Estudo sobre as palavras de Jesus: extratos da aula 28

Introdução às bem-aventuranças
Mateus 5.1-12 (Lucas 6.20-23)

1. O que são as bem-aventuranças
“Bem-aventurança” é o que chamamos “felicidade”. O bem-aventurado, portanto, é uma pessoa feliz. A busca da felicidade é natural no ser humano. Onde quer que esteja, mesmo nas condições mais desfavoráveis, ele tentará uma vida melhor nesse ambiente. Com o seguidor de Cristo não é diferente, mas ele deve se amoldar ao conceito de felicidade ensinado pelo seu Mestre.
O mundo tem uma ideia distorcida de felicidade, baseada em posses externas. O “sermão da telinha”, aquela doutrinação inserida nas novelas, diz que você deve lutar pela sua felicidade indo atrás de quem você ama, mesmo que essa pessoa seja a mulher ou o marido de alguém. Alguns acham que serão felizes quando possuírem uma mansão com uma Ferrari na garagem. Mas ninguém será feliz apenas por possuir riquezas (1Tm 6.17) ou a mulher do próximo. O resultado costuma ser o oposto de felicidade (Ec 5.12). Até porque, no caminho dessas conquistas, geralmente são cometidos atos desonestos, cruéis e egoístas, que teriam a desaprovação de Jesus.
As bem-aventuranças são encontradas em toda a Bíblia. No Antigo Testamento, a expressão apontava para as qualidades que traziam bênçãos aos que eram fiéis a Jeová (Sl 1.1; 119.1-2; Pv 28.14). Essas bênçãos consistiam muitas vezes em bens materiais. Foi assim que Deus abençoou Abraão (Gn 24.1). O “moço rico” que se encontrou com Jesus (Mt 19.16-23) era tido como bem-aventurado pela sociedade da época. No Novo Testamento, as bem-aventuranças apontam para certas virtudes que mantêm o seguidor de Cristo num estado interior de felicidade, a despeito das circunstâncias.
Conquistas externas nunca farão ninguém feliz. Do contrário, Jesus não mandaria o moço rico se desfazer delas. Portanto, a verdadeira busca da felicidade consiste em cultivar as virtudes que Jesus relaciona nessa passagem. Ele nunca ordenará que você descarte essas virtudes para ser feliz.
As bem-aventuranças estão inseridas na abertura do Sermão do Monte (Mt 5—7) porque todas as atitudes que Jesus espera de seus seguidores, mencionadas no restante de sua prédica, estão relacionadas com elas

2. As virtudes que resultam nas bem-aventuranças
As qualidades mencionadas por Jesus devem ser cultivadas por todos os crentes. Convém observar que elas estão relacionadas às sete primeiras bem-aventuranças. AS duas últimas (perseguidos por causa da justiça e perseguidos por causa de Cristo) obviamente não são qualidades cultivadas, mas situações que também resultam em bem-aventuranças.
Essas virtudes devem ser cultivadas por todos os crentes ao mesmo. Todas devem se manifestar em conjunto na vida do seguidor de Jesus. Ele não espera que alguns sejam “limpos de coração”, e outros, “misericordiosos”. Por exemplo: é impossível conviver com a tristeza e a injustiça do mundo sem a qualidade da mansidão, pois quem não é manso tentará acabar com injustiça por meios errados. É assim que nascem os fanáticos e os terroristas, que também alegam corrigir injustiças.
A entrega a Cristo deve ser total (Mt 16.23; 1Ts 5.23). É claro que tais virtudes não irão se manifestar de maneira plena ou perfeitamente equilibrada no seguidor de Jesus. Cada pessoa tem a sua jornada no caminho da santificação. Contudo, elas estão interligadas e interdependentes: não podem ser desenvolvidas em separado. O Espírito Santo, que habita em nós, também nos ajuda e proporciona esse crescimento abrangente e equilibrado. Qualquer desequilíbrio será resultado de nossas limitações e imperfeições.

