Arquivos de Categoria: Cotidiano

O mistério do açucareiro

AçucareiroNuma tarde de setembro, quando ainda morava em Jaguaruna, estranhei ver o açucareiro, que mantinha em cima da geladeira (foto), com a tampa levantada. Havia uns três dias que não usava açúcar e tinha certeza de que ele estava fechado. Sem ânimo para conjecturas, baixei a tampa e voltei ao computador, pois o trabalho costuma me preocupar bem mais que os enigmas domésticos.

Uma hora depois, voltei à cozinha e lá estava o dito cujo expondo de novo a sua doçura interior ao mundo. A ideia de a casa ser habitada por algum espírito, um pneuma brincalhão, passou-me rapidamente pela cabeça, mas não tempo suficiente para me convencer. Baixei a tampa mais uma vez e voltei ao trabalho.

Mais uma ida à cozinha, e agora a tampa erguida parecia caçoar de mim numa gargalhada muda. Pela terceira vez, empurrei-a para baixo. Mas então resolvi ficar de tocaia, a fim de resolver o mistério.

Segundos depois, a tampa começou a tremer e a ensaiar nova e autônoma abertura. E tudo foi esclarecido.

Era um pneuma, sim, mas não um espírito com vontade própria: apenas o vento que entrava pela janela e sem dificuldades empurrava de passagem a leve tampa de plástico para cima.

Aí só faltou descobrir o que eram aquelas batidas metálicas perto da minha janela de madrugada. Mudei-me para Joinville sem descobrir esse outro mistério.

Xará infeliz

Pego um livro na expectativa de uma leitura relaxante e eis que deparo com este trecho:

Erros irreversíveis

Sobre mudanças e apreensões

MudançaEstou para mudar. De cidade. De rotina. De planos.
E toda mudança, ainda que impelida por boas expectativas, tem as suas apreensões.
Despedidas.
Abandono da zona de conforto.
Lembranças e planos que se misturam.
Incertezas. (Minha partida magoará alguém? Devo ficar mais um pouco? Estou indo para o lugar certo? Tudo sairá como planejei? O que faço com a caneca do Elvis?)
Arranjos de última hora.
A viagem, aquela espécie de limbo, em que não se pertence a lugar nenhum.
A chegada, uma incógnita. Porque, apesar dos planos, do otimismo e de relativas garantias, ninguém pode ter certeza de nada.
O futuro a Deus pertence, diz o clichê, mas o problema é saber onde o meu se encaixa.
Se me concentrar em Deus, ele aplainará os meus caminhos, diz a Bíblia, mas nem sempre consigo ver para onde estou sendo levado.
Aguardo uma orientação mais personalizada, mas não ouço vozes interiores. Nenhuma criatura luminosa vem me visitar. As jumentas não falam comigo.
Contudo, me pego crendo. (“Se a paz sobre nós seu véu descer/ Se a tempestade a terra abalar…”)
É que a fé tem as suas apreensões também, conclui este meu ser incoerente.
Mas como é possível ter fé e estar apreensivo? Não sei. (Ah, Chicó!) Só sei que é assim.

Milagre mórmon

Hoje de manhã, estava na fila do caixa rápido do supermercado, e logo atrás de mim estavam dois jovens elders e um senhor, com certeza também um mórmon. O homem começou a contar uma história para os rapazes, e aproveitei o momento para exercitar o velho hábito de escutar conversas alheias. Reproduzo a história aqui, sem dúvida uma piada caseira:

Dois elders estavam parados num determinado lugar, quando um meliante, vendo os jovens bem vestidos, aproximou-se deles e apontou-lhes uma arma, na esperança de que o assalto lhe rendesse uma boa grana. Os rapazes, naturalmente, como missionários que se prezam, responderam que não tinham dinheiro. O assaltante, furioso e frustrado, deu um tiro no peito do elder mais próximo e fugiu. O sobrevivente, desesperado, começou a sacudir e a chamar o amigo caído, ao mesmo tempo em que orava por um milagre. Segundos depois, o rapaz abriu lentamente os olhos e sussurrou:

— O Livro de Mórmon

Feliz e espantado, o outro perguntou:

— Você teve uma revelação do Livro de Mórmon?

— Não. Eu carrego o Livro de Mórmon no peito. Foi onde a bala acertou. — E acrescentou, com um sorriso aliviado: — Nada passa de Segundo Néfi.

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