Apresentação de crianças e o “exemplo de Jesus”

Apresentação da ElenSe você é assembleiano de algumas décadas como eu, já deve ter assistido à cena centenas de vezes. Um casal no púlpito ou ao pé da plataforma e um ministro da igreja que segura uma criança pequena nos braços, enquanto em torno dos protagonistas alguém se movimenta em busca de um bom ângulo para a fotografia. Os pais assumem uma postura solene — e às vezes aflita diante da possibilidade de que o presbítero velho escalado para a tarefa deixe cair o bebê.

Eles estão ali para apresentar a criança, como se diz na AD. Outra igrejas consagram os seus pimpolhos. A diferença é apenas semântica. Antes da oração, o ministrante explica:

 — Nós, da Assembleia de Deus, não batizamos crianças…

Vem o esclarecimento de que os pais apresentam os filhos pequenos a Deus e prometem criá-los nos caminhos do Senhor. Mais tarde, quando tiverem idade para crer, deverão eles mesmos solicitar o batismo.

Até aí tudo bem. É uma prática coerente de uma igreja que não entende o batismo infantil como necessário à salvação — a crença católica romana é o alvo principal do argumento. E, se o ministrante parasse por aí, estaria tudo certo. Mas então vem uma explicação adicional que é puro sofisma:

— Não batizamos crianças porque seguimos o exemplo de Jesus, que foi apresentado no Templo.

Esse argumento não resiste a um único round com a hermenêutica ou mesmo a uma análise superficial do texto de Lucas 2.21-24, o único que registra o episódio. Ali se relata que Jesus foi circuncidado ao oitavo dia, quando recebeu o nome indicado pelo anjo; que houve um período de purificação da mãe; que o menino foi levado ao Templo; que se apresentou um sacrifício de dois pombinhos. Esses poucos versículos contêm informações suficientes para pôr a nocaute a teoria do exemplo.

Para começar, a expressão “exemplo de Jesus” parece implicar alguma iniciativa por parte do menino. Embora fosse divino, Jesus teve um crescimento humano normal, sem saltos genéticos, como Lucas deixa claro alguns versículos adiante, e na ocasião era um bebê de quarenta dias. Não consigo vê-lo instigando os pais, entre uma fralda suja e outra:

— Aí, pessoal! Vamos para o Templo, que é hora de combater a doutrina do batismo infantil! Preciso dar o exemplo antes de crescer!

Ninguém sabe como a perfeição divina operava num humano recém-nascido, mas é certo que o bebê Jesus não deu exemplo consciente de nada. Além do mais, teríamos de presumir que já se tinha em vista a fundação da igreja, não o cumprimento das profecias messiânicas. Ele estaria passando por cima do programa que ele próprio executou entre os judeus quando adulto.

Pode-se alegar que os pais deram exemplo ou que Jesus deu exemplo por meio dos pais. Mas o que José e Maria sabiam da igreja? Eles eram judeus vivendo sob a Lei e cumprindo os seus rituais. E sobre isso o texto em questão não deixa dúvidas. Nos quatro versículos, três vezes Lucas afirma que José e Maria estavam obedecendo à Lei.

Resta a possibilidade de o simples registro bíblico do fato nos sugerir a adoção da prática da apresentação de crianças nos templos evangélicos. Mas aqui temos outro problema. O mesmo texto diz que Jesus foi circuncidado. Por que a apresentação no Templo de Jerusalém é “exemplo” e a circuncisão não é? Qual critério, exatamente, determinou a aceitação de uma e a exclusão de outra?

Assim, não se está criando no terceiro evangelho um paradigma para a igreja de hoje ou de qualquer época. Jesus não está dando exemplo de nada nessa passagem. Ele foi circuncidado por ser judeu e foi apresentado no Templo porque era o primogênito de uma família judaica cumpridora da Lei. Exceto pelo fato de ele ser o Salvador, nada nesse relato diz respeito à igreja.

