Breves notas sobre as palavras de Jesus: extratos da aula 30

Os que choram
Mateus 5.4, ARA

Chorar é a reação natural de quem é pobre de espírito. A proximidade do Deus santo faz com que o ser humano perceba a condição deplorável em que se encontra e se sente tentado a reagir como Pedro diante do poder divino: “Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador” (Lc 5.8). Mas é interessante que o discípulo declarou isso depois de se lançar aos pés do Mestre. O desejo de estar perto de Deus é tão forte quanto a tentação de fugir dele. O choro bem-aventurado nasce desse dilema.

Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.

  • O seguidor de Cristo, que se despe de tudo para absorver o divino, passa a enxergar o mundo e a si mesmo da mesma forma que ambos são vistos por Deus.
  • O mundo começou alegre. Os anjos faziam coreografia para a música a capella das estrelas (Jó 39.4-7) enquanto o caos se transformava em ordem. Era um mundo de comunhão e celebração, até que o pecado trouxe a escuridão de volta.
  • O que vemos hoje através das lentes divinas é um mundo down, caótico e triste em sua essência (Rm 8.19-23), impregnado em todas as instâncias de “imoralidade sexual, impureza e libertinagem; idolatria e feitiçaria; ódio, discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções e inveja; embriaguez, orgias e coisas semelhantes” (Gl 5.19-21, NVI).
  • É impossível entrar em sintonia com Deus sem conhecer sua essência, que é o amor. E o amor “não se alegra com a injustiça” (1Co 13.6). Ou seja, não é indiferente. Se estamos num mundo mau (no Maligno, 1Jo 5.19), a sensibilidade adquirida ao nos aproximarmos de Deus nos levará às “lágrimas cristãs”. Esse sentimento deve necessariamente acompanhar o seguidor de Cristo, porque ele chorou literalmente ao contemplar a paisagem sombria da condição humana, dominada pelos espinhos e pelas ervas daninhas que a semente do pecado fez brotar (Mt 23.37).
  • A própria criação “geme e sofre como que dores de parto até o presente dia” (Rm 8.22). Já passou a noite ao de alguém que gemia com dor de dente? Uma lamúria muito mais intensa chega aos ouvidos de Deus até hoje. E, quando nos aproximamos dele, passamos a fazer coro com o lamento da criação.
  • O ímpio, que têm a mente cauterizada, tenta convencer a si mesmo e aos outros de que o mundo pode ser alegre, cheio de pessoas felizes. O Maligno convenceu-o de que a estática que impede a comunhão com Deus e o gemido incessante da natureza compõem a verdadeira sinfonia da criação.
  • Choramos também pelos erros que cometemos: pelas decisões erradas que tomamos e que gostaríamos de “destomar”; pelas palavras que gostaríamos de recolher; pelos segredos vergonhosos que levaremos par o túmulo; por qualquer pecado, enfim. O simples lamento por essas atitudes não é bem-aventurado, mas se choramos com sensibilidade espiritual e arrependimento, alcançamos a bem-aventurança. É a vantagem do cidadão do Reino sobre o ímpio iludido.
  • O mundo é uma fábrica de aflição, e o seguidor de Cristo não está isento delas, mas a boa notícia é que Deus nunca desprezará “um coração quebrantado e contrito” (Sl 51.17). O caminho que conduz à alegria do perdão atravessa necessariamente a tristeza do arrependimento.
  • O ímpio não chora, porque tem a mente cauterizada, mas é infeliz. Podem ter suas alegrias e privilégios efêmeros, mas não têm consolador (Ec 4.1). Às vezes não conseguem nem mesmo o choro do arrependimento (Hb 12.17). Por ironia, passarão a eternidade num lugar “onde haverá choro e ranger de dentes” (Mt 24.51).
  • O seguidor de Cristo chora, mas tem alegria em Cristo. Tem neste mundo o consolo da vitória sobre a tentação ou o perdão de Deus. Passam por aflições, mas não lhes falta o alento: “Tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16.33; cf. Sl 126.5).
  • O choro bem-aventurado terá também seu consolo definitivo. Ainda vivemos o que o Apocalipse chama “primeiras coisas”, mas haverá uma nova ordem. No mundo das primeiras coisas, as bênçãos de Deus nunca atingem a plenitude, por isso temos uma alegria misturada com tristeza. Mas no céu teremos a alegria completa e perfeita: “Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou” (Ap 21.4).
Anúncios

Breves notas sobre as palavras de Jesus: extratos da aula 29

Os pobres (humildes) de espírito
Mateus 5.3, ARA

O Sermão do Monte (Mt 5—7) é a base da doutrina de Jesus. As bem-aventuranças podem ser consideradas a base dessa base. E, como em Mateus é fácil deduzir que elas seguem uma sequência lógica, a primeira virtude da lista — a pobreza de espírito — constitui a base da base da base. Não há como entender plenamente o que Cristo espera de seus seguidores sem conhecer o significado de ser pobre de espírito.

Bem-aventurados os humildes [pobres] de espírito, porque deles é o reino dos céus.