3. Diferença entre as virtudes que resultam nas bem-aventuranças e as tendências naturais do ser humano
Há pessoas que, por temperamento, parecem mansas, misericordiosas, pacificadoras. Mas são características naturais. Dessa maneira, é possível alguém se portar com mansidão, mas não ser misericordioso. O enfermeiro, por experiência profissional, pode ser misericordioso (mais propenso a cuidar sem julgar), mas não necessariamente um pacificador.
Essas qualidades naturais, inatas ou aprendidas, não fazem parte do conjunto de virtudes que formam uma personalidade espiritual. São manifestações isoladas, não fazem parte daquela entrega total que Jesus exige.
Para usar uma ilustração prosaica, a espiritualidade cresce como uma laranja, que desenvolve todos os gomos ao mesmo tempo (leia Gl 5.22). Você não vê um gomo brotando sozinho na laranjeira.

4. Diferença entre as virtudes que resultam nas bem-aventuranças e os dons espirituais
Os pentecostais e neopentecostais têm uma deficiência crônica no entendimento da espiritualidade. Em alguns desses ambientes eclesiásticos, a pessoa que tem um dom, como o de profecia, costuma ser considerada e mesmo se julgar mais espiritual que as outras. É como se a espiritualidade fosse um jogo de computador, e o dom, o equivalente à mudança de fase. Mas a verdade é que esses dons não tornam ninguém mais espiritual. A igreja de Corinto é o caso clássico dessa realidade (1Co 3.1-3; compare com 1.7).
Os dons espirituais vêm “de fora” e são concedidos individualmente (1Co 12.27-30). Há variedade de dons distribuídos pelo Espírito Santo a diferentes pessoas. Uma pessoa pode ter mais de um dom, mas esse não é o objetivo. Pode-se até dizer que o oposto é o mais desejado: pessoas com diferentes dons contribuindo para o bem do Corpo. A espiritualidade, por sua vez, vem de dentro e abrange todo o ser.

5. Os efeitos das virtudes
Outra característica das virtudes enumeradas por Jesus é que cada uma delas tem o seu efeito, que pode também ser considerado uma promessa: os mansos herdarão a terra; os misericordiosos alcançarão misericórdia. E assim por diante.
E cada promessa tem o seu cumprimento no tempo presente, mas também terá um cumprimento futuro. Por exemplo: os puros de coração verão a Deus. Isso significa que eles têm uma percepção maior da Divindade nesta vida e que o verão em sua plenitude na glória (Hb 12.14; 1Jo 3.2).
A verdadeira felicidade é alcançada pelos seguidores de Cristo nesta vida e mantida por toda a eternidade.

Estudo sobre as palavras de Jesus: extratos da aula 27

Aos fariseus, sobre colher espigas e curar no sábado
Mateus 12.1-14 (Marcos 2.23—3.6; Lucas 6.1-11)

1. Jesus é Senhor do sábado (Mateus 12.1-8; Mc 12.27)
Naquele tempo, passou Jesus pelas searas, em um sábado; e os seus discípulos, tendo fome, começaram a colher espigas e a comer. E os fariseus, vendo isso, disseram-lhe: Eis que os teus discípulos fazem o que não é lícito fazer num sábado (v. 1-2).
Não há indicação de tempo nem de lugar desse incidente. Sabe-se apenas que os discípulos passavam por uma das “searas” ou plantações ao longo do caminho.
Só Mateus informa que os discípulos tinham fome. O costume de debulhar o trigo com as mãos e comer os grãos crus manteve-se até os tempos modernos. Os grãos também podiam ser assados. Não era considerado roubo cortar espigas para matar a fome. Mas a pessoa não podia, por exemplo, encher os bolsos de grãos e levá-los para casa. A Lei, porém, determinava que os donos das plantações deixassem parte da produção sem ser colhida a fim de que os pobres pudessem abastecer sua despensa (Lv 19.9-10; veja Rt 2.1-3). A ação dos discípulos aqui parece encaixar-se no primeiro caso, e os fariseus começaram a implicar com os discípulos porque eles faziam isso no sábado, o dia sagrado de descanso dos judeus.
Alei do sábado proibia todo tipo de trabalho (Êx 23.12; 31.13-14). Depois dos tempos do AT, surgiram os “escribas e fariseus”, e eles começaram a tentar definir o exatamente era trabalho e o que não era. A Lei dizia que comer não era trabalho (Êx 12.16). A Lei proibia a colheita e a debulha no sábado, ou seja, que se trabalhasse no campo nesse dia, mas não dizia nada sobre colher espigas para matar a fome. Mas os fariseus insistiam em que arrancar o trigo, como os discípulos estavam fazendo, era o equivalente a colher, e esfregá-lo com as mãos era o mesmo que debulhar. Para eles, era um ato ilícito, passível de apedrejamento.
Convém lembrar que a hostilidade a Jesus agora era mais aberta, e os lideres religiosos judeus estavam procurando motivos para incriminá-lo.

