O que é música sacra?

Resgatei do o jornal O Assembleiano (ano I, n. 7, ago. 1991) parte de um debate sobre música sacra, proposto pelos meus amigos José Martins e Natan de Oliveira, durante um seminário de música que aconteceu em São Paulo, promovido pela Associação Musical Jahn Sorheim. A ideia era definir música sacra ou o tipo de música mais adequado ao culto cristão. Hoje foram acrescentados elementos a essa discussão, mas em essência o tema permanece.

Participantes: Celine Amber (professora de técnica vocal); Francisco Campos (professor de técnica vocal); Ari da Silveira Jr. (professor de trompa); Lígia de Matos (professora de piano); Rute Feres (professora de piano); Sérgio Barbosa Siqueira (regente do coro da AD do Belém); Gilberto Masardane (regente da orquestra da AD do Belém); Joel Batista (professor de regência).

O que é música sacra? Ela existe ou não?
GILBERTO: Bom. Entendo que é possí­vel separar música sacra de música profana desde que se obedeça a um padrão de orquestração, de direção dessa música, principalmente com relação à letra e ao comportamento das pessoas com relação a ela.

Uma música é sacra pela letra, então?
GILBERTO: Pela letra e pela sua estru­tura musical.

O que não seria música sacra? Samba é profano?
SÉRGIO: O samba, sim. Acho que o que se deve levar em conta é o obje­tivo. A música sacra é criada louvar a Deus e falar das suas coisas, para que haja edificação em quem ouve. O samba não traz isso como obje­tivo. Seu objetivo é mais o balanço, ritmo.
LÍGIA: Mesmo que ele tenha letra evangélica, nunca vai ser música sa­cra.
ARI JR.: Na antiguidade, a palavra “profana”, para música, significava toda música criada fora da igreja. A música produzida dentro da igreja era sacra.

Por que, em nosso meio, samba é profano e música sertaneja não?
FRANCISCO: Não, não. O profano nes­se caso é só isto: a música que é feita dentro da igreja é música sacra e fora da igreja é profano. A história já separa isso.

Então se pode fazer uma lambada dentro da igreja, e ela será considerada música sacra?
FRANCISCO:  Acho que se poderia fa­zer, mas seria de mau gosto.
CELINE: Acho que um cristão não tem muita vontade de fazer lambada dentro da igreja. Agora, se ele fizer tudo com amor, com toda devoção, e “sair” uma lambada, é bom. Que faça isso dentro da igreja. A gente não tem que especificar cada estilo. A música, antes de tudo, é arte, e arte é uma coisa que está acima dos homens, porque é inspirada por Deus.

O Diabo pode inspirar uma música?
GILBERTO: Claro. Hoje não existem ritmos, frequências que incomodam os deuses? A música e o instrumento estão sujeitos ao intérprete. E aí está o perigo. Se num culto de adoração procurarmos saber que influência traz um ritmo, vamos identificar o que é agradável ou não a Deus. Hoje existe um movimento em expansão, atingindo as massas, o gospel, que envolve todas as ramificações de mo­dernização da música na adoração a Deus. Queria que as pessoas desse movimento mostrassem uma condu­ta cristã fazendo esse tipo de música, que tivessem um comportamento em relação ao mundo como o Senhor nos disse: “Estejamos no mundo, mas sejamos diferentes do mundo”. Meu pai foi músico de baile desde a mocidade. Depois de casado, converteu-se e, sentado no banco da igreja, vê pessoas trazendo para cá as músicas de fora. A emoção que ele sente é muito triste. A música tem de sair daqui para fora, porque aqui nós invocamos a Deus. Já assisti palestra sobre a influência da música e tudo o que traz condicionamento, mas essa diferença é muito difícil de mostrar. De que Deus se agrada? Creio que ele pode se agradar de um samba, mas para mim é difícil. Quem sabe em alguns anos…
SÉRGIO: A música é composta de três elementos: melodia, harmonia e ritmo. A inspiração tem uma ordem que afeta determinadas áreas do ser humano. A melodia mexe com o in­telecto, é o fato de a pessoa criar melodias com apenas sete notas e desenhos infinitos. A harmonia me­xe com o sentimento, pois pode dar sensação de tristeza, alegria e gran­diosidade. E tem o ritmo, que mexe com o corpo. Então o que agrada mais a Deus: mexer com o corpo ou com o sentimento da pessoa? Acho que essa é a questão. Na minha concepção, acho que Satanás usa pri­meiro o ritmo, depois o intelecto e, se sobrar espaço, a harmonia pa­ra atingir a alma, o sentimento da pessoa.

Como despertar a musica­lidade nas pessoas, uma vez que elas, principalmente as de baixa renda, só conseguem ver essa música comercial?
CELINE: Explicando para elas o que é bom, o que é música, o que é estu­dar música.
GILBERTO: Olha, acho que não temos a capacidade de despertar nada em ninguém. Se fosse assim, eu sairia com a varinha da música tocando em todo mundo.

Mas temos que tentar, não?
GILBERTO: Tentar é nossa função. Acho que as igrejas, principalmente nossos pastores, têm de voltar a olhar o músico como um instrumen­to de Deus, para incentivá-lo. O pro­blema é que não há esse incentivo, muito pelo contrário. Mas já esta­mos no quinto seminário de música, e isso está enraizando e se espalhan­do.

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