O mistério da geladeira

Dias atrás, a geladeira da quitinete que alugo desde que retornei a Curitiba começou a emitir um odor estranho, não aquele cheiro característico que pode ser combatido com um simples desodorizante, mas de coisa estragada mesmo. Na condição de solteiro com limitadíssimas aptidões culinárias, não guardo muita coisa nesse espaço refrigerado, exceto alguma carne no congelador e água, lacticínios, sucos, ovos, verduras, legumes e alguns potes de produtos diversos distribuídos pelas prateleiras e gavetas, tudo em quantidades mínimas.  

Numa rápida conferência visual, não vi nada que parecesse a fonte do mau cheiro. As carnes congeladas, como a maioria dos outros itens, eram de pouco tempo, os vegetais não estavam passados e os potinhos descansavam indolentes na porta fazendo companhia aos sucos e ao leite.

Intrigado, aprofundei a investigação e só consegui parecer um retardado cheirando as partes íntimas e frias do monstrinho de lata. Como nada sugeria (na minha modesta opinião) uma limpeza urgente, o mistério tornou-se ainda mais profundo e malcheiroso.

Como sei que os maus espíritos, como criaturas mal-educadas que são, costumam exalar odores fétidos para atormentar as pessoas, cheguei a pensar na possibilidade de a geladeira estar possuída. Mas como ela nunca chacoalhou, nem levitou, nem me xingou em latim, acabei descartando a ideia.

Então, ontem, após mais de uma semana de tribulações olfativas, finalmente resolvi o mistério. Um potinho de requeijão light, que não estava bem fechado e escapara à minha inspeção visual, expelia por uma abertura ínfima as evidências do fim de sua validade. Expurgada a causa do problema, tudo voltou ao normal.

Deixo então aos leitores esta preciosa lição: um milímetro de negligência pode gerar dias de sofrência.

Breves notas sobre as palavras de Jesus: extratos da aula 29

Os pobres (humildes) de espírito
Mateus 5.3, ARA

O Sermão do Monte (Mt 5—7) é a base da doutrina de Jesus. As bem-aventuranças podem ser consideradas a base dessa base. E, como em Mateus é fácil deduzir que elas seguem uma sequência lógica, a primeira virtude da lista — a pobreza de espírito — constitui a base da base da base. Não há como entender plenamente o que Cristo espera de seus seguidores sem conhecer o significado de ser pobre de espírito.

Bem-aventurados os humildes [pobres] de espírito, porque deles é o reino dos céus.

  • O pobre de espírito não é o pobre, a chamada vítima da sociedade. Não existe uma bem-aventurança automática creditada a alguém só porque ele é desprovido de recursos materiais ou desfavorecido com relação a outros membros da sociedade. As virtudes que Cristo espera de seus seguidores não estão vinculadas a posses materiais ou status A razão é simples: o pobre pode ser orgulhoso, ganancioso, cruel, injusto e depravado, como qualquer pessoa. Nada garante que um pobre seja manso, misericordioso, pacificador, e assim por diante. Sem dúvida, Deus se preocupa com os pobres (Lv 19.9-10; Tg 1.27), mas não faz acepção quando a moral e a espiritualidade estão envolvidas (Lv 19.15; ver Dt 1.17; At 10.34-35).
  • A passagem paralela de Lucas 6.20 menciona apenas os “pobres” nessa bem-aventurança. A razão é que nos tempos de Cristo (e em outras épocas também) os ricos tendiam a transigir com o paganismo, e era entre os pobres que se encontravam as pessoas mais piedosas, ou seja, estatisticamente os pobres eram mais fieis que os ricos. Convém lembrar ainda que na cultura judaica os ricos eram tidos por bem-aventurados, não os pobres.
  • No princípio, ser “pobre” significava passar necessidades materiais. Mas como os necessitados geralmente não tinham outro refúgio a não ser Deus, a “pobreza” recebeu nuances espirituais e passou a ser uma humilde dependência de Deus.
  • O pobre de espírito também não é o crente “fraco” (Rm 14) nem o de pouca instrução, que nos arraiais eclesiásticos são chamados “humildes”. Nenhuma dessas condições diz respeito ao que Jesus tem em vista aqui. O crente “fraco” é simplesmente alguém que precisa robustecer sua espiritualidade, e o “humilde” não passa do crente que precisa se instruir. Não é raro nas igrejas pessoas terem certo orgulho de sua ignorância, como se isso lhes desse algum crédito espiritual. Nem o orgulho nem a ignorância são esperados de um seguidor de Cristo, como ele mesmo diz: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11.28).
  • O pobre de espírito é aquele que se aproxima de Deus e, quanto mais próximo dele, mais consciência tem de sua condição miserável. Nessa proximidade, ele também percebe o estado decaído do mundo e se convence de que a única esperança de salvação reside em Deus. De nada importa a quantidade de recursos materiais que possua ou o estrato social a que pertença, tudo se dissolve diante das riquezas da graça. Então ele reconhece a sua pobreza e passa a depender exclusivamente de Deus. Um hino da Harpa cristã diz: “Às alturas santas ninguém voa sem as asas da humilhação”. Quem não alcança essa percepção é um simples iludido com a autossuficiência e cai na condenação de Laodiceia (Ap 3.17).
  • O orgulho espiritual ou religioso impede a sintonia plena com Deus, pois o pobre de espírito é aquele se esvazia do humano para ser cheio do divino. Mas devemos cuidar para não nos orgulharmos de nossa pobreza de espírito, porque o orgulho espiritual é estática em nossa comunicação com Deus. Os fariseus tinham bons propósitos no início, porque trabalhavam para trazer o povo de volta à obediência da Lei. Mas depois começaram a entupir o canal com as suas regras e tradições e passaram a admirar a própria piedade. Com isso, perderam a sintonia com Deus, como o rio que se torna mais poluído à medida que se afasta na nascente e se aproxima das cidades. Assim, quando o Messias chegou, estavam tão desconectados de Deus que nem foram capazes de reconhecê-lo.
  • O Reino dos céus pertence ao pobre de espírito aqui e na eternidade porque “ninguém há que tenha deixado casa, ou mulher, ou irmãos, ou pais, ou filhos, por causa do reino de Deus, que não receba, no presente, muitas vezes mais e, no mundo por vir, a vida eterna” (Lc 18.29-30). Essa bem-aventurança encerra um dos maravilhosos paradoxos da fé cristã: o pobre de espírito fica sem nada para ter tudo (Mt 16.25).

