Lições Bíblicas: “A reciprocidade do amor cristão”

Lição 12  — 3.° trimestre de 2013

“O apóstolo Paulo sente a necessidade de fazer duas coisas: expressar seu apreço pela oferta enviada de Filipos  e ao mesmo tempo, com muito tato, enfatizar o princípio da dependência espiritual no Senhor acima do auxílio humano. E ele  faz com tanta perspicácia e delicadeza que essa passagem tem sido considerada uma das joias da literatura” (Francis Foulkes, tradução minha).

As ofertas dos filipenses como providência divina

“Por princípio, Paulo rejeitava receber sustento pessoal das igrejas. Naquele tempo em que havia numerosos pregadores itinerantes, e muitos deles um tanto questionáveis, ele visava proteger de antemão sua proclamação contra qualquer suspeita de segundas e interesseiras intenções. Por essa razão ele trabalhava com as próprias mãos para conseguir o pouco de que necessitava para viver. Para ele, privações, pobreza e sofrimentos eram parte inseparável do serviço apostólico (1Co 4.9ss; 2Co 6.4ss). Unicamente aos filipenses ele permitiu que abrissem uma ‘conta de reciprocidade’ (‘prestação de contas de ativo e passivo’ é o termo técnico comercial daquela época). Sim, desse modo os filipenses se tornaram ‘sócios’ de seu ‘empreendimento’! Do contrário as igrejas continuam sendo somente as que recebem e Paulo apenas o que dá, embora Paulo enfatizasse o direito dos mensageiros de receber subsistência das igrejas (1Co 9.4 -14). Não obtemos a informação dos motivos que levaram Paulo a abrir uma exceção para os filipenses. Deve ser parte da cordialidade especial do amor que sentimos desde o começo da carta. Justamente por isso essa definição de Paulo sobre a preferência dada a seus amados, nos termos do mundo comercial, é uma formulação tão afetuosa: somente vocês ingressaram no negócio com prestação de contas mútua! Para nós, porém, é importante que Paulo, apesar de persistir em sua convicção diante dos coríntios (2Co 11.7-12; 12.13), não era homem de meros ‘princípios’, mas manteve a liberdade de ação. Por isso os filipenses já o sustentaram ‘uma ou duas vezes’ na Tessalônica” (Werner de Boor).

“Paulo nunca se apoiou numa base material ou numa situação estável para se sentir realizado e feliz. Sobre a questão das posses materiais, sua teologia era reflexo dos ensinos de Cristo (leia 1Tm 6.8-12 e compare com Mt 6.25-33). Lembre os alunos, entretanto, que isso não significa que o cristão tenha de viver pela cultura do martírio ou pela teologia da miséria. Deus concede aos seus servos bênçãos e oportunidades, e a verdadeira alegria também pode estar aí. Assim como ela não depende de circunstâncias desfavoráveis, também não será prejudicada por uma situação favorável. Sobre esse assunto, leia o meu artigo ‘Vida plena em casca de noz’ (clique aqui), especialmente a parte em que menciono o exemplo de José do Egito” (do meu comentário da Lição 14 — 3.° trimestre de 2012).

O contentamento em Cristo em qualquer situação/ A principal fonte de contentamento (4.13)

“Ao aproximar-se do final da Carta, Paulo expressa vivamente sua gratidão pelo donativo que os filipenses lhe tinham enviado. […] Não é que estivesse insatisfeito com sua situação; já que tinha aprendido a desfrutar o dom do contentamento. Neste lugar Paulo usa uma das palavras importantes da ética pagã. Diz que aprendeu a ser autarkes, quer dizer, inteiramente autossuficiente. Esta autarkeia (autosuficiência) era a maior aspiração da ética estoica. Para os estoicos autarkeia significava uma situação espiritual em que o homem era absoluta e inteiramente independente de tudo e de todos; um estado em que o homem aprendia por si mesmo a não necessitar de nada nem de ninguém. […] A fim de obter o contentamento, o estoico abolia todo desejo e eliminava toda emoção. O amor era desarraigado da vida e estava proibida toda preocupação. Como disse T. R. Glover: ‘Os estoicos faziam do coração um deserto e chamavam a isto paz’. Vemos imediatamente a diferença entre os estoicos e Paulo. O estoico dizia: ‘Aprenderei o contentamento por um ato deliberado de minha própria vontade’; Paulo pelo contrário: ‘Tudo posso em Cristo que me fortalece’. Para o estoico o contentamento era uma realização humana; para Paulo um dom divino. O estoico era autossuficiente; Paulo encontrava sua suficiência em Deus. O estoicismo fracassou porque era desumano; o cristianismo triunfou porque tinha suas raízes no divino. Paulo podia enfrentar qualquer situação, podia carecer de tudo e ao mesmo tempo possuir tudo; tudo estava bem porque em todo acontecimento possuía a Jesus Cristo. O homem que caminha com Cristo e vive nEle pode enfrentar qualquer situação” (William Barclay).

Como se vê pelo comentário de Boor, na primeira seção, já havia na época preocupação com os pregadores itinerantes que tinham o seu ministério apoiado em interesses escusos. A Didaquê, obra muito antiga que resume as doutrinas e práticas apostólicas, contém instruções específicas para tais casos (leia aqui).

Obs.: Disponibilizei para download dois comentários antigos (em inglês) da Carta aos Filipenses (clique aqui para baixar).

Lição 13 (leia aqui).

BIBLIOGRAFIA. Barclay, William. Comentário do Novo Testamento: Filipenses. 
Tradução de Carlos Biagini. * Boor, Werner de. Carta aos Filipenses. Tradução 
de Werner Fuchs. Curitiba: Esperança, 2006 (Comentário Esperança). * Cabral, 
Elienai. Filipenses: a humildade de Cristo como exemplo para a igreja. Rio de 
Janeiro: CPAD, 2013. Foulkes, Francis. Filipenses. In: Wenham, G. J. et alii
(Org.). Nuevo Comentario Biblico Siglo Veintiuno: Nuevo Testamento. El Paso: Mundo 
Hispano, 2003.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s