Ser crente é não crer em muita coisa (reedição)

Cross PlainUm homem que considero muito sábio um dia me ensinou: “Você não deve crer em muita coisa”. Longe de ser um incentivo ao ceticismo, esse conselho ao longo dos anos ajudou-me a selecionar de tudo que li e ouvi o que de fato importava para a minha fé.

A ideia de compendiar as crenças não é estranha às Escrituras. Todo o espírito da lei de Moisés está resumido nos Dez Mandamentos, que no Novo Testamento encontramos espremido ainda na ordem de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, e isso abrange não só a Lei, mas também os Profetas. Ou seja, toda a prática sugerida pela revelação do Antigo Testamento caberia num versículo.

Sobre o que, na era da graça, vem a constituir a “verdadeira igreja”, preocupação que veio a gerar inúmeras correntes migratórias, não raro conduzindo a destinos fatais para a fé, temos o teste simples de João: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus.

A fé tende ao simples, ao essencial, ao indispensável. Todo o resto é acessório. Não que as convicções pessoais ou coletivas que vinculamos à fé sejam necessariamente ruins, porque ninguém vive sem convicções. Afinal, elas é que nos orientam em todos os aspectos da vida. Mas tenho para mim que as convicções também são regidas por uma regra simples: não podem se igualar e muito menos se impor ao que é exclusivo da fé.

Fico exasperado quando ouço certos mestres, por mais piedosos e renomados, apresentarem teorias e meras convicções pessoais como se fossem “bíblicas”, no sentido de inquestionáveis, inspiradas, essenciais à salvação, seguidas da indefectível advertência de que os pensamentos divergentes são “antibíblicos”. No especulativo campo da escatologia, parecem ser mais esclarecidos que Daniel ou dão a impressão de que foram buscar em Patmos evidências que João deixou passar despercebidas. Posso não ter o conhecimento deles, mas afirmo que nisso estão errados, porque, em vez de esclarecer, semeiam confusão.

Nestes tempos de falsos cristos e teologias esdrúxulas que proliferam como baratas, a melhor atitude é nos agarrarmos à fé, porque cada vez mais iremos depender do essencial. Se necessário, abandone até as suas convicções, como o marinheiro que se desfaz da carga do navio na tempestade. Suas convicções não vão salvá-lo. Novas teorias e teologias poderão desviá-lo do céu. A única coisa que garante a sua salvação é a fé.

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