O mistério da geladeira

Dias atrás, a geladeira da quitinete que alugo desde que retornei a Curitiba começou a emitir um odor estranho, não aquele cheiro característico que pode ser combatido com um simples desodorizante, mas de coisa estragada mesmo. Na condição de solteiro com limitadíssimas aptidões culinárias, não guardo muita coisa nesse espaço refrigerado, exceto alguma carne no congelador e água, lacticínios, sucos, ovos, verduras, legumes e alguns potes de produtos diversos distribuídos pelas prateleiras e gavetas, tudo em quantidades mínimas.  

Numa rápida conferência visual, não vi nada que parecesse a fonte do mau cheiro. As carnes congeladas, como a maioria dos outros itens, eram de pouco tempo, os vegetais não estavam passados e os potinhos descansavam indolentes na porta fazendo companhia aos sucos e ao leite.

Intrigado, aprofundei a investigação e só consegui parecer um retardado cheirando as partes íntimas e frias do monstrinho de lata. Como nada sugeria (na minha modesta opinião) uma limpeza urgente, o mistério tornou-se ainda mais profundo e malcheiroso.

Como sei que os maus espíritos, como criaturas mal-educadas que são, costumam exalar odores fétidos para atormentar as pessoas, cheguei a pensar na possibilidade de a geladeira estar possuída. Mas como ela nunca chacoalhou, nem levitou, nem me xingou em latim, acabei descartando a ideia.

Então, ontem, após mais de uma semana de tribulações olfativas, finalmente resolvi o mistério. Um potinho de requeijão light, que não estava bem fechado e escapara à minha inspeção visual, expelia por uma abertura ínfima as evidências do fim de sua validade. Expurgada a causa do problema, tudo voltou ao normal.

Deixo então aos leitores esta preciosa lição: um milímetro de negligência pode gerar dias de sofrência.

Estiagem mental

E este recesso criativo que não acaba?

Parece que tem chiclete no teclado.

Na expectativa de domingos melhores

Ontem à tarde, a queda de energia no prédio e a falta de uma boa companhia empurraram-me para um programa solitário nos Shopping Palladium, que fica aqui perto.

O churrasco de quitinete feito em churrasqueira elétrica (pão de alho recheado, linguiça toscana e contrafilé Angus consumidos entre goles de Santa Alba Reserva) ainda pesava no estômago, por isso me mantive longe das ofertas gastronômicas, exceto por um espresso de avelã (não consegui identificar o gosto) no café da loja das Livrarias Curitiba.

Ainda no café, sentei-me numa das poltronas que cercam o ambiente e li o prefácio e um capítulo de Exorcismo, de Thomas B. Allen, que alguém havia deixado ali. O livro conta a história real de possessão demoníaca que inspirou o filme O exorcista, e a leitura me interessou. Mas eu também eu não estava no clima para comprar livros.

Então optei pelo cinema e dirigi-me ao espaço da UCI, que fica no terceiro piso. Em cartaz, o último filme estrelado por Tom Hanks. Já estava na fila da bilheteria, quando me dei conta da ironia da situação: ali estava eu, um cristão, prestes a comprar a minha entrada para o Inferno. Isso depois de ficar no escuro e de ter a atenção atraída para um caso de possessão demoníaca. Pois é. Nessa fieira sinistra de coincidências, até o bom churrasco acabou virando uma metáfora desagradável.

Decididamente, preciso melhorar os meus domingos.

Ponderando com Pondé

Ontem compareci a uma sessão de autógrafos com o filósofo Luiz Felipe Pondé, na loja das Livrarias Curitiba do Shopping Palladium, que fica pertinho de onde eu moro. Ele está lançando o livro Filosofia para corajosos, que tem o propósito de incentivar o leitor a pensar “com a própria cabeça” ou “na própria língua”. A segunda expressão é uma referência direta a Nietzsche. Falar nfilosofia-para-corajososa língua dos outros significa escorar-se no que outros já disseram e dizer apenas o comum, em vez de falar na própria língua, ou seja, expressar as próprias ideias sem o receio de destoar da maioria, daí a necessidade de ser corajoso. Isso não significa, como o autor deixa claro, negar as nossas origens e influências, mas utilizar esse repertório para elaborar uma concepção particular de mundo.

Fiquei feliz de constatar que venho fazendo isso há algum tempo, mesmo antes de ter criado o blog. No final da década de 1980 e início dos anos de 1990, eu editava o jornal O Assembleiano (olha a influência no nome e a intenção de não ir muito além da cerca!) e já era considerado um rebelde por um bom número de pastores e membros da denominação, embora eu ainda fosse muito, digamos, assembleiano. Devo dizer que as ideias não eram tão chocantes nem as críticas ao sistema tão contundentes, mas soavam revolucionárias para a época e renderam muita polêmica.

Com o blog, distanciei-me um pouco mais da caixinha filosófico-doutrinária da denominação, embora sem renegá-la (não há contradição nisso, mas não é o caso esclarecer aqui). O fato é que, ponderando sobre a mensagem do livro, mais em torno do subtítulo que do título, dei-me conta de que desde muito tempo venho pensando na própria língua a partir de minhas leituras, observações e experiências. Isso me deu alguma satisfação, e acho que, guardadas as proporções, Nietzsche também ficaria satisfeito comigo.

Mais ainda, vejo hoje com alegria que a blogosfera cristã, à parte de Pondé e Nietzsche, está sendo enriquecida com autores jovens e maduros que também resolveram pensar na própria língua e não temem expor as suas concepções ao mundo. Sim, existem os bitoladinhos que fazem sucesso lustrando as botas do tradicionalismo, que só falam na língua dos outros, mas achando que criaram o neodothraki. Sem surpresa. O comum será sempre… comum. E autoiludido. Só que isso é tema para outra postagem. Ou várias outras.