Tempos difíceis — Os últimos dias

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Anterior: Tempos difíceis — Introdução.

Duas ideias básicas saltam aos olhos quando lemos a respeito dos últimos dias na Bíblia. A primeira é que não são tão últimos assim. O que por definição deveria ser o ponto culminante de um período representa na verdade um período inteiro, como toda a era cristã. Aliás, se tomarmos como ponto de partida a vinda do Messias ao mundo, antes da fundação da igreja, essa larga faixa temporal chega a ser pré-cristã. Some-se a isso o conceito judaico, e veremos os últimos dias se cumprindo já na época do Império Babilônico (Dn 2.28).

A segunda ideia é que a história humana terá um fim, algo que a concepção materialista de mundo não admite. Esse período culminante terá a sua culminância. Os “últimos”, após uma resiliente jornada de vários séculos, finalmente cairão extenuados aos pés de quem criou o tempo.

Desse modo, o crente que se propõe estudar o tema não pode pensar apenas no aspecto futuro da escatologia: terá de levar em conta boa parte da história humana. Mas de onde veio toda essa elasticidade e como esse conceito se tornou cristão?

A resposta não é difícil. Veio da concepção judaica de tempo, que consistia da presente era, do “dia do Senhor” e da era futura. A história da humanidade decaída é inteiramente má, mas prevê um período de intensificação do mal. O Testamento de Issacar, obra do período interbíblico, assim descreve esses tempos: “Saibam, pois, portanto, meus filhos, que nos últimos tempos, seus filhos trairão a simplicidade e se aferrarão ao desejo insaciável; e deixando a inocência, se aproximarão da maldade”. Quando os últimos dias chegarem a esse ponto mais escuro, o Senhor irá intervir de forma dramática na história, e o mundo será radicalmente transformado. Esse é o “dia do Senhor”. Depois desse período, tudo será novo e perfeito — a era futura, os tempos vindouros, o porvir.

A igreja foi inserida nesse contexto e absorveu de forma natural e inevitável o conceito judaico de tempo, e isso significa que desde o Cenáculo estamos vivendo os último dias. A conclusão obrigatória é que a igreja é um empreendimento dos últimos dias (1Jo 2.18).

Então que diferença faz a menção de Paulo ao últimos dias em 2Timóteo 3.1? Porque o contexto pode nos remeter ao passado, ao presente ou ao futuro. A expressão pode até mesmo abranger mais de um desses momentos, e o texto que estamos estudando é um desses casos. Nessa passagem, vemos Paulo descrever em tom profético uma era que ele ainda não vivia (v. 1) e ao mesmo tempo a recomendação feita ao seu contemporâneo: “Foge também destes” (v. 5).

Talvez você entenda melhor o conceito se imaginar os últimos dias como uma faixa de determinada cor que vai se tornando mais escura à medida que se aproxima de uma das extremidades até chegar ao preto no final. A faixa inteira são os últimos  dias, mas conforme o contexto poderemos estar falando de uma parte mais clara ou mais escura, ou de várias partes.

E, considerando o texto em estudo, como saber quando o apóstolo está se referindo a uma extremidade da faixa ou a outra? Como saber se ele está se referindo à realidade da igreja primitiva ou aos tempos mais sombrios que antecedem a segunda vinda de Cristo?

É o que veremos sábado que vem.

Próximo: Tempos difíceis — Passado, presente ou futuro. Acompanhe toda a série na página Estudos.

Nota: Os comentários das Lições Bíblicas agora foram antecipados para 
quarta-feira (leia aqui).

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