O máximo que se pode dizer é que a apresentação de crianças em nossas igrejas foi inspirada num episódio da infância de Jesus ou numa tradição judaica. Essa seria uma boa explicação, ainda que, a meu ver, desnecessária. A primeira parte do argumento já é o que basta.

A apresentação de uma criança pode, sim, representar um certo nível de comprometimento entre os pais da criança e Deus ou pode apenas refletir uma boa intenção. Na pior das hipóteses, não passará de um rito inócuo. Tudo depende do coração dos envolvidos. Seja como for, mal não faz. Mas vamos parar com essa história de exemplo…

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22 comentários em “Apresentação de crianças e o “exemplo de Jesus”

  1. Porque então também a exemplo de Jesus, não é também circuncidados!?

    Analisar somente o que lhe é conveniente é muito simples e pouco exprime de fato o estudo teológico!

    Adriano muito bom!

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  2. Gostei da explicação colocando um ponto de vista sincero e isento de uma crendice cega e viciada de costumes judaizantes e como todo ser humano deve ter um raciocínio lógico e coerente.

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  3. Marcos 16.16
    Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado..
    Pra ser batizado precisa ter a capacidade de crer ou não crer… Um bebê não a tem…
    Por isso espera-se o entendimento vir e q isso não seja mero emocionalismo infantil.. e sim uma verdadeira compreensão do sacrifício de Jesus na cruz… O q vc geralmente se dá a partir da pré adolescencia…

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  4. Amados irmão, todo princípio determinada por Deus , ela não muda, essa história de que não vivemos na lei mas na graça, entendo que é desculpa para crente viver no pecado. A diferença e que não precisamos mais sacrificar um cordeiro, como diz a lei para termos o perdão de Deus. Outra coisa não pode separar o novo testamento do velho testamento, pois um depende do outro.
    A bíblia que usamos aqui no Brasil ela passou por 5 traduções, com isso se perdeu o original dos ensinamento, a apresentação é um principio bíblico deixado por Deus, lei pode até mudar com a circunstância ou situação, mas os princípios são eterno. Antes de rebater o que estou dizendo procure lê a biblia no original, estude a Torá, busque a palavra de Deus , antes de ser traduzida, que vcs vão vê que apresentação é principio deixa por Deus no pentateuco.

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  5. Sou Adventista do Sétimo Dia e esse costume também é praticado la na igreja, tenho a mesma opinião do pastor em relação ao assunto que diz que você apresenta hoje mais por uma “boa intenção” mas não influencia na criação de nossos filhos. Meus parabéns pela excelente explicação.

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  6. eu nao li todos os comentatios ai de cima mas deixo minha idéia,a criança tem que ser apresentada sim,mas veja no certo e em nome de JESUS,pq diz as escrituras tudo o quen fazer faça em o nome de JESUS, e vçs ai de cima creem?
    ex batismoa santa ceia casamento expulsar capeta oraçao p ,ifermos tudo dize nao em partes ta escrito.

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  7. Pessoal, mas eu RI, RI, RI ao ler o comentário do LINCOLN, efetuado em 30/11/2014. A que ponto chega a verborragia no meio do nosso povo :)

    Ao autor, meus cumprimentos, pois as nossas conclusões são idênticas. Porque seguir certos rituais da lei mosaica, e não outros? Estamos livres de todos os rituais. E acrescento que a questão, para muitos que são provenientes da igreja católica, parece ser a necessidade de um substitutivo para o ritual de batismo.

    No mais, concordo em realizar a apresentação apenas para não causar escândalo adicional, numa denominação como a nossa, que vive à caça de escândalos por descumprimento de costumes não escritos (e que insistem em dizer, por ignorância, que se trata da Palavra de Deus).

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  8. Realmente uma boa matéria, mas não esqueçam que os ocultistas apresentam as crianças aos demônios, antes deles vamos apresenta-las ao Senhor, porque so ele é Deus.

