Janela indiscreta

***

De 1970 a 1978, morei numa casa em que as janelas principais eram guarnecidas por venezianas. Meu quarto ficava na parte da frente, de onde se podia ver toda a movimentação da rua além do muro, a uns quatro metros da janela.

Quando as venezianas estavam fechadas, as lâminas oblíquas permitiam apenas olhar para o chão, um ou dois metros adiante. Mas logo descobri um diferencial na janela do meu quarto. Uma das lâminas era um pouco torta e me permitia ver quem passava na rua, e o melhor, sem ser visto!

Certo dia, esta ovelhinha, ainda adolescente, viu ali uma boa oportunidade para azucrinar a vida dos passantes. Nas tardes mais tediosas, eu abaixava os prendedores de ferro, fechava as duas folhas de madeira e ficava espiando pela fresta até alguém aparecer no meu campo de visão. Jaguaruna era uma cidadezinha de 3 mil habitantes na época, por isso não havia aquele fluxo de povo, e a espera às vezes se estendia por alguns minutos — mas era um tempo muito bem compensado, como já vou explicar.

Assim que algum dos meus amados conterrâneos passava na frente da casa, eu dizia lá do meu esconderijo:

— Boa tarde!

O educado cidadão virava a cabeça para responder ao cumprimento e então ficava atônito quando não via ninguém. Alguns chegavam a voltar para investigar mais a fundo a origem da voz, mas nunca encontravam nada, é claro. Em alguns casos, quando a pessoa, para lá de encafifada, estava se afastando, eu a cumprimentava outra vez. E ela apressava o passo para sair logo dali. Então eu deitava na cama e literalmente rolava de rir.

Só houve um dia em que fiquei sem graça. Eu estava no meu posto quando vi se aproximando o Seu Vilmar, que tinha uma escola de datilografia em casa, justamente onde obtive o meu diploma de catamilhógrafo, que guardo até hoje. Era um homem dos seus 60 anos, do tipo distraído, que andava um pouco inclinado para a frente, fitando o chão. Pareceu-me a vítima ideal e, já antecipando umas risadas, falei através da fresta de madeira:

— Boa tarde!

Sem reduzir a velocidade dos seus passos miúdos, ele apenas virou a cabeça na direção da casa e respondeu:

— Boa tarde! — e continuou o seu caminho normalmente.

Ainda há outra pegadinha que criei aproveitando a mesma janela e que até gerou comentários na cidade, para meu íntimo regozijo. Mas conto essa história em outra ocasião.

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