A novidade que nunca foi diferente

Tenho a convicção de que a história humana, apesar de seu avanço linear, é composta de ciclos, assim como os elos vão alongando a corrente. Penso que isso explica o que diz o Pregador: “O que foi será, e o que se fez, se fará novamente; não há nada novo debaixo do sol”. Novas tecnologias mudam a nossa rotina e tornam o mundo cada vez menor, mas se percebe um constante ir e vir na utilização que damos a tudo isso. A razão é que o ser humano não muda, a despeito dos novos ambientes em que se desenvolva.  O herói de hoje é o vilão de amanhã, e o vilão de amanhã ganhará medalhas depois de amanhã.

Vamos ao exemplo que motivou esta breve reflexão. Um forte sentimento anticristão vem impregnando o Ocidente nos últimos anos, e as organizações políticas com os seus poderosos aparatos midiáticos já nem fazem questão de esconder as suas intenções, exceto por algum interesse mais localizado. O pós-modernismo acelerou o processo, e uma avassaladora produção artística, jurídica e jornalística vem desconstruindo verdades que se mantêm desde o início da história, a despeito de como eram vistas em épocas e lugares diferentes. Parece que o ciclo finalmente se quebrou.

Mas não é assim. A própria máquina ainda usada para propagar em doses mastodônticas as políticas mais infames parece mostrar um recrudescimento. Na revista Carta Capital, no artigo “O Oscar e a religião“, que analisa a última safra da indústria cinematográfica, o colunista Matherus Pichonelli comenta:

Desta vez a Academia contemplou o dilema de homens lançados à própria sorte em um mundo de descrenças. Goste-se ou não, a presença principal da premiação é uma pergunta: por que o homem abandonou a religiosidade e se tornou uma divindade dele mesmo? As respostas, a depender do olhar, podem resultar na condenação de um hedonismo declarado ou na exaltação da independência humana de velhos dogmas. O cinema, claro, não tem a obrigação de fornecer resposta alguma, mas serve como um termômetro, levado à tela, de uma inquietação real. Uma inquietação que, no auge da tecnologia, tem alavancado uma multidão de seguidores e votos a líderes político-religiosos com os argumentos mais rasteiros.

E segue-se uma análise dos filmes de concorriam à premiação, na qual o autor demonstra que todos, de uma forma ou de outra, expressam aquela inquietação. Outra informação interessante vem do filósofo Luiz Felipe Pondé no artigo “Sociologia do ateísmo“, publicado na Folha de São Paulo. Segundo ele, o número de ateus orgânicos (os ateus por escolha, não os que são proibidos de crer em Deus pelo Estado) está encolhendo perceptivelmente, como demonstra este quadro, elaborado com base no mesmo artigo, pelo blogueiro João Cruzué:

Até onde percebo, os ciclos históricos, formados por tendências, políticas e métodos de pensamento, tendem a durar várias gerações. Mas o dilúvio do pós-modernismo, teoricamente poderoso o bastante para afogar em definitivo os “velhos dogmas”, mal está conseguindo mover a sua arca. Ao que parece, não há tanta água assim em suas fontes subterrâneas, porque esta nova fase da história humana teve início em 1972, mas só passou a influenciar o mundo a partir do final daquela década. Contudo, as águas pós-modernas já estão baixando e talvez nem atinjam a próxima geração. Fizeram muito estrago, é verdade, mas permanece o fato de que elas jamais cobriram as montanhas da verdade. Outra velha novidade que já está passando.

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Um comentário em “A novidade que nunca foi diferente

  1. Bem interessante esse artigo…ano passado tive um professor de alemão que confessou ser 100% ateu numa de suas aulas. Apesar disto, sempre achei fácil dialogar com ele…cheguei à conclusão de que ateus são pessoas que, como qualquer um de nós, precisam de Deus!!

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