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  9. Ao fazer um critica textual isenta , constata-se que a analise hermenêutica exegética do ilustre articulista sobre o tema e epigrafe se encontra eivada de ressentimento e por que não dizer magoa com a sua denominação e merece perecer por estes vícios, a nossa cultura é judaico – cristã, nossa fé possui raízes profundas no judaísmo, todos os ritos e cerimônias realizadas no ambientes das Igreja Cristãs tem sua gênesis nas paginas sagradas do Velho Testamento e na cultura do povo hebreu podemos citar o batismo, a santa ceia ou eucaristia como queria, casamento, unção dos doentes etc….
    No que tange a “Apresentação ou Dedicação de Criança” o EXEMPLO aquém os “despreparados fosseis vivos das Assembléias de Deus” fazem referencia na referida liturgia nada mais é que a uma contextualização histórica do fato narrado pelo Evangelista Lucas para os fieis conforme preleciona texto de Rm 15.4 “ Porque tudo o que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito, para que pela paciência e consolação das Escrituras tenhamos esperança” outrossim é importante verificar que o ensinamento pastoral vislumbra o todo das escrituras, a inteligência de não incorporamos a circuncisão como exemplo a ser seguido está centrado naquilo que nos difere os judeus , pois tantos a guarda do sábado quanto a circuncisão são insígnias culturais da aliança entre YHWH e o povo Hebreu conforme descrito em Gn 17.24 , Js 5.5, Ex 31.15-17 e conforme nos ensinou o Rabi Saulo de Tarso “Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão nem a incircuncisão tem valor algum; mas sim a fé que opera pelo amor.” Gálatas 5:6
    Outrossim a fala pastoral se encontra ancorada no texto de João 13:15 “Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” combinado com o texto de 1 Co 11.1 “ Sede meus imitadores, como também eu de Cristo.” Por outro lado o batismo infantil é justificado nas entrelinha de textos, suposições e conjecturas que não resistem a uma analise hermética, histórica e superficial, não caem no primeiro round , caem no ecoar da sineta de inicio do combate.

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  10. fui criado na assembleia de Deus, estou meio afastado, casei com uma rebeca, da igreja de Jesus Cristo dos santos dos ultimo dias.(mormos). tive uma filha recém nascida, quero apresentar ela na assembleia e minha esposa quer apresentar nos mormos, so que não sei como e essa apresentação dos mormos, por causa disso ja estamos entrando em desacordo, alguém pode me responder oque seria melhor?

    Rosiel, por que vocês não combinam em apresentar a criança nas duas igrejas? Você cede à vontade dela, e ela, à sua. Parece mais justo, não? A criança vai ficar bem. Importa que depois você assuma a responsabilidade de criá-la nos caminhos do Senhor.

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  11. Já li muitos comentários sobre “apresentação de crianças”, mas este é o primeiro a tratar o assunto de forma verdadeira. Baseado na bíblia é desnecessário, como frisou o pastor, pois se trata de uma cerimônia da religião Judaica e tudo isso foi cravado na cruz do calvário, aliás toda lei cerimonial.

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  12. na realidade jesus , foi um exemplo de vida , cumprindo toda a lei, porque esta era a vontade de Deu. .hoje não podemos colocar com regra ,o nosso dever é criar nos caminho do senhor , não apenas dizer fiz minha parte apresentando a Deus. hoje é o ensinamento diário para os nossos filhos .

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  13. Querido irmão que bom que vejo pessoas vendo certas rituais que o povo de Deus esta fasendo por ignorancia.Embora acredite que muitas coisas ainda vao ser vistas por nos .Mais uma das que mais me chama a atençao e o custume de chamarmos o lugar que reunimos de Igreja ou uma construçao de igreja .
    Sabemos que a palavra igreja vem do grego eclessias que quer disser TIRADOS PARA FORA DE .Entao nao vamos a igreja mais somos a igreja ou vamos nos reunir com a igreja .