  • O pobre de espírito não é o pobre, a chamada vítima da sociedade. Não existe uma bem-aventurança automática creditada a alguém só porque ele é desprovido de recursos materiais ou desfavorecido com relação a outros membros da sociedade. As virtudes que Cristo espera de seus seguidores não estão vinculadas a posses materiais ou status social. A razão é simples: o pobre pode ser orgulhoso, ganancioso, cruel, injusto e depravado, como qualquer pessoa. Nada garante que um pobre seja manso, misericordioso, pacificador, e assim por diante. Sem dúvida, Deus se preocupa com os pobres (Lv 19.9-10; Tg 1.27), mas não faz acepção quando a moral e a espiritualidade estão envolvidas (Lv 19.15; ver Dt 1.17; At 10.34-35).
  • A passagem paralela de Lucas 6.20 menciona apenas os “pobres” nessa bem-aventurança. A razão é que nos tempos de Cristo (e em outras épocas também) os ricos tendiam a transigir com o paganismo, e era entre os pobres que se encontravam as pessoas mais piedosas, ou seja, estatisticamente os pobres eram mais fieis que os ricos. Convém lembrar ainda que na cultura judaica os ricos eram tidos por bem-aventurados, não os pobres.
  • No princípio, ser “pobre” significava passar necessidades materiais. Mas como os necessitados geralmente não tinham outro refúgio a não ser Deus, a “pobreza” recebeu nuances espirituais e passou a ser uma humilde dependência de Deus.
  • O pobre de espírito também não é o crente “fraco” (Rm 14) nem o de pouca instrução, que nos arraiais eclesiásticos são chamados “humildes”. Nenhuma dessas condições diz respeito ao que Jesus tem em vista aqui. O crente “fraco” é simplesmente alguém que precisa robustecer sua espiritualidade, e o “humilde” não passa do crente que precisa se instruir. Não é raro nas igrejas pessoas terem certo orgulho de sua ignorância, como se isso lhes desse algum crédito espiritual. Nem o orgulho nem a ignorância são esperados de um seguidor de Cristo, como ele mesmo diz: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11.28).
  • O pobre de espírito é aquele que se aproxima de Deus e, quanto mais próximo dele, mais consciência tem de sua condição miserável. Nessa proximidade, ele também percebe o estado decaído do mundo e se convence de que a única esperança de salvação reside em Deus. De nada importa a quantidade de recursos materiais que possua ou o estrato social a que pertença, tudo se dissolve diante das riquezas da graça. Então ele reconhece a sua pobreza e passa a depender exclusivamente de Deus. Um hino da Harpa cristã diz: “Às alturas santas ninguém voa sem as asas da humilhação”. Quem não alcança essa percepção é um simples iludido com a autossuficiência e cai na condenação de Laodiceia (Ap 3.17).
  • O orgulho espiritual ou religioso impede a sintonia plena com Deus, pois o pobre de espírito é aquele se esvazia do humano para ser cheio do divino. Mas devemos cuidar para não nos orgulharmos de nossa pobreza de espírito, porque o orgulho espiritual é estática em nossa comunicação com Deus. Os fariseus tinham bons propósitos no início, porque trabalhavam para trazer o povo de volta à obediência da Lei. Mas depois começaram a entupir o canal com as suas regras e tradições e passaram a admirar a própria piedade. Com isso, perderam a sintonia com Deus, como o rio que se torna mais poluído à medida que se afasta na nascente e se aproxima das cidades. Assim, quando o Messias chegou, estavam tão desconectados de Deus que nem foram capazes de reconhecê-lo.
  • O Reino dos céus pertence ao pobre de espírito aqui e na eternidade porque “ninguém há que tenha deixado casa, ou mulher, ou irmãos, ou pais, ou filhos, por causa do reino de Deus, que não receba, no presente, muitas vezes mais e, no mundo por vir, a vida eterna” (Lc 18.29-30). Essa bem-aventurança encerra um dos maravilhosos paradoxos da fé cristã: o pobre de espírito fica sem nada para ter tudo (Mt 16.25).

Breves notas sobre as palavras de Jesus: extratos da aula 28

Introdução às bem-aventuranças
Mateus 5.1-12 (Lucas 6.20-23)

1. O significado das bem-aventuranças

  • “Bem-aventurança” é o que chamamos “felicidade”. O bem-aventurado, portanto, é uma pessoa feliz. A busca da felicidade é natural no ser humano. Onde quer que esteja, mesmo nas condições mais desfavoráveis, ele tentará uma vida melhor nesse ambiente. Com o seguidor de Cristo não é diferente, mas ele deve se amoldar ao conceito de felicidade ensinado pelo seu Mestre.
  • O mundo tem uma ideia distorcida de felicidade, baseada em posses externas. O “sermão da telinha”, por exemplo, aquela doutrinação inserida nas novelas, diz que você deve lutar pela sua felicidade indo atrás de quem você ama, mesmo que essa pessoa seja a mulher ou o marido de alguém. Alguns acham que