Chesterton e a maioridade penal

Acabei de ler (e já me programei para reler) Ortodoxia, do teólogo católico G. K. Chesterton, de onde extraí estes parágrafos interessantes. Embora não tratem diretamente do assunto mencionado no título da postagem, podem ser aplicados ao debate e equivalem a um soco no estômago do coitadismo propagado pelas militâncias pós-modernas, que deslocam seres violentos para a condição de inculpáveis ou mesmo de vítimas. Se você queria a opinião de um pensador brilhante sobre o tema, específico ou geral, aí está.

Esse é um assunto vasto que pende demais para um lado da estrada para discuti-lo adequadamente aqui; mas trata-se da verdadeira objeção àquela torrente de conversa moderna acerca do crime como uma doença, sobre trans­formar a prisão num mero ambiente higiênico como um hospital, sobre curar o pecado por meio de lentos métodos científicos. A falácia de todo esse caso é que o mal é uma questão de escolha ativa, ao passo que a doença não é.

Se você diz que vai curar um devasso como se cura um asmático, minha resposta fácil e óbvia é esta: “Apresente as pessoas que querem ser asmáticas uma vez que muitas que­rem ser devassas”. Um homem pode ficar deitado inerte e curar-se de uma enfermidade. Mas ele não pode ficar deitado inerte se quiser curar-se de um pecado. Pelo con­trário, ele precisa levantar-se e correr por aí feito louco.

A questão toda de fato está expressa à perfeição na pró­pria palavra usada para quem está hospitalizado: “pacien­te” tem um sentido passivo; “pecador” tem um sentido ativo. Se um homem quiser se salvar de uma gripe, ele pode ser paciente. Mas se quiser se salvar de uma falcatrua, ele não pode ser paciente, tem de ser impaciente. Ele deve sentir-se impaciente com a falcatrua. Toda reforma moral come­ça na vontade ativa, não na passiva.

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2 comentários em “Chesterton e a maioridade penal

  1. Judson,

    Será possível o ser humano viver totalmente limpo do “pecado” e das culpas que castigam a sua mente o tempo todo? Se a sua resposta for “sim, é possível através da ‘remissão’ por Cristo Jesus”… surge então outra pergunta: então todos os que creem em Jesus jamais sentirão essa coisa estranha que permeia a mente dos seres humanos entristecendo-os profundamente deixando-os incomodados o tempo todo, e frequentemente desassossegados consigo mesmos?

    Oseias, os remidos também pecam e sentem tristeza ao pecar. Basta ler o salmo 51 ou lembrar a exclamação de Paulo: “Miserável homem que sou!”. Aliás, os não redimidos é que, apesar do anseio natural pela salvação, tendem a se tornar mais insensíveis ao pecado, a ter a mente cauterizada.

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  2. Judson,

    E se um dia a neurociência demonstrar com provas bem robustas que tudo aquilo que comumente denominamos ser “pecado” ou “desejo pecaminoso” não for apenas uma disfunção física (ou química) de nosso cérebro? Imaginemos então o assombro dos teólogos no dia em que a ciência médica comprovar que uma intervenção cirúrgica possa, por exemplo, “curar” um pedófilo restituindo neste ex-criminoso a “normalidade” cerebral devolvendo-o sadio à sociedade?

    Oseias

    Ótima pergunta, Oseias. Mas penso que o pecado ainda permanecerá pecado, seja qual for a sua causa. A natureza pecaminosa do ser humano não pode ser removida por um bisturi.

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