Meu legado

Livros trabalhadosEm meus 23 anos de trabalho na área editorial, revisei centenas de livros e traduzi uns poucos. Além disso, como ghost writer ou em outras formas de parceria, sempre por encomenda, escrevi biografias, transformei pregações em obras de variados temas cristãos, elaborei revistas de escola dominical e até produzi um curso inteiro de teologia básica. Foram dezenas de obras, porém nenhuma delas me fez sentir que eu tinha um livro para chamar de meu.

Por esse motivo, convenci-me de que estava na hora de compartilhar com uma ínfima parcela da humanidade um pouco do que trago represado na mente. As ideias são muitas, e tenho até uma lista, que engordou bastante com o passar dos anos: 72 obras aguardam o momento de serem despejadas neste mundo onde não há limites para fazer livros.

Sem chance, reconheço. Depois de pensar um pouco, reduzi os meus numerosos projetos literários para um, talvez o mais extenso. O tema? Depois eu conto. Mas devo dizer que, como o assunto está dividido em oito partes no texto bíblico, serão também oito livros, até para poupar os possíveis compradores de levarem para casa um calhamaço que dificilmente se animarão a ler. Quanto a mim, terei a vantagem de escrever várias obras no fôlego de uma só, excetuadas as pausas para atender às exigências editoriais.

Esse será o meu legado. Se tudo der certo, quem sabe ainda abro mais alguma das 71 comportas restantes da minha pequena represa interior.

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O mistério da geladeira

Dias atrás, a geladeira da quitinete que alugo desde que retornei a Curitiba começou a emitir um odor estranho, não aquele cheiro característico que pode ser combatido com um simples desodorizante, mas de coisa estragada mesmo. Na condição de solteiro com limitadíssimas aptidões culinárias, não guardo muita coisa nesse espaço refrigerado, exceto alguma carne no congelador e água, lacticínios, sucos, ovos, verduras, legumes e alguns potes de produtos diversos distribuídos pelas prateleiras e gavetas, tudo em quantidades mínimas.  

Numa rápida conferência visual, não vi nada que parecesse a fonte do mau cheiro. As carnes congeladas, como a maioria dos outros itens, eram de pouco tempo, os vegetais não estavam passados e os potinhos descansavam indolentes na porta fazendo companhia aos sucos e ao leite.

Intrigado, aprofundei a investigação e só consegui parecer um retardado cheirando as partes íntimas e frias do monstrinho de lata. Como nada sugeria (na minha modesta opinião) uma limpeza urgente, o mistério tornou-se ainda mais profundo e malcheiroso.

Como sei que os maus espíritos, como criaturas mal-educadas que são, costumam exalar odores fétidos para atormentar as pessoas, cheguei a pensar na possibilidade de a geladeira estar possuída. Mas como ela nunca chacoalhou, nem levitou, nem me xingou em latim, acabei descartando a ideia.

Então, ontem, após mais de uma semana de tribulações olfativas, finalmente resolvi o mistério. Um potinho de requeijão light, que não estava bem fechado e escapara à minha inspeção visual, expelia por uma abertura ínfima as evidências do fim de sua validade. Expurgada a causa do problema, tudo voltou ao normal.

Deixo então aos leitores esta preciosa lição: um milímetro de negligência pode gerar dias de sofrência.

Estiagem mental

E este recesso criativo que não acaba?

Parece que tem chiclete no teclado.

Na expectativa de domingos melhores

Ontem à tarde, a queda de energia no prédio e a falta de uma boa companhia empurraram-me para um programa solitário nos Shopping Palladium, que fica aqui perto.

O churrasco de quitinete feito em churrasqueira elétrica (pão de alho recheado, linguiça toscana e contrafilé Angus consumidos entre goles de Santa Alba Reserva) ainda pesava no estômago, por isso me mantive longe das ofertas gastronômicas, exceto por um espresso de avelã (não consegui identificar o gosto) no café da loja das Livrarias Curitiba.

Ainda no café, sentei-me numa das poltronas que cercam o ambiente e li o prefácio e um capítulo de Exorcismo, de Thomas B. Allen, que alguém havia deixado ali. O livro conta a história real de possessão demoníaca que inspirou o filme O exorcista, e a leitura me interessou. Mas eu também eu não estava no clima para comprar livros.

Então optei pelo cinema e dirigi-me ao espaço da UCI, que fica no terceiro piso. Em cartaz, o último filme estrelado por Tom Hanks. Já estava na fila da bilheteria, quando me dei conta da ironia da situação: ali estava eu, um cristão, prestes a comprar a minha entrada para o Inferno. Isso depois de ficar no escuro e de ter a atenção atraída para um caso de possessão demoníaca. Pois é. Nessa fieira sinistra de coincidências, até o bom churrasco acabou virando uma metáfora desagradável.

Decididamente, preciso melhorar os meus domingos.