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  14. Judson.

    O “escudeiro” é o obreiro com terno azulado. Infelizmente, não me lembro do nome. É um nordestino, com muitos filhos, que passou pela denominação, congregando por um ou dois anos. Gente boa.

    Abraço.

    Grato pelo esclarecimento, Eliseu.

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  15. É…Judson..parece que minha igreja é uma “assembleia diferente” como alguns teimam em dizer kkkk Lá, ao apresentar, o pastor (no caso meu pai) lê o texto (não lembro a referencia, q vergonha!) que as pessoas levavam as crianças para Jesus abençoar e os discipulos tentam impedir. E começa do jeitinho q vc falou: dizendo que não batizamos, mas apresentamos a Deus. E que com esse ato nos comprometemos a cria-las no temor do Senhor. Essa parte final é importante principalmente pq ultimamente vem casais não crentes ou mistos e querem apresentar seus filhos. Lá na igreja, não impedimos (pois seria incoerente com o texto né?) mas fica aos pais a responsabilidade de a partir deste ato, criar ensinando a palavra de Deus. Se fazem ou não, se agem como um simples ritual…aí já é com eles né? Nem entre os cristãos podemos garantir rsrs
    Não sei de onde meu pai tirou isso…nem se ele aprendeu assim ou se ele proprio criou esse jeito de apresentar…mas é uma boa idéia, não?

    É uma boa ideia, sim, Angela. Também já vi muitos casais não crentes que fizeram questão de apresentar os filhos na igreja. Isso deve ter algum valor.

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  16. Prezado Judson.

    Obrigado pela resposta.

    Temos aí duas pessoas juntas, muito parecidas com outras duas. Uma coincidência rara.

    Em tempo: o termo fiel escudeiro não foi usado pejorativamente.

    Abraço, na paz do Senhor.

    É uma incrível coincidência mesmo, Eliseu. De três homens numa foto dois lembrarem outra dupla. Só fiquei curioso: qual dos dois parece o “fiel escudeiro”?

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  17. Olá!

    Boa matéria, estive refletindo sobre isso dias atrás, ao acompanhar uma senhora perguntar a respeito do tema para um pastor.

    Por acaso o obreiro que pega a criança do colo da mãe seria o Pr. Antonio Luis Sellari? Aquele que liderou o campo de São José dos Campos e o repassou para Samuel Câmara? Se não for, é muito parecido, além da coincidência de estar ali próximo um “fiel escudeiro” dele.

    Nada contra, só observação movida de alguma curiosidade.

    Caro Eliseu, o obreiro é o pastor (acho que na época presbítero) José Zesuíno, que dirigia uma congregação em Joinville. A criança é minha filha Elen, que hoje tem 28 anos (a foto é de 1985). Não sei quem você identificou como “fiel escudeiro” do pastor Sellari, mas atrás no púlpito estão os meus amigos Leocádio da Silva e Adelor Vieira (com a esposa), que já foi deputado federal. Penso que deve ser alguém muito parecido com um dos dois.

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  18. Meu irmão Judson Canto,

    Durante a leitura de seu post, esta ovelinha ia rindo ao refletir quantas dezenas de vezes presenciei esta cena, e esta mesma fala, nos cultos e nunca tinha me atentado para isso, fico imaginando as próximas “revelações”, espero que o povo entenda a proposta.

    Fica na Paz do Senhor Jesus Cristo!

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  19. Paz Judson!
    Como essa do artigo, tem uma série de tradições assembleianas que devem ser analisadas à luz da Bíblia. Foram sendo incorporadas e aceitas como Doutrina Fundamental, mas, infelizmente, ainda convivemos com o ranço de que não podem ser questionadas, pois ‘grandes’ homens de Deus as defenderam e firmaram.

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