As quatro faces da solidão

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No último sábado, fui visitar um casal amigo que tem uma casa de veraneio aqui na Barra do Sul. Reencontramo-nos depois de perder o contato por mais de vinte anos. Lembranças avivadas de ambos os lados, antes da lasanha de frango, da cerveja preta e do bolo de banana. Depois outras amenidades, o telefone de outro amigo extraviado e a promessa de um churrasco com data em aberto. Por fim, uma caminhada com eles pelas ruas pacatas da cidadezinha, eu já no rumo de casa. Fiz questão de dizer a eles que os momentos que passamos juntos me fizeram muito bem, pois vieram amenizar uma das faces duras da solidão que no momento me cercam como quatro paredes.

De um lado, ergueu-se uma parede que cortou os laços terrenos que me eram mais importantes. Fora de casa, a caminho do divórcio, restam-me agora umas brechas ocasionais para fazer contato com os filhos — espero não ficar apenas no telefone.

De outro lado, está a parede que me fez perder contato com a igreja local e a denominação, com qual guardo apenas afinidades históricas e, vá lá, afetivas. Na minha juventude, principalmente, muitos elos de amizade e companheirismo foram estabelecidos no âmbito eclesiástico e resistem ao tempo — o casal que visitei é fruto dessa fase. Mas em algum ponto do caminho aquele senso de comunhão horizontal se perdeu, na minha história e na da igreja. Então, para que ter o trabalho de me deslocar até o templo a fim de sentir a mesma solidão que desfruto em casa?

A terceira parede foi erguida pela decisão de trabalhar por conta própria, que me afastou de algumas das pessoas mais interessantes que já conheci, de interações e aprendizados que só se obtêm no multifacetado ambiente de trabalho. Não ter com quem dividir o cafezinho transforma a garrafa térmica num ícone da solidão.

Por fim, tenho de me contentar com as amizades não presenciais, mantidas apenas nas lembrança, nos telefonemas ocasionais ou nos encontros fortuitos. No estilo de vida que adotei, não poderia experimentar algo muito diferente. Graças a Deus, é possível retirar uma amizade da gaveta depois de décadas e perceber que ela não amarelou. Vejo essa parede como a mais fácil de ser quebrada. O primeiro tijolo já caiu no sábado.

De qualquer forma, o lado de cima continua aberto.

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