Horizontes turvados

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Meu pai chamava-se Idênio e nunca foi cristão. Mesmo numa época em que no Brasil quem não era “crente” era católico, ele sempre se declarou sem religião. Foi batizado na Igreja Católica, é claro, e chegou a ser coroinha. Mas a sua carreira religiosa acabou quando o padre o surpreendeu, na companhia de seus colegas de missa, podre de bêbado num canto qualquer das instalações paroquiais, ao lado do garrafão vazio do vinho reservado à eucaristia. A outra única história que conheço de seu contato com a religião também envolveu o álcool e um padre. Numa festa de igreja, quando constava uns 13 anos de idade, ele jogou um copo de quentão no rosto do sacerdote, história que lembrei agora e cujos detalhes ainda vou apurar.

Depois disso, se havia um lugar que ele frequentava religiosamente eram os bares de Jaguaruna ou de qualquer lugar em que estivesse. Espírito inquieto, gostava de farras e encontrou a sua vocação na estrada, como caminhoneiro, e deve ter conhecido todos os bares suspeitos de beira de estrada entre Rio Grande e Belém do Pará.

Ele também fumava muito e certa época, na década de 1970, chegou a consumir inacreditáveis oitenta cigarros por dia, e sem filtro. Não lembro se a marca era Minister ou Continental, mas depois mudou para du Maurier, um cigarro mais fino e comprido envolto em papel marrom. Era mais caro, porém por razões nunca explicadas o consumo diminuiu para “apenas” uma carteira e meia, e nessa quantidade o preço compensava também. Foi a estranha forma que ele arranjou de fazer economia e cuidar da saúde ao mesmo tempo.

Com tal dedicação ao vício, o vapor do álcool e a fumaça do cigarro acabaram turvando um pouco os seus horizontes, que não se estendiam muito além do comprimento de um balcão de bar. Tive a prova disso quando estávamos almoçando na casa de uma família amiga, em Joinville, e um jovem de seus vinte e poucos anos, também convidado, estava à mesa. Terminado o almoço, meu pai ofereceu-lhe um cigarro, e ele recusou. Espantado, perguntou ao rapaz:

— Tu não fuma?

— Não.

— E tu bebe? — insistiu, entre desconfiado e esperançoso.

— Também não — foi a resposta.

— Então o que é que tu faz?

Meu pai deixou de fumar sem esforço algum e passou os dez últimos de sua sua vida sem tocar num único cigarro. Mas o estrago já estava feito. Morreu de câncer no esôfago aos 50 anos, mais novo do que sou agora. E nunca deixou de beber.

Nos últimos meses de sua vida, já fora de casa havia cinco anos, vivendo com outra mulher em Itajaí, recebeu a assistência espiritual de um bem-intencionado pastor de uma dessas igrejas missionárias. Nunca se declarou convertido.

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