Transforme a sua igreja num refeitório

agape-feast2Aproveito o tema do culto/ comunhão da postagem de ontem para reproduzir este artigo que escrevi em 2011.

De uma mesa de restaurante aqui em Curitiba, guarnecida por cumbucas de feijoada e algumas cervejas, veio-me a iluminação do que pode ser a melhor forma de culto.

Cultivando o meu hábito de ouvir conversas alheias com a dedicação de quem cuida de um orquidário, fiquei atento à conversa dos quatro homens que ocupavam a referida mesa, ao lado da minha, e conversavam justamente sobre o fato de estarem à mesa. Um deles disse:

— Isto é desestressante. Aqui falamos das dificuldades que cada um tem na vida, rimos, discutimos nossas opiniões.

Os outros concordaram. Eu também, em silêncio, enquanto fingia estar mais concentrado no meu prato. Aliás, nenhuma novidade no comentário. Nossas maiores “descobertas” são na verdade coisas que já sabemos, de uma forma ou de outra. Um dia, descobrimos que a pessoa com quem convivemos há muitos anos não é tão má (ou tão boa) quanto pensávamos, mas essa percepção geralmente vem do que já sabemos a respeito dela, não é? Ou percebemos, depois de muito pensar, que a melhor atitude a tomar em determinada situação é aquela que sabíamos ser a melhor desde o início.

Mas já estou indo para a sobremesa. Voltemos às cumbucas. As vasilhas fumegantes lembravam pequenos sacrifícios consumidos num clima de certa reverência. Quando lemos sobre as oferendas prescritas na lei mosaica, tendemos a pensar em algo que simplesmente era entregue, mas nem tudo era consumido pelo fogo do altar. Nas grandes celebrações, principalmente, a maior parte da carne ia para as mesas. Os sacerdotes tinham o seu quinhão. As famílias literalmente faziam a festa com a melhor carne do rebanho e com outras guarnições que traziam de casa.

Na Igreja primitiva, os altares e os sacerdotes foram dispensados, mas não a comida. A ceia ritualística era o complemento, representação terrena da comunhão vertical com o Altíssimo, mas era na horizontalidade do sagrado refeitório que os laços do amor fraterno se fortaleciam. Os cristãos do primeiro século assim reunidos também falavam das dificuldades da vida, riam e expressavam opiniões, embalados pela comida farta e diversificada. Eles eram admirados por sua unidade e por sua união, mas sem dúvida a gastronomia merece boa parte do crédito.

Nos dias de hoje, em que tanto se reclama da falta de comunhão entre os irmãos e tanto se fala de voltar ao evangelho simples, temos a oportunidade de descobrir o que já sabemos: as igrejas precisam voltar a ser refeitórios. Se o pastor pretende um retorno ao cristianismo mais puro, que comece a comprar mesas. Que se façam dos cozinheiros ministros e se patrocinem cursos de garçom para os diáconos. O incenso da oração mantém a comunhão com Deus, mas o cheiro da comunhão com o próximo, com o irmão em Cristo, é o que emana das terrinas e assadeiras.

Os bancos da igreja nos permitem apenas olhar para a frente, sem conversas paralelas, apenas “com Deus”. A mesa garante a comunhão multidirecional e libera a conversação, a entrevista, a tribuna informal, as confissões, o envolvimento emocional que pode salvar uma vida.

Em suma, se o cristianismo pretende continuar a distribuir o Pão do céu com todo vigor, está precisando redescobrir a comida caseira.

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