Frango à frango e pizza como deve ser

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No último domingo, abdiquei do churrasco e resolvi dar um passeio pela avenida que acompanha a lagoa aqui na Barra. No final do percurso, uma pausa para admirar fatos rotineiros da natureza, mas que se tornam interessantes quando estamos prestando atenção: uma garça com o seu incrível pescoço em S extraindo o almoço do meio da lama; uma gaivota com um pequeno peixe na boca perseguida num voo rasante sobre a água por outras duas que se convidaram para o banquete; um peixe aqui e ali saltando na água, talvez apenas por diversão.

A fome bateu, e no caminho eu passara diante de um local amplo e aberto, cercado por muretas, com gente animada e um convidativo cheiro de costela. Rumei para lá, na esperança de saborear uma carne suculenta com maionese. Perguntei ao sujeito que me atendeu se a costela também era servida ali, porque havia percebido que a carne retirada da grande assadeira metálica — frango e pernil, além da costela — atendia às encomendas, principalmente. Ele disse que podia, se a carne não estivesse toda vendida. Como ele não se mexeu para se informar, eu mesmo fui pedir o meu pedaço ao assador. Infelizmente, toda a costela já estava encomendada.

Eu devia ter ido embora, mas voltei para o meu lugar e pedi uma porção de camarão à milanesa, anunciada com outros três pratos num quadro escrito à mão. Alguns minutos depois, o atendente, que também era dono do lugar, voltou dizendo que o camarão estava em falta. Antes que eu abrisse a boca para pedir o segundo item do cardápio, ele anunciou que também não seria possível servir iscas de peixe, pelo mesmo motivo. Os dois últimos itens do cardápio também eram porções: frango à passarinho e batata frita.

Quando me preparo psicologicamente para comer uma coisa específica, não gosto de mudar. Em circunstâncias normais, eu teria ido para outro lugar, mas por uma razão desconhecida resolvi me arriscar no frango à passarinho, embora as luzes interiores de alarme piscassem como um aparelho de som do Paraguai.

Cerca de meia hora depois, ele apareceu com um prato onde se empilhavam enormes toletes da dita ave, pele e carne da mesma cor que se veem em certos doentes terminais. Também se sentia de longe o cheiro de óleo velho. Ao olhar para aqueles pedaços de carne branca quase do tamanho da minha mão, senti-me tentado a chamar o proprietário e explicar-lhe que existe uma razão para aquele prato se chamar “à passarinho”. Aquilo ali era frango à frango mesmo.

Uma mulher, que presumi ser a cozinheira e esposa do dono do bar, depositou um pequeno prato sobre a mesa. Para os ossinhos, explicou. Por praticidade, ela não havia lavado o pratinho, e meia dúzia de formigas transitavam alegremente ente os resíduos de outra refeição. Ou de outras. Talvez para me punir, comi metade daqueles toletes descorados e com os ossinhos aumentei a alegria das formigas.

À saída, o proprietário perguntou se eu queria levar o restante para viagem. Não. No caminho de volta, recriminava-me pela má escolha cada vez que passava por um dos restaurantes ou lanchonetes que eu havia ignorado na vinda. Onde vocês estavam? Para que o almoço não fosse um desastre total, fui até o centro afogar as mágoas num sorvete de passas ao rum.

À noite, eu ainda não estava consolado e saí disposto à revanche. Dirigi-me a uma pizzaria  e restaurante bem conhecido aqui em Barra do Sul e pedi uma pizza portuguesa. Sem surpresas desagradáveis, dessa vez. Fatia por fatia, às más lembranças do almoço foram por fim deixadas para trás. E acertei duplamente, porque reencontrei no restaurante um casal de amigos, Mário Abrão e Cleide, que eu não via há muitos anos. Também fica a lição: no próximo passeio pela barra, já sei onde não almoçar.

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