Ele, porém, lhes disse: Não tendes lido o que fez Davi, quando teve fome, ele e os que com ele estavam? Como entrou na Casa de Deus e comeu os pães da proposição, que não lhe era lícito comer, nem aos que com ele estavam, mas só aos sacerdotes? (v. 3-4).
Jesus lembra um fato ocorrido com Davi (1Sm 21.1-6). Nobe era uma comunidade sacerdotal, para onde o Tabernáculo fora transferido após a destruição de Siló (1Sm 4). Os pães da proposição (Lv 24.5-9) ficavam no Lugar Santo e eram substituídos toda semana e consumidos pelos sacerdotes, os únicos autorizados a fazer isso.
Contudo, nada é mais sagrado que atender à necessidade humana. A necessidade e a fome humanas tinham prioridade sobre qualquer costume ou prática ritual, como era o caso dos discípulos aqui. Basta lembrar que foi isto o que Jesus veio fazer na terra: satisfazer a maior necessidade humana, que é a salvação de sua alma, “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23, ARA).
Nem mesmo o que consideramos mais sagrado (como as tradições teológicas, as declarações doutrinárias ou o regimento interno de uma denominação) pode ser usado em detrimento da alma humana. Quem foi criado numa denominação de viés mais legalista sabe quantas injustiças já foram cometidas por conta de se preservarem “costumes”, que na verdade são leis extrabíblicas, como as ordenanças dos fariseus, que Jesus condenava. Cristo veio mostrar que o cumprimento da Lei é o amor. Então, como matar alguém por colher trigo para comer? Como banir da igreja alguém que violou uma regra que Jesus jamais criaria?

Ou não tendes lido na lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado e ficam sem culpa? (v. 5).
Um fato notório era que justamente os sacerdotes trabalhavam no sábado à vista de todo o povo (Nm 28.9-10), e não eram condenados por isso. É a prova bíblica de que toda regra tem exceção. Era uma impossibilidade o descanso dos sacerdotes no sábado porque os sacrifícios e certas atividades na Casa de Deus eram ininterruptos, determinados pelo próprio Deus. Portanto, ao trabalhar no sábado, eles estavam obedecendo a Deus, o que está longe de um pecado.
“Sábado” significa “repouso ou descanso”. Mas a simples observância religiosa não proporciona descanso algum. Como se não bastasse, os fariseus ataram fardos adicionais às costas do povo (Mt 23.4). Isso é o oposto de descanso. Mas Jesus veio oferecer descanso a todos os que se aproximarem dele (Mt 11.28).

Pois eu vos digo que está aqui quem é maior do que o templo (v. 6).
A instituição do Templo estava acima das interpretações dos fariseus e dos sacerdotes. Era o Templo que autorizava os últimos a acender fogo, matar animais e levá-los ao altar, o que era uma profanação do sábado. Mas eles não eram condenados porque o Templo era superior ao sábado.
E Jesus afirma estar acima do Templo. Isso é uma nova declaração de sua divindade. O Templo abrigava a presença divina, mas Jesus era a Presença encarnada, “porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9; cf. Jo 10.30).
Observe-se que os fariseus, que se julgavam tão importantes são empurrados cada vez mais para baixo na cadeia alimentar. Eles são inferiores aos sacerdotes, que são inferiores ao Templo, que está abaixo de Jesus.

Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero e não sacrifício, não condenaríeis os inocentes (v. 7).
Convém atentar para os exemplos que Jesus utiliza. Ele apelou para um rei (Davi), depois para os sacerdotes e agora para um profeta. Eram as classes mais respeitadas entre os judeus.
Jesus aqui está citando um texto dos Profetas (Os 6.6). Ele destacava a misericórdia (Mt 9.3). Afinal, Deus é misericordioso, e o seu povo deve mostrar misericórdia (Mt 5.7). A ausência de misericórdia não pode ser substituída pela oferta de sacrifícios, ainda que numerosos. Os fariseus eram destituídos de compaixão. A fome dos discípulos não despertou neles nenhum sentimento nem a vontade de socorrê-los.

