A “doutrina”, outra jabuticaba assembleiana

Meu amigo Esequiel Carvalho, era admirado por suas ótimas pregações e também por ser um sujeito simples e cordial. Tinha um “defeito”, porém: não se adequava muito bem ao regime espartano da AD das décadas de 1970 e 1980. Ele me contou que certa vez um membro da igreja o definiu desta forma: “Muito bonzinho, mas não tem doutrina”. Queria o zeloso irmão dizer que o meu amigo era boa gente, mas era negligente com os costumes da igreja. Provavelmente, queria dizer também que ele não era salvo.

Ninguém estranhava tal conceito porque, no vocabulário assembleiano, o termo “doutrina” acabou se cristalizando como sinônimo de usos e costumes, a ponto de ter precedência sobre o significado óbvio, que é a doutrina bíblica. Com isso, a doutrina “visual” acabou virando a pedra de toque da espiritualidade — as exterioridades definiam melhor o crente do que as suas virtudes. Vamos esclarecer: estas não eram ignoradas, mas aquelas eram imprescindíveis.

Essa perversão semântica, como é natural, levou a uma inversão de valores. Assim, era mais fácil perdoar o adúltero do que a moça que cortava o cabelo. Fazia-se vista grossa ao trapaceiro, mas não havia clemência para quem usava bermuda. Mas nem vamos enveredar por esse caminho.

É certo que, oficialmente, a denominação sempre distinguiu usos e costumes de doutrina bíblicas, ou pelo menos reconheceu a existência dos tais, quase sempre reforçada pela expressão “bons costumes”. Essa alegada benignidade, entretanto, nunca foi explicada de maneira convincente. Existe até um livro, publicado pela CPAD, da autoria de Antonio Gilberto, que me parece uma tentativa de dar uma resposta definitiva ao assunto, porém resultou num monumento à enrolação (explicar isso exige um artigo à parte, e o farei, se necessário).

A verdade é que essa mania de confundir doutrina com costume (ou com regimento interno) trouxe prejuízos incalculáveis à denominação. E, embora eu tenha usado o verbo no passado nos parágrafos anteriores, a verdade é que mesmo hoje, com as Assembleias de Deus mais “evoluídas”, a confusão não se desfez, e em milhares de arraiais costume ainda é doutrina, e doutrina, pouco mais que um acessório espiritual. Essa jabuticaba não vai desgrudar do tronco tão cedo.

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