Por que não orei por eles?

Semana passada, fui a um salão aqui perto de casa para cortar o cabelo e deparei com uma cabeleireira que não era a habitual. “Cadê a galega?”, perguntei. Fui informado de que ela não estava mais trabalhando por causa de uma doença que a fizera perder a visão de um dos olhos. Depois de insistir alguns meses no trabalho, ela percebeu que não tinha mais condições de exercer a profissão. Lembro-me de quando a vi com um curativo sobre o olho esquerdo, logo após a cirurgia, e brinquei com ela: “Você não vai cortar só a metade do meu cabelo, né?”. Esta semana, soube que ela morreu. A doença era um câncer, que se espalhou. Pelo que entendi, ela se foi algumas horas depois de eu ter perguntado por ela.

Uma semana antes, eu havia perdido um tio, irmão da minha mãe. Viúvo, entregara-se à bebida, ele que já era frequentador assíduo dos bares de Jaguaruna. Morava sozinho e foi encontrado morto na cama.

As duas mortes me deixaram triste, porém o que mais me incomodou foi um pensamento do qual não pude fugir: “Por que não orei por eles?”. Não sou  do tipo intercessor. Às vezes alguém me pergunta se vou orar por ele, e eu respondo: “Claro que não!”. Bem, eu oro, sim, por algumas pessoas, porém mais de maneira incidental que habitual, porque me lembro ou porque me pedem. Mas por alguma razão me senti em dívida para com essas duas pessoas, pelas quais não adianta mais orar, diz a minha convicção evangelical.

Não sei se algo teria mudado na vida deles se eu tivesse lembrado da minha cabeleireira e do meu tio em minhas poucas orações. Mas sabemos que nem toda oração tem o efeito toma-lá-dá-cá. A oração move engrenagens invisíveis e nem sempre percebemos os resultados. Penso que ela funciona como um mensageiro que às vezes ignora o endereço que sobrescrevemos no envelope para atender a um propósito maior num lugar mais distante do vasto mundo espiritual.

O certo é que a oração é necessária, mesmo quando parece inútil. Daí a recomendação apostólica de “orar sem cessar”. Entender a oração é mais complicado do que parece, porém a ordem é clara e simples: continue orando. Não podemos carregar as dores do mundo, nem mesmo de todas as pessoas que conhecemos, mas isso também significa que sempre há muito pelo que orar e que nunca haverá oração suficiente.

Agora me sinto impelido a orar por outras pessoas que de uma forma ou de outra fazem parte da minha vida aqui no bairro. O pessoal da panificadora, que me conhece pelo nome. O homem do gás. Os vizinhos do meu pequeno condomínio (são menos de quinze pessoas, e nem sei o nome de todos eles). O comunicativo dono da mercearia onde compro o carvão para o churrasco de domingo. E estou só listando as pessoas que me são simpáticas. Ainda tem os inimigos, gerais e particulares. E não vamos esquecer a família. Acrescentemos também os que me pedem oração e os que oram por mim, muitos dos quais nem conheço.

Se algum deles morrer, pelo menos não vou sentir a consciência pesada. E vou saber que a minha oração serviu para alguma coisa, mesmo que eu não saiba dizer exatamente para quê. Mesmo que eu não saiba onde se meteu o “mensageiro”.

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Um comentário em “Por que não orei por eles?

  1. Essa oração é para ocasiões em que a vontade de Deus é desconhecida, dedicamos a Deus, crendo ter ele maior sabedoria, poder e interesse em nosso bem, a escolha e aplicação da melhor solução. Exige espera, consagração e inteira disposição de conhecer e seguir a vontade do pai.

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