Porque o Filho do Homem até do sábado é Senhor (v. 8).
Jesus, naturalmente, está acima também daquelas classes de pessoas. Ele mesmo é Rei, Sacerdote e Profeta, porém “maior” que todos eles. Ele é “maior do que o templo” (Mt 12.6), “maior do que Jonas” (Mt 12.41) e “maior do que Salomão” (Mt 12.42). Essas declarações implicam que ele está acima de qualquer instituição, por mais sagrada e honrada. Sua superioridade ao sábado, portanto, é inquestionável.

 E acrescentou: O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado (Marcos 2.27).
O homem foi criado antes que existisse a complicada lei do sábado e não foi criado para ser vítima e escravo dessa lei. As normas em torno da celebração do sábado foram criadas para que a vida humana fosse mais plena e melhor.
O sábado estabelece o princípio de que o ser humano precisa trabalhar, mas também descansar. É assim que ele é beneficiado. Se o dia de descanso se tornar um fardo também, onde está o benefício?

2.  A cura do homem que tinha uma das mãos mirrada (Mt 12.9-14)
E, partindo dali, chegou à sinagoga deles. E estava ali um homem que tinha uma das mãos mirrada; e eles, para acusarem Jesus, o interrogaram, dizendo: É lícito curar nos sábados? E ele lhes disse: Qual dentre vós será o homem que, tendo uma ovelha, se num sábado ela cair numa cova, não lançará mão dela e a levantará? (v. 9-11).
Na seção anterior, os fariseus queriam saber se era lícito trabalhar no sábado. Aqui perguntam se era lícito curar no dia sagrado de descanso.
A tradição religiosa dizia só se podia ajudar alguém no sábado quando a vida da pessoa estivesse em perigo. Quem ajudasse um doente no sábado era punido com apedrejamento. As escolas rabínicas mais radicais proibiam até que se consolasse um enfermo no sábado. Ou seja, aquela visitinha para dar uma força a um amigo doente era vista como sacrilégio pelos zelosos guardiães da Lei. A cura do homem da mão ressequida não era urgente. Na visão deles, portanto, Jesus estaria violando o sábado se o curasse.
Mas aqueles mesmos homens, insensíveis aos semelhantes em dificuldades, não se incomodavam se o sábado fosse violado para salvar um animal. O trabalho de resgatar uma ovelha de um buraco era plenamente justificado.

Pois quanto mais vale um homem do que uma ovelha? É, por consequência, lícito fazer bem nos sábados (v. 12).
Ao contrário do prega o politicamente “correto” nos dias de hoje, o ser humano é superior ao animal. Isso não significa que maus-tratos aos animais são justificados, mas que o ser humano tem precedência sobre eles. Na verdade, a tendência é a inversão de valores. Os fariseus matavam um ser humano por picuinhas, mas tinham pena de uma ovelha. Se era permitido fazer bem a um animal no sábado, muito mais correto seria ajudar um ser humano, que é portador da imagem de Deus. Mas nenhum argumento funcionaria com eles, porque eram obstinados (veja Mc 3.5).

Então disse àquele homem: Estende a mão. E ele a estendeu, e ficou sã como a outra. E os fariseus, tendo saído, formaram conselho contra ele, para o matarem (v. 13-14).
Os fariseus não cediam, mas ficaram sem argumento. O ato de misericórdia divina não os convenceu. Em vez disso, o ódio deles contra Jesus se intensificou, e ele se retiraram para tramar a morte de Jesus. Sem ninguém mais a contestá-lo, Jesus curou o homem.

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Estudo sobre as palavras de Jesus: extratos da aula 26

A partir desta semana, estarei publicando os extratos das aulas que ministro toda quarta-feira a um pequeno grupo de São José dos Pinhais (PR). Como o título indica, consiste num estudo das palavras de Jesus registradas nos evangelhos. Os textos são escolhidos com base na Harmonia dos evangelhos (São Paulo: Vida, 2004), organizada por Robert Thomas e Stanley Gundry. Estou iniciando com a aula 27, mas na medida do possível publicarei o conteúdo das aulas anteriores. Você poderá acessar todo o material clicando em Estudos no menu aí em cima.

