A bênção da obscuridade

Durante décadas, os meios de comunicação ignoraram solenemente a presença de um grupo que em meados do século XX já representava boa parcela da nação brasileira. Falo dos crentes das Assembleias de Deus, dos “bíblias”, dos “aleluias” ou dos “evangelistas” (como eram conhecidos na minha terra). O povo sabia da existência deles, mas no Brasil de forte influência católica de tempos idos os crentes só viravam manchete quando algum crente estava de alguma forma forma ligado a um crime ou mesmo a uma irregularidade menor, mais por um esforço de lhes manchar o nome que pela apuração da verdade.

Estávamos acostumados. Não havia protestos nas ruas, nem palanques e cartazes exigindo direitos, nem representantes nas casas legislativas. Era um povo humilde, mas de uma valentia que só se explica pela devoção e amor à causa de Cristo.

A igreja crescia, não inchava. Crentes bons e maus, maduros e imaturos sempre existiram, e, apesar do viés extremamente legalista, ninguém em sã consciência negava a obra de Deus. Um manto invisível de glória cobria os muitos defeitos e deficiências.

Então a igreja conheceu os holofotes. Muitos vibraram com a notoriedade e com o fim de uma jornada nas sombras. Mas todos sabem que holofote é para quem não tem luz. E assim a igreja foi se tornando visível e até importante aos olhos dos que antes a ignoravam, ao passo que o brilho da glória divina se dissipava. Virou curral político e segmento de  mercado. As manchetes sobre desvirtuamentos se multiplicaram, mas agora são quase todas verdadeiras. Os escândalos viraram rotina, a excelência moral, raridade.

E agora, que esboçamos uma reação diante de uma absurda agenda política, não temos mais aquelas virtudes nem moral para contestá-las. Parecemos o Sansão sem cabelo querendo se livrar das cordas em que ele mesmo se deixou amarrar. A perseguição não será uma novidade, mas a questão é que não estamos preparados para ela. Absorvemos a luz artificial do secularismo e fora dela não temos mais brilho algum. Fomos comprar cavalos no Egito e gastamos nisso as nossas reservas espirituais. Logo iremos descobrir que os cavalos não nos servirão de nada, porque Deus não está nessa batalha.   

Assim, emito este fraco balido, não na esperança de ser ouvido muito longe, mas de ser ecoado por alguém que ainda tema a Deus. (Como pregarei se não há quem ouça?) Apaguem os neons. Cessem com as guerrinhas de leis e voltem a confiar na graça. Em vez de concentrar esforços em criar rotas de fuga, voltem a cultivar a valentia que só é produzida pelo amor. Parem de se gabar no IBGE e voltem a buscar a glória invisível que repousa ao pé da cruz.

Regressemos às sombras, porque ali é que iremos reencontrar aquelas virtudes perdidas. Foi isso que eu quis dizer quando afirmei, no outro artigo, que a obscuridade nos fará bem.

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