Deus quer o nosso lanchinho

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A prática de repartir o pão acompanha o cristianismo desde o berço. Já na primeira igreja, em Jerusalém, havia preocupação com as mesas. Nas ceias do ágape, as diferenças de qualidade e quantidade das comidas ofertadas eram equalizadas quando postas à disposição de todos. Era o que os cristãos podiam fazer, se considerarmos que não havia um milagres em vista. Aquele costume simples, cultivado na intimidade de pequenos grupos que ainda nem sonhavam em construir templos, era uma lição viva contra o egoísmo, a ganância e o preconceito e, sem dúvida, um gesto de amor.

Mas antes disso o fundador da igreja havia demonstrado o que Deus pode fazer com comida. Numa ocasião, aceitou o apoio logístico de um garoto na difícil tarefa de amenizar a fome de milhares de ouvintes famintos: cinco pães e dois peixes. O rapaz parecia ter bom apetite, mas tinha o coração maior que o estômago. E, a despeito da boa intenção, era uma oferta ridícula, o que talvez seja um indicativo de que ele tirava notas ruins em matemática. Sorte dele que o milagre, por definição, ignora esses detalhes, e o resultado foi mais comida do que a multidão podia dar conta.

Assim, aprendemos duas lições importantes sobre a comida no viver cristão. A primeira é que o amor não carece de milagres. Gestos simples de fraternidade e amor superam em qualidade qualquer esquema de contribuição ou de serviço. Nos tempos bíblicos, oferecer  um pedaço de pão do próprio prato a alguém era sinal de amizade e consideração. Até hoje, em qualquer cultura, oferecer um prato de comida a alguém é sempre algo comovente para quem dá, para quem recebe e para quem assiste. Dar dinheiro a um pedinte pode suscitar questionamentos, mas dar comida a quem tem fome anula qualquer argumento. E a fome física, como se sabe, pode despertar o apetite espiritual, o que nos leva à segunda lição.

O milagre dos pães e peixes multiplicados ensina-nos o fato óbvio de que Deus faz milagres. Mas existe aí uma lição diferente, que ignora também o estômago e se concentra na fome da alma. E nesse caso há sempre um milagre, porque nenhum ser humano pode operar a salvação, é sempre ação divina. Outro aspecto invariável é que a oferta humana é sempre ridícula, como os peixinhos daquele rapaz, que alguns acreditam ser Estêvão na flor da idade e no auge do apetite. Isso porque o ato divino de regenerar o ser humano está acima de qualquer coisa que possamos oferecer. Seja um “ministério” superestruturado, seja algo tão simples como um folheto entregue num ponto de ônibus ou um post publicado no fim de noite, o efeito que podem causar é o mesmo e tão sublime que não faz diferença se a contribuição é o conteúdo de uma cestinha ou de um barco pesqueiro. É por essa razão que Deus nunca rejeita o nosso lanchinho, a nossa oferta ridícula, pois com esses parcos recursos ele pode matar a fome espiritual de alguém, e isso é mais que toda a comida do mundo.

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