Aos judeus que queriam a confirmação de sua divindade
João 5.31-47
Esses versículos do capítulo 5 de João encerram o episódio da cura do paralítico no tanque de Betesda (v. 1-9a) e da polêmica gerada entre os judeus pelo fato de o milagre ter sido realizado num sábado (v. 9b-16). Em sua resposta, Jesus alegou possuir prerrogativas que eram próprias da Divindade (v. 17-29), o que converteu a fúria de seus oponentes em desejo homicida.
Jesus então resolveu apresentar três testemunhos que corroboravam as suas declarações. (O texto não deixa claro se ele o fez por exigência dos judeus ou voluntariamente. Talvez tenha apenas se adiantado à solicitação deles.) E aqui temos um fato interessante: segundo os estudiosos, o tema do testemunho, no sentido de “comprovação” ou “afirmação fundamentada”, ocorre mais de 50 vezes no evangelho de João (veja, por exemplo, 1.7-8; 3.18; 19.35). De fato, não é de surpreender num livro que se propõe nada menos que provar a divindade de um ser de carne e ossos.

Se eu testifico a respeito de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro (v. 31).
Obviamente, Jesus sabia que o seu testemunho era verdadeiro. Ele mesmo era a própria Verdade (Jo 14.6), e muitos criam nele. Contudo, ele sabia que uma declaração sobre si mesmo não seria suficiente para alguns.
De fato, não devemos crer apenas no que alguém diz. É disso que sobrevivem os vigaristas e os manipuladores. Quem já não caiu na conversa de alguém de boa lábia? O vigarista leva o dinheiro dos incautos. Mesmo culpado, o manipulador faz com que os seus ouvintes acreditem na versão dele e ainda os induz a se voltar contra as pessoas realmente prejudicadas. Da mesma forma, apenas com “o testemunho de si mesmos”, os televangelistas conseguem vender os seus produtos “ungidos”.
A ideia de que o testemunho de uma só pessoa não é verdadeiro era bem conhecida entre os judeus (Dt 17.6). O próprio Cristo valeu-se dessa lei (Mt 18.16), que também teve reflexos na igreja primitiva (2Co 13.1). Os critérios neotestamentários para a escolha de ministros evocam de maneira clara o testemunho da comunidade (1Tm 5.22; 1Tm 3.1-13; Tt 1.6-9).
Em suma, o que Cristo estava querendo dizer era: “Se eu apresentasse apenas o meu testemunho a respeito de mim mesmo, vocês teriam razão em me questionar”. Mas a exigência de seus opositores não era motivada por simples zelo pela verdade, porque eles já tinham todos os testemunhos de que precisavam, dos quais Cristo tratou de lembrá-los.

Outro é o que testifica a meu respeito, e sei que é verdadeiro o testemunho que ele dá de mim (v. 32).
É quase certo que esse “outro” é Deus Pai. Esse era o testemunho mais importante para Cristo, a autenticação inquestionável de seu ministério messiânico. Tratava-se, porém, de um testemunho interior, que naturalmente não podia ser comprovado por ninguém, pois nenhum ser humano tem acesso à esfera do relacionamento entre Pai e Filho. (Esse assunto será discutido quando estudarmos João 8.13ss.)

Mandastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da verdade. Eu, porém, não aceito humano testemunho; digo-vos, entretanto, estas coisas para que sejais salvos. Ele era a lâmpada que ardia e alumiava, e vós quisestes, por algum tempo, alegrar-vos com a sua luz (v. 33-35).
A mensagem de João Batista consistia em anunciar a chegada do reino messiânico e na necessidade de arrependimento como preparação para essa nova era (Mt 3.2).
Não foi um acontecimento fortuito. Os líderes religiosos de Israel conheciam as Escrituras do Antigo Testamento e aguardavam o “Elias” que viria restaurar todas as coisas (Ml 4.5; Mt 17.10-13).
Eles conheciam João e seu ministério, chegaram a interrogá-lo sobre a sua missão (“mandastes mensageiros”; veja Jo 1.19-24) e até simpatizaram com ele no início (“quisestes, por algum tempo, alegrar-vos com a sua luz”). Mas se recusaram a aceitar a mensagem de arrependimento e se afastaram dele na hora de assumir um compromisso sério com o Reino. É a tendência do ser humano de, contra todas as evidências, só acreditar naquilo que deseja. Jesus então apresenta o testemunho das obras que realizava.

