Lições Bíblicas: “A família e a igreja”

Lição 12 — 2.° trimestre de 2013

Esta lição trata do relacionamento da família com a igreja local. É uma boa oportunidade para explicar o conceito bíblico de igreja — em resumo, claro. Para isso consulte a matéria de eclesiologia numa teologia sistemática. Penso que também é o momento para refletir sobre uma realidade cada vez mais ignorada no ambiente da denominação: que esse relacionamento tem duas vias. Como toda boa relação, deve haver reciprocidade entre igreja e família/ membros.

Família: o elemento básico da igreja

Não há dúvida de que a família é importante para a igreja. Grande parte do povo que compõe o contingente de membros e congregados que frequentam os  nossos templos são famílias, inteiras ou parciais. Contudo, acho precipitada a afirmação de que a família é a base da igreja. Até porque a Assembleia de Deus é estruturada em departamentos. Ainda que numa igreja local não haja dois membros da mesma família, a estrutura eclesiástica funcionará do mesmo jeito.

É certo que vemos no Novo Testamento uma estreita relação entre igreja e família (“casa”), mas é preciso entender o sistema da época. Segundo o  Dicionário de Paulo e suas cartas, “a unidade básica da sociedade greco-romana em que Paulo vivia e pregava era a casa ou lar […]. A casa consistia em membros da família mais próxima e normalmente ampliava-se para incluir escravos, libertos, servos e trabalhadores e, às vezes, até sócios e arrendatários comerciais. Em princípio, o chefe de família tinha autoridade plena sobre os membros da casa. Também tinha obrigações e algumas responsabilidades legais para com eles. Mas a natureza coesiva da unidade dependia mais do sentimento de lealdade à casa que se originava mais diretamente de fatores econômicos, sociais, psicológicos e religiosos comuns. A casa proporcionava aos membros a sensação de segurança e identidade que as estruturas políticas e sociais maiores eram incapazes de dar”. A autoridade ou influência do senhor/ chefe dessa ampla casa por certo podia influenciar conversões por atacado. Deve ter sido o caso de Cornélio (leia atentamente At 10.24-48 e depois At 11.14; leia também At 16.31). Até hoje, em sociedades tribais, os anciãos podem aceitar a mensagem do evangelho e trazer consigo toda uma tribo ou um clã para a fé. Com relação aos tempos apostólicos, note que nem sempre a conversão de famílias era total. Onésimo era da “casa” de Filemom, mas não era convertido (Fm 2,10). E havia, é claro, conversões individuais (At 8.36-38).

Por certo você sabe que nenhuma das chamadas igrejas  do Novo Testamento se reunia em templos, mas em casas. Assim, temos as igrejas que se reuniam na casa de alguém (Rm 16.15; 1Co 16.19). Larry W. Hurtado informa que, “na adoração cristã do primeiro século, o ambiente em que se davam as reuniões era o local da casa reservado às refeições. Escavações feitas nas casas de pessoas prósperas das cidades romanas revelaram que a área em que se faziam as refeições dificilmente acomodaria grupos de mais de nove pessoas ou algo assim. Basta ter em mente as almofadas em que os convivas se reclinavam à moda helênica, costume esse tão amplamente difundido no período romano. Mesmo que a área do pátio da casa fosse usada para ampliar o espaço disponível, a maior parte das mansões romanas não teria condições de acomodar um grupo maior do que quarenta a cinquenta pessoas. Portanto, o ambiente doméstico, o tamanho do grupo que constituía a igreja domiciliar e o papel fundamental da refeição comunitária na prática da adoração podem ser entendidos como elementos que contribuíram para a intimidade social e a forte solidariedade entre os participantes. A julgar pelo que disse Paulo — ‘Há somente um pão, e nós, embora muitos, somos um só corpo, pois todos participamos do mesmo pão’ (1Co 10.17) —, a impressão que se tem é a de que, de modo geral, os grupos que constituíam as igrejas domiciliares, segundo a orientação de Paulo, expressavam sua intimidade social nas cerimônias em que partiam o pão durante as refeições comunitárias”. Sobre a relação entre comunhão cristã e as mesas, leia o meu artigo “Igreja boa é refeitório” (clique aqui). Portanto, tenha muita cautela ao explicar a relação entre casa e igreja de acordo com o Novo Testamento.

Igreja acolhendo famílias/ A família na igreja local

É aqui que entra a ideia (esquecida) da reciprocidade. Ou seja, a família se dedica à igreja, e a igreja, à família. Observe que nessas duas seções da lição é ressaltada apenas a dedicação da família à igreja. Nada se diz do compromisso e atenção que a igreja local deve dispensar à família ou aos membros em particular. Famílias ingressam na igreja e só são percebidas pela carta de mudança. Mas quando se afastam normalmente não há interesse em saber o motivo. Se for um membro sozinho, pior ainda.Uma pessoa que conheço congregava numa igreja de apenas cinquenta membros. Parou de frequentar aquela igreja há mais de cinco anos e nunca recebeu nem mesmo um telefonema. Imagine o que acontece numa igreja com mais de mil membros!

É que as igrejas passaram a se reunir em templos e templos cada vez maiores, por isso a comunhão e a assistência, em qualquer aspecto, é cada vez mais difícil e cada vez menos comum. Se o membro não tomar a iniciativa de pedir socorro, ninguém o verá afogar-se. As igrejas-templos cresceram e não se preocuparam em criar uma estrutura que acompanhasse esse crescimento. Assim, temos a situação que se vê refletida no texto da lição: a igreja só exige, mas pouco dá em troca além dos serviços normais, quase sempre quando solicitados.  Pergunte aos alunos se eles têm essa impressão da sua igreja. Por certo não faltarão exemplos. Nenhuma igreja estará completa sem comunhão (1Jo 1.1-4). Quanto maior a igreja, maior deve ser o cuidado com a comunhão.

Lição 13 (leia aqui).

BIBLIOGRAFIA. Hawthorne, Gerald F.; Martin, Ralph P.; Reid, Daniel G. (Org.). 
Dicionário de Paulo e suas cartas. Tradução de Barbara Theoto Lambert. 2. ed. 
São Paulo: Vida Nova; Paulus; Loyola, 2008. * Hurtado, Larry W. As origens da 
adoração cristã. Tradução de A. G. Mendes. São Paulo: Vida Nova, 2011. * Renovato, 
Elinaldo. A família cristã e os ataques do Inimigo. Rio de Janeiro: CPAD, 2013.


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Um comentário em “Lições Bíblicas: “A família e a igreja”

  1. Ainda não tinha lido seu comentário sobre esse tema “A Família e a Igreja”. Mas ao ler o comentário da lição discordei do item que diz: ‘Sem a família a igreja não funciona’
    No decorrer da explanação da Lição o professor considerou este tópico e, discordando dele, fiz um aparte considerando que enquanto a sociedade é constituída de famílias, de outro lado a igreja não o é. Considerei que a igreja é constituída de ‘pessoas’ independente de elas serem família. Para corroborar meu posicionamento levei em conta a grande número de pessoas isoladas (sem a adesão familiar ao mesmo credo) no seio da igreja.
    Somente após o encontro dominical tive o prazer de achar eco aqui no “Balido” para a minha concepção sobre o assunto, por também “achar precipitada a afirmação de que a família é a base da igreja”.

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