Sua bênção pode decretar sua morte

Balneário Barra do Sul, como o nome indica, é uma cidade praiana. Típica da região, apresenta movimento anormal na alta temporada e sossego no resto do ano. O auge da muvuca, sem surpresa, coincide com os festejos de Natal e Ano-Novo, quando os municípios vizinhos empurram uma parcela significativa de seus cidadãos para os ares mais refrescantes do litoral. Nesses dias, o trânsito fica irreconhecível, em razão do fluxo interminável de veículos, que entopem as estreitas artérias da cidadezinha de 10 mil habitantes. Em tais circunstâncias, o clima de praia não contribui em nada para melhorar o humor dos motoristas.

Tive a prova disso na última terça-feira, enquanto aguardava a chegada de um ônibus de Joinville que trazia a minha filha mais velha, Elen, para passar o final de ano comigo. Um carro que estava estacionado tentava ingressar no cortejo que se arrastava por uma das principais e não menos apertadas ruas da cidade. Finalmente, alguém de boa vontade lhe abriu espaço. Então aconteceu algo estranho. Assim que tomou o seu lugar na pista à frente do outro veículo, ele simplesmente ficou parado no meio da rua.

Durante trinta intermináveis segundos, nenhum veículo pôde se mover naquela direção, pois o trânsito em sentido contrário era de uma constância irritante. Como as dezenas de motoristas cada vez mais impacientes atrás dele, eu também não via razão para o carro não seguir em frente. Nenhum pedestre afoito tentava atravessar a rua naquele ponto, e o motor também não havia morrido. Eu ainda cogitava outros motivos quando o mistério por fim se revelou: em pequenos e sossegados saltos, uma rã aproximava-se do meio da rua, sob a proteção daquele humano atento. Mas este escolhera péssima hora e lugar para exercitar a sua consciência ecológica.

Assim que percebeu o motivo da pausa forçada, o motorista que lhe dera passagem aproveitou um hiato no fluxo contrário e arremeteu contra o animalzinho, esmagando-o furiosamente. Com o mesmo ímpeto, ultrapassou o carro cujo condutor fizera pouco de sua gentileza e deu-lhe uma fechada, duas famílias a vinte centímetros de uma tragédia. Tudo isso por causa de meio minuto de tempo roubado.

Mas o tempo — roubado ou não — nunca para. Segundos depois, o incidente ficou no passado, o trânsito voltou à normalidade e os carros passavam indiferentes pelo corpinho esmagado da rã. “Algumas lições podem ser extraídas daí”, pensei, sem me deter a elaborar outras reflexões, exceto o que resultou na curta frase que dá título a esta postagem. A pobre rã recebeu a sua bênção (proteção para a travessar a rua), mas por conta disso acabou morrendo (pelo ato de vingança do motorista apressadinho). Concluí que benefício e tragédia não se excluem necessariamente.

E isso já é algo para o leitor pensar.

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