de importante para ajudar na aula. Abç.

    Israel, de fato gastei um bom espaço com uma questão menor, até em detrimento de informações mais importantes, reconheço, mas a ideia foi mostrar que um pequeno detalhe pode ser prejudicial. Embora não tenha dito isto expressamente, eu quis chamar a atenção para a necessidade de se elaborarem com mais cuidado as orientações ao professor, sem falar nos próprios comentários. Muitos professores não dispõem de outros recursos além da revista em si, e o fato é que os subsídios, pelos quais se paga um preço extra, nem sempre ajudam e às vezes até atrapalham, como é o caso aqui. De minha parte, eu nem colocaria a diferenciação entre seca e estiagem nos objetivos (foi essa decisão que tornou importante um detalhe absolutamente desnecessário). Se o meu texto também ficou confuso, a falha foi minha, mas pelo menos apresento uma resposta à pergunta óbvia que imaginei surgir daí.

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  2. Eu li a orientação pedagógica e a lição da CPAD, e pensei: ???????. Vamos ver o que O Balido dirá sobre isto. Foi bem o que pensei…

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