A semente sempre morre

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Na década de 1970, um obreiro do Rio Grande do Sul foi convidado para pregar na AD de Jaguaruna. Eu tinha uns 11 ou 12 anos, e ele cismou que eu ia ser missionário ou algo assim. Um dia, pouco antes do culto, ele estava lá em casa e me chamou para perto de si. Com a Bíblia aberta, mostrou-me uma passagem bíblica e explicou em poucas palavras como dividir um sermão. Após o curso de homilética mais rápido da história, ele me perguntou sobre qual texto eu gostaria de pregar. Escolhi João 12.24: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto”. No culto à noite, ele me chamou ao púlpito para que eu lesse o texto e fizesse um breve comentário. Acrescentei uma poucas palavras ao que havia lido, e a igreja explodiu em “glórias” e “aleluias” (mas não se iluda com o projetinho de Spurgeon: aquela igreja “glorificava” por qualquer coisa).

Até hoje me pergunto por que escolhi aquele texto, mas a ideia da semente me fascina desde então. O motivo é o seu ciclo paradoxal: ela precisa desaparecer para ser algo, e esse algo produz novas sementes que precisam desaparecer. É também o grande apelo do evangelho: para ser o que Deus quer, você tem de negar a si mesmo. Para ser, deixe de ser. É como diz uma composição de Edison Coelho: “Eu devo ser não eu,/ mas devo ser alguém/ que renuncie o ser/ para só ser o bem”. Deus nos chama para a vida produtiva por meio dessa morte. A conclusão óbvia é que a semente que não morre não produz fruto.

Mas a semente sempre morre. Se ela não se desfaz no solo, está condenada à morte de não morrer. A semente traz em si o esboço dos futuros órgãos da planta, mas não passará de um esboço se não cair na terra. Por si só, ela não cresce nem se move, e detectar vida nela é quase impossível. Não importa por quanto tempo seja preservada, ela jamais será planta. É a morte que não se deseja para a semente, porque o “fruto”, que é o nosso potencial, se perde na casca.

O conhecido episódio do encontro entre Cristo e o moço rico exemplifica esse tipo de morte. O jovem tinha qualidades impressionantes, mas ainda era uma semente. De fato, uma semente pode ser impressionante. O coco do mar, do arquipélago de Seicheles, no oceano Índico, chega a pesar 30 quilos. É a maior semente do mundo. Mas continua sendo uma semente. O jovem rico era como o coco de Seicheles. Impressionante, mas inútil para os planos de Deus. Ele preferiu o segundo tipo de morte. Se a morte é inevitável, escolhamos morrer no terreno da vontade divina.

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2 comentários em “A semente sempre morre

  1. Excelente Judson!

    Você é um pregador e um missionário do Reino… Mas não exatamente no púlpito.

    Existem muitas linhas de batalhas e qualquer atividade é uma delas desde que lá de alguma forma estejamos refletindo e influenciando em favor dos valores do Reino.

    Abraço ao amigo!

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