Se o ex-amigo é maior que o inimigo, arranje um protetor maior ainda

No registro anterior de minhas reminiscências, contei da briga que tive com o Jota, um rapaz da escola, e de como o Gino, não tanto um grande amigo quanto um amigo grande, ajudou a resolver a situação. Disse lá também que depois briguei com o Gino. É o que passo a contar agora.

A aula havia acabado, e eu estava sentado na mureta que dividia em dois o terreno do Colégio Marechal Luz, em Jaguaruna. Atrás de mim, o chão tinha a mesma altura da mureta. Nessa parte mais elevada, ficava o campo de futebol, palco de minha briga com o Jota, e outros espaços destinados a práticas esportivas demarcados com filetes de cimento em relevo (lembro que certa vez arranquei metade da unha do dedão do pé ao tropeçar numa daquelas impassíveis linhas divisórias).

No dia em questão, por algum motivo, o Gino resolveu implicar comigo. Eu tentava me levantar para ir embora, e ele me empurrava de volta. Eu queria me afastar, e ele me segurava.

— Para, Gino! — eu pedia. Mas como acontece nesses casos, quanto mais eu pedia, mais ele se mostrava disposto a me azucrinar.

Como ele não parecia disposto a parar com a brincadeira tão cedo, resolvi apressar as coisas. Na época, ninguém usava essas mochilas que pesam como uma geladeira, carregadas pelos alunos de hoje. Eu usava uma pasta simples de cor marrom, fechada com zíper em cima, com espaço para um livro didático, dois ou três cadernos, lápis, borracha e caneta. Os dois cantos inferiores da pasta sobressaíam um pouco, e o plástico ali era mais duro. E, num segundo que ele me deu de espaço, acertei-lhe uma “pastada” no lado esquerdo da testa. Um pequeno corte em curva, no formato do canto da pasta, começou a verter sangue.

Mais assustado que dolorido, o Gino começou a chorar. Em seguida, furioso, ele partiu para cima de mim. Mas saí também ileso do segundo round, graças às minhas perninhas ligeiras.

Só por precaução, para evitar uma perseguição sistemática, recorri outra vez à estratégia que havia funcionado com o Jota: pedi ajuda a alguém maior que o Gino. A memória me falha nesse ponto, e não lembro se o protetor escolhido foi o meu primo Dalton ou o meu amigo Luiz Schmitz, mas o esquema funcionou com o Gino também, dessa vez sem necessidade de violência. Mais diplomático do que fora o Gino no outro episódio, o meu novo protetor limitou-se a ameaçar quebra-lhe a cara se ele se metesse comigo de novo.

A briga teve repercussão no colégio, e a vice-diretora veio à porta da sala no outro dia avisar que eu seria expulso do colégio caso acertasse a testa de mais alguém com a minha pasta ninja. Eu e o Gino ficamos amigos de novo.

Com o Jota, eu não tinha amizade mesmo e não ficamos amigos após a briga. Ele morreu algum tempo depois, afogado no rio. Mas antes que alguém comece fazer conjecturas, já aviso que tenho álibi!

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Um comentário em “Se o ex-amigo é maior que o inimigo, arranje um protetor maior ainda

  1. ao longo de toda esta historia eu estava assistindo a briga com mais amigos.Ou melhor botando mais lenha no fogo: aqui e o toninho nego um abraco te vejo no pastor J.P.Millue

    Quanto tempo, Toninho! Vamos nos encontrar, sim, e relembrar outras histórias.

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