Político crente ou crente político?

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O colunista Lauro jardim, da revista Veja, publicou uma nota-bomba que explodiu na cara dos crentes: “O pastor Everaldo Dias (PSC), o quarto colocado entre os candidatos a presidente, de acordo com todas as pesquisas, escolheu o tema família como mote de sua campanha. É justamente de casa, contudo, que surge uma acusação grave contra o candidato evangélico. No ano passado, a ex-mulher de Everaldo, Katia Maia, levou ao STJ um processo em que o acusa de agressão física, seguida de ameaça de morte”. A notícia, é claro, suscitou mais uma discussão sobre o envolvimento de crentes na política.

Mas não é meu objetivo aqui fomentar a discussão em torno dele, apenas adianto que acredito que um crente pode ser um bom político e que um político pode ser um bom crente, o que não aceito é a ideia de um crente entrar para a política com propósito de representar a igreja, como já comentei no artigo A falácia da representação evangélica.

Infelizmente, é o erro que a imensa maioria dos candidatos — e das igrejas também — comete desde o dia em que se encantaram pelo palanque. Everaldo representa muito bem esse tipo de candidato. Antes de qualquer proposta concreta de governo, fazem questão de dizer que são crentes, como isso fosse a garantia de competência e de bons projetos no mandato. Sim, eu disse que o político pode ser um bom crente, mas isso não implica que ele será necessariamente um bom político.

A declaração de fé também não garante a conduta ilibada, e temos exemplos de sobra para provar essa teoria. Na verdade, quando alguém se anuncia como candidato cristão, já fico apreensivo. Mais um para espirrar lama no vestido da Noiva. Recorro outra vez ao exemplo de Everaldo, apenas por comodidade. Ninguém sabe o que ele pretende  (ou pretendia) fazer na presidência da República, mas todos já sabem que ele é crente. Um crente que bate em mulher.

Bandeiras genéricas como “valores familiares” e “princípios cristãos” também são hasteadas em vão porque, mais uma vez, não existe a mínima garantia de que elas se manterão no alto após a eleição ou mesmo durante o processo eletivo.

O crente que quer ser bom político deve rejeitar a ideia da representação evangélica pelo simples fato de que o seu trabalho contemplará todos os cidadãos, crentes ou não. Vale lembrar que a justiça, pela qual todo cristão deve lutar, interessa não só à igreja, mas a todos os cidadãos. O país precisa de políticos, e se esses políticos forem crentes comprometidos e sábios, nem será preciso que se identifiquem como cristãos. Porque terão feito o seu trabalho, serão amados pelo povo e Deus os recompensará.

Assim, se você é crente e se julga vocacionado para a política, rasgue as declarações falaciosas, renuncie aos títulos eclesiásticos, descarte as bandeiras encardidas e vá se dedicar à sua vocação. Deixe que o mundo glorifique a Deus pelos frutos produzidos, não pelas virtudes preanunciadas, que provavelmente terão o efeito contrário.

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