Mas eu tenho maior testemunho do que o de João; porque as obras que o Pai me confiou para que eu as realizasse, essas que eu faço testemunham a meu respeito de que o Pai me enviou (v. 36).
As obras de Jesus eram os seus milagres ou “sinais”. João incluiu em seu evangelho sete “sinais” como prova de que Jesus era o Filho de Deus (Jo 20.30-31): transformação de água em vinho (2.1-10); cura do filho do funcionário do rei (4.46-54); cura do paralítico do tanque de Betesda (5.1-9, o milagre que gerou a presente discussão); multiplicação de pães e peixes (Jo 6.1-13); caminhada sobre o mar da Galileia (Jo 6.16-21); cura do cego de nascença (Jo 9); ressurreição de Lázaro (Jo 11.1-46).
Jesus deixou claro que as suas obras eram divinas (v. 17-20; 14.10). E, segundo o testemunho de Nicodemos, as autoridades religiosas de Israel reconheciam que os milagres de Jesus o qualificavam com o alguém “vindo da parte de Deus” (Jo 3.2).
Depois de apresentar o testemunho de João Batista e de suas obras, Jesus apela para o testemunho das Escrituras.

O Pai, que me enviou, esse mesmo é que tem dado testemunho de mim. Jamais tendes ouvido a sua voz, nem visto a sua forma. Também não tendes a sua palavra permanente em vós, porque não credes naquele a quem ele enviou. Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim. Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida (v. 37-40).
Os judeus tinham profunda reverência pela Palavra escrita, especialmente pela Lei, que lhes fora outorgada por intermédio de Moisés. O Antigo Testamento dá testemunho de Cristo, mas os responsáveis por preservar e interpretar as Escrituras não foram capazes de reconhecer os sinais dos tempos nem o próprio Messias (Lc 12 54-56). O motivo foi não terem permitido que a Palavra gerasse fé (v. 38). Foi uma rejeição deliberada.

Eu não aceito glória que vem dos homens; sei, entretanto, que não tendes em vós o amor de Deus (v. 41-42).
Os milagres de Jesus manifestavam a sua glória (Jo 2.11). Era uma glória intrínseca, que não lhe fora conferida por ninguém. O ser humano só possui alguma glória quando alguém a concede, e ela pode desaparecer tão rápido quanto surgiu. Entre os escravos trazidos da África para a América, havia muitos que ocupavam posições importantes em suas nações de origem, mas aqui não tinham importância alguma, porque eram considerados simples mercadoria pelos seus senhores. Cristo, que possuía glória eterna, não iria trocá-la por uma honra efêmera. Mesmo humilhado na cruz, a pior desonra que alguém podia receber, ele não perdeu sua glória (veja Mc 14.62).

Eu vim em nome de meu Pai, e não me recebeis; se outro vier em seu próprio nome, certamente, o recebereis. Como podeis crer, vós os que aceitais glória uns dos outros e, contudo, não procurais a glória que vem do Deus único? (v. 43-44).
Aqui há uma ironia ligada diretamente ao v. 31. A despeito de todos os testemunhos favoráveis, os antagonistas de Jesus recusaram-se a crer que ele era o Messias. E agora Jesus afirma que eles acabarão acreditando num messias falso que não terá outras credenciais a não ser as próprias alegações. Cairão justamente no erro que supostamente queriam evitar com Jesus. Havia falsos cristos naquele tempo, que conseguiam enganar o povo. Talvez haja aqui uma referência ao Anticristo, que também enganará Israel “com todo o poder, e sinais, e prodígios de mentira” (2Ts 2), isto é, com evidências falsas.

Não penseis que eu vos acusarei perante o Pai; quem vos acusa é Moisés, em quem tendes firmado a vossa confiança. Porque, se, de fato, crêsseis em Moisés, também creríeis em mim; porquanto ele escreveu a meu respeito. Se, porém, não credes nos seus escritos, como crereis nas minhas palavras? (v. 45-47).
Jesus, como Juiz (v. 27), não teria dificuldade em condenar os que não criam. Mas nem precisará fazer isso. O próprio Moisés, a quem eles veneravam, irá testemunhar contra eles no Juízo Final. Como Paulo afirma: “Todos os que com lei pecaram, mediante a lei serão julgados” (Rm 2.12).

Os nove conceitos das bem-aventuranças

Adaptado do artigo: Lições Bíblicas: “A prosperidade dos bem-aventurados”. Ainda em recesso criativo, reproduzo os conceitos expressos nas bem-aventuranças. Talvez sirva de esboço para a pregação de alguém.

