Dom de revelação: cartas a Anne (1)

Cara Anne,

Recebi o seu e-mail, no qual você expressa o desejo de entender um pouco mais a situação que está passando e de submetê-la a um “novo olhar”. Agradeço desde já o fato de você permitir que eu lhe responda em carta aberta, a fim de que outros leitores em dúvida também sejam beneficiados — isso se a minha resposta for de alguma ajuda, é claro.

O que motivou você a me escrever foi o meu artigo O verdadeiro dom de revelação, em que relato um episódio da vida do missionário Orlando Boyer, que ouvi de uma pessoa que viveu os tempos áureos do pentecostalismo brasileiro e em quem deposito a maior confiança.

Como você pertence à mesma denominação em que me criei, a Assembleia de Deus, não vejo necessidade de discorrer sobre a atualidade dos dons espirituais. Eu e você cremos nisso, e vamos partir daí. Se por algum motivo eu tiver de justificar a minha convicção, não terei problema em fazê-lo. Mas antes de prosseguir é melhor esclarecer o que quero dizer com “dom de revelação”.

Não uso o termo técnico, que seria “dom da palavra de conhecimento”, conforme o jargão bíblico. É o conhecimento obtido de uma forma que não seria possível por meios puramente humanos — o pastor Boyer não tinha como receber aquela informação exceto por meio sobrenatural. Existe algum debate em torno dessa definição, mas são questões secundárias. Quero dizer apenas que usei propositadamente a expressão popular, que não existe na Bíblia nem é reconhecida nos livros mais técnicos, mas se refere à mesma ideia.

Quase desnecessário dizer que esse dom é um dos mais abusados e um dos menos compreendidos. Digo sem medo de errar que quase todas as “revelações” ocorridas em nosso meio são fraudulentas, e até por parte de pessoas bem-intencionadas! Não é à toa a grande confusão em torno desse dom — e de todos os outros, na verdade. Na página em que acompanho as estatísticas do blog, é comum aparecerem frases como: “O que é dom de revelação?”; “Como faço para saber se tenho dom de revelação”, e assim por diante. Por isso, o primeiro incentivo que lhe dou, embora não seja algo para comemorar, é que você não é a única que tem dúvidas sobre o assunto.

Achei que devia explicar isso porque você tem menos de um ano de fé e já entrou numa ciranda de ações e palavras que trouxeram confusão à sua mente. Sugiro que você procure ler alguma coisa sobre o assunto, enquanto vamos conversando. Nesse caso, dispense a Internet, porque só aumentará a confusão. Nas páginas aleatórias que for abrindo, você irá deparar com várias posturas teológicas em torno do assunto e, naturalmente, ideias conflitantes. Além disso, talvez você não esteja preparada para identificar as asneiras que se dizem sobre o tema, seja qual for a vertente doutrinária.

Como percebi pelo seu e-mail que está havendo certo atrito entre você e o seu pastor, sugiro que peça a orientação dele quanto à melhor leitura sobre o assunto. Com isso, talvez o antagonismo diminua e ele perceba que você tem o sincero desejo de aprender e de fazer a coisa certa. É claro que ele irá recomendar uma obra pentecostal, e é o que você deve ler por enquanto. Não por ser o único tipo recomendável, mas pelo fato de ser esse o ponto de partida natural para uma jovem assembleiana.

Bem, a carta está ficando longa, e vou parando por aqui. A partir da próxima carta, iremos tratar mais diretamente das suas dúvidas.

Em Cristo.

Judson.

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