Michelangelo e o Espírito Santo (reedição)

Michelangelo, um dos maiores gênios criadores da humanidade, segundo a história da arte, além de pintor, poeta e arquiteto, era excelente escultor. Os estudiosos que tentam entender o sentido de sua arte acreditam que ele era capaz de enxergar dentro da pedra bruta a peça que pretendia esculpir e usava o cinzel e o martelo apenas para retirar os excessos.

Em minhas rápidas pesquisas sobre o Espírito Santo para algumas as aulas que andei ministrando (leia aqui), não pude deixar de perceber a semelhança entre o método do grande escultor e a obra de santificação operada em nós. A santificação é um processo que aponta para a perfeição, o crescimento interior que tem como propósito fazer com que cada cristão atinja a estatura espiritual de Cristo.

Sabemos, porém, que a perfeição nesta vida é impossível. As esculturas de Michelangelo, humanamente falando, podem ser consideradas obras perfeitas. Aliás, conta-se que quando ele concluiu uma delas, bateu no joelho da estátua e ordenou: “Fala, Moisés!”, tão impressionado ficou com o próprio trabalho. Aos olhos de Deus, porém, jamais atingiremos tal completude, muito menos seremos alvos de sua admiração.

Além disso, como pedras vivas e pensantes, temos a tendência de pensar que o cinzel divino está trabalhando no lugar errado, porque também idealizamos a nossa escultura interior, e ela não coincide com a do Espírito Santo. Não conseguimos enxergar dentro de nós a mesma imagem que ele visualizoua obra perfeita que enxerga na matéria bruta da alma regenerada e que pretende concluir. Assim, protestamos quando ele remove algo que fazia parte da peça que havíamos concebido. É quando o mármore insubmisso pergunta ao Escultor: “Que fazes?”.   

Por causa de nossa natureza rebelde, a perfeição cristã será sempre uma escultura inacabada, como São Mateus, outra obra de Michelangelo, porém não concluída. Percebem-se belas linhas emergindo da pedra bruta, mas o produto final não é conhecido. Nisso a perfeição cristã guarda uma semelhança e uma diferença com a obra inacabada do grande mestre italiano.

A semelhança é que nós, do ponto de vista da perfeição que nos é exigida, somo todos obras inacabadas. Ao encerrar a nossa jornada aqui, seja pela morte, seja por ocasião da vinda de Jesus, seremos todos parte pedra bruta e parte trabalho artístico, nos mais variados estágios.

A diferença é que a obra que o Espírito Santo começou em nós será concluída. Na eternidade, iremos ter plena consciência do que ele pretendia realizar em nós, ambos veremos a mesma peça no interior da pedra bruta. Creio que Paulo também se refere a isso quando menciona o conhecimento pleno que teremos quando vier o que é perfeito. Então o Espírito Santo irá bater em nosso joelho e dizer: “Pode falar agora!”. Ou então: “Era isto o que eu queria fazer”. Porque ele terá diante de si uma obra perfeita. 

Coisas que me fazem sentir bem (reedição)

***

Um momento de oração à noite — que me dê a oportunidade de dizer a Deus o que não digo a mais ninguém.

A leitura de um livro — que me ensine algo, conte uma boa história ou toque a minha alma, seja com mãos de veludo, seja com um ferro em brasa.

Uma música melodiosa — que me obrigue a escutá-la de novo.

Um filme ou episódio de um seriado de TV — que tenha uma boa trama, não necessariamente um final feliz.

Uma taça de vinho — que não seja para o tratamento de nenhuma doença timoteana.

Um hino antigo — que me transporte para alguma antessala do céu.

Uma viagem — que ajude a ampliar o meu mundo interior.

Um comentário no blog — que me dê a sensação de que algumas de minhas postagens serviram para alguma coisa, afinal.

Um encontro com um amigo que não vejo há tempos — que tem a virtude de dar nova roupagem a velhas lembranças.