Os pobres de espírito. Essa bem-aventurança indica a atitude de nos esvaziarmos de toda arrogância, de todo conhecimento ou sofisticação que pensamos possuir, para então, conscientes da nossa pequenez, nos aproximarmos de Deus e assim sermos dignos de ingressar no Reino.

Os que choram. A bem-aventurança do choro constitui uma antinomia (dois fatos contraditórios, porém igualmente verdadeiros): a felicidade convive com a tristeza. O crente chora pela própria condição espiritual e pela situação do mundo. Ele lamenta os próprios erros e se comove com os perdidos. Ao mesmo tempo, a sua espiritualidade resulta em alegria, o segundo elemento do fruto do Espírito (Gl 5.22). O próprio mundo foi criado num clima de imensa alegria (Jó 38.4-7), e hoje ansiamos por restaurá-la (Rm 8.19-23).

Os mansos. Segundo o Dicionário Houaiss da língua portuguesa, manso é aquele “de gênio afável, sossegado, bom; dócil, pacato”. Os adágios populares reconhecem o poder da mansidão (leia aqui). Quem não é manso tem um arsenal: granada, porrete, palavras ofensivas; o manso tem a despensa cheia de milho. E, embora para muitos pareça sinônimo de covardia, a mansidão na verdade exige coragem. Cristo foi exemplo dessa mansidão corajosa (Is 53.7). O manso é um valente de Deus, por isso ele conquistará a terra (Sl 37.10,11).

Os que têm fome e sede de justiça. A justiça é o “caráter, qualidade do que está em conformidade com o que é direito, com o que é justo; maneira pessoal de perceber, avaliar aquilo que é direito, que é justo”. Deus também é justo (Sl 145.17). O cristão deve ser justo e pensar no que é justo (Fp 4.8). A justiça é a base do justo (Pv 12.3). O crente sabe que este mundo é injusto, mas sabe também que a justiça será o estado final das coisas (Jr 23.6) — nesse dia, ele será “farto”.

Os misericordiosos. Diz o ditado que ninguém é enforcado quando o carrasco esconde a corda. Isso porque “a misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tg 2.13). Essa poderosa bem-aventurança guarda certa relação com a Regra Áurea (Mt 7.12) e é exercida em nosso relacionamento com Deus (Lm 3.22; Os 6.6), com o próximo (Mt 18.21-35) e com nós mesmos (Ec 7.16).

Os limpos (ou puros) de coração. Puro de coração não é o crente ingênuo, e sim o cristão maduro que percebe as armadilhas satânicas. Devemos praticar o bem não por desconhecer o mal, mas por optar pela melhor atitude. A maior vitória é você ter chance de fazer o mal e conscientemente virar-lhe as costas, sabendo que é a opção mais sábia e do agrado de Deus.

Os pacificadores. A paz é um objetivo do cidadão do Reino. O evangelho trabalha para a paz. Jesus veio “guiar nossos pés no caminho da paz” (Lc 1.79). Convivemos o tempo todo com a possibilidade de conflito: na família, no trabalho, na igreja. A própria pregação do evangelho, que é de paz, pressupõe o conflito, porque denuncia o pecado do mundo (Mt 10.34). Nos últimos tempos, vemos grupos cada vez mais agressivos em sua propaganda anticristã. Os cristãos precisam responder, mas sem o ânimo pacificador corremos o risco de ter uma simples guerra, para prejuízo do Reino de Deus.

Os perseguidos por causa da justiça. O cristão que desenvolve a virtude conforme os padrões do Reino de Deus é um corpo estranho no sistema do mundo. São água e óleo no mesmo recipiente. A convicção cristã não está necessariamente envolvida nesse caso, apenas a atitude correta. E, quando alguém se porta de maneira íntegra num ambiente corrompido, acaba provocando uma reação contrária. Crentes são demitidos, por exemplo, por não concordarem com alguma política desonesta da empresa. É o preço de ser justo num mundo injusto.

Os perseguidos por causa de Jesus. Em Atos 4.1-22, temos um exemplo de perseguição motivada apenas por causa do nome de Jesus. Nenhuma questão de “justiça” estava envolvida, como no caso anterior, apenas a pregação. Se a nossa virtude não incomodar ninguém, o nome de Cristo com certeza irá fazer algum lobo levantar as orelhas. Quem age com justiça e traz o nome de Cristo é um eterno candidato à perseguição, de alguma forma.