Arquivos de Categoria: Cotidiano

Sobre mudanças e apreensões

MudançaEstou para mudar. De cidade. De rotina. De planos.
E toda mudança, ainda que impelida por boas expectativas, tem as suas apreensões.
Despedidas.
Abandono da zona de conforto.
Lembranças e planos que se misturam.
Incertezas. (Minha partida magoará alguém? Devo ficar mais um pouco? Estou indo para o lugar certo? Tudo sairá como planejei? O que faço com a caneca do Elvis?)
Arranjos de última hora.
A viagem, aquela espécie de limbo, em que não se pertence a lugar nenhum.
A chegada, uma incógnita. Porque, apesar dos planos, do otimismo e de relativas garantias, ninguém pode ter certeza de nada.
O futuro a Deus pertence, diz o clichê, mas o problema é saber onde o meu se encaixa.
Se me concentrar em Deus, ele aplainará os meus caminhos, diz a Bíblia, mas nem sempre consigo ver para onde estou sendo levado.
Aguardo uma orientação mais personalizada, mas não ouço vozes interiores. Nenhuma criatura luminosa vem me visitar. As jumentas não falam comigo.
Contudo, me pego crendo. (“Se a paz sobre nós seu véu descer/ Se a tempestade a terra abalar…”)
É que a fé tem as suas apreensões também, conclui este meu ser incoerente.
Mas como é possível ter fé e estar apreensivo? Não sei. (Ah, Chicó!) Só sei que é assim.

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Milagre mórmon

Hoje de manhã, estava na fila do caixa rápido do supermercado, e logo atrás de mim estavam dois jovens elders e um senhor, com certeza também um mórmon. O homem começou a contar uma história para os rapazes, e aproveitei o momento para exercitar o velho hábito de escutar conversas alheias. Reproduzo a história aqui, sem dúvida uma piada caseira:

Dois elders estavam parados num determinado lugar, quando um meliante, vendo os jovens bem vestidos, aproximou-se deles e apontou-lhes uma arma, na esperança de que o assalto lhe rendesse uma boa grana. Os rapazes, naturalmente, como missionários que se prezam, responderam que não tinham dinheiro. O assaltante, furioso e frustrado, deu um tiro no peito do elder mais próximo e fugiu. O sobrevivente, desesperado, começou a sacudir e a chamar o amigo caído, ao mesmo tempo em que orava por um milagre. Segundos depois, o rapaz abriu lentamente os olhos e sussurrou:

— O Livro de Mórmon

Feliz e espantado, o outro perguntou:

— Você teve uma revelação do Livro de Mórmon?

— Não. Eu carrego o Livro de Mórmon no peito. Foi onde a bala acertou. — E acrescentou, com um sorriso aliviado: — Nada passa de Segundo Néfi.

Sem Wi-Fi

No último sábado, fui almoçar com um casal amigo no Mercado Municipal de Curitiba. Na praça de alimentação, fomos seduzidos por uma atraente feijoada, que não decepcionou no gosto. Estava quase no fim da refeição, quando notei numa coluna perto do caixa o aviso abaixo. Fiquei tão emocionado que a foto até saiu tremida.

Sem Wi-Fi

Meu legado

Livros trabalhadosEm meus 23 anos de trabalho na área editorial, revisei centenas de livros e traduzi uns poucos. Além disso, como ghost writer ou em outras formas de parceria, sempre por encomenda, escrevi biografias, transformei pregações em obras de variados temas cristãos, elaborei revistas de escola dominical e até produzi um curso inteiro de teologia básica. Foram dezenas de obras, porém nenhuma delas me fez sentir que eu tinha um livro para chamar de meu.

Por esse motivo, convenci-me de que estava na hora de compartilhar com uma ínfima parcela da humanidade um pouco do que trago represado na mente. As ideias são muitas, e tenho até uma lista, que engordou bastante com o passar dos anos: 72 obras aguardam o momento de serem despejadas neste mundo onde não há limites para fazer livros.

Sem chance, reconheço. Depois de pensar um pouco, reduzi os meus numerosos projetos literários para um, talvez o mais extenso. O tema? Depois eu conto. Mas devo dizer que, como o assunto está dividido em oito partes no texto bíblico, serão também oito livros, até para poupar os possíveis compradores de levarem para casa um calhamaço que dificilmente se animarão a ler. Quanto a mim, terei a vantagem de escrever várias obras no fôlego de uma só, excetuadas as pausas para atender às exigências editoriais.

Esse será o meu legado. Se tudo der certo, quem sabe ainda abro mais alguma das 71 comportas restantes da minha pequena represa interior.

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