O evangelista, outra jabuticaba assembleiana

Pela nomenclatura bíblica, a hierarquia das Assembleias de Deus no geral consiste, em escala ascendente, de diácono, presbítero, evangelista e pastor. Os dois primeiros e o último pelo menos guardam alguma relação com a proposta original, embora na prática ministerial as discrepâncias sejam evidentes, e pretendo apontá-las em outras postagens. Mas eu quis começar pelo evangelista, por ser a patente que sempre me pareceu a mais esquisita, por várias razões. E também por oportunismo, já que a lição da EBD de domingo fala sobre esse assunto (do ponto de vista bíblico, não assembleiano).

Para começar, diferentemente do diácono, do presbítero e do pastor, o evangelista não tem função específica na denominação a não ser esperar a promoção ao posto de pastor. Os evangelistas não podem ser tidos por estagiários nem por aspirantes, no sentido restrito do termo, porque são considerados ministros (e nem vamos nos deter agora para descobrir por que os diáconos e os presbíteros não são). Também não é uma designação reservada aos missionários ou a obreiros dedicados exclusivamente à evangelização, o que pelo menos preservaria um resquício de lógica.

Via de regra, os evangelistas já são pastores de fato, mesmo antes da promoção — ou consagração, como se costuma dizer nesses casos. Os direitos são os mesmos, exceto pelo fato de não poderem assumir a presidência de nenhuma igreja. Soube que o pastor Alcebíades Pereira de Vasconcelos (1914-1988) aboliu os cargos de presbítero e evangelista da AD de Manaus. Consagravam-se ali apenas diáconos e pastores, o mais próximo que teríamos do ideal bíblico, descontado o ranço denominacional. Não sei se ainda é assim.

Tenho a impressão de que algumas convenções passaram ver o posto de evangelista como um teatro de manobras político-administrativas. Conheço um evangelista que espera há vinte anos a promoção a pastor, mas a presidência da igreja não o libera porque percebeu que havia introduzido no ministério um sujeito não muito honesto. Para não dar o braço a torcer e demiti-lo, mantém-no como ministro assalariado. Para contê-lo-lo, recusa-se a colocar o seu nome na lista dos novos pastores. Para quem tem apenas visão de carreira, o posto pode se tornar importante moeda de troca em época de eleições convencionais.

Imagino que haja algumas variantes estatutárias no mar de papel em navegam as convenções, mas em suma, sob a luneta política da denominação, o evangelista é o barquinho que já apontou na baía do ministério, mas ainda não aportou no pastorado.

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Um comentário em “O evangelista, outra jabuticaba assembleiana

  1. Caro Judson! Lembro-me que quando o pastor Marinésio da AD em Campinas (SP) vinha até Joinville para estudos bíblicos, certa fez ele falando sobre separações e títulos de obreiros, disse que falavam antigamente que um evangelista era “um presbítero melhorado”…

    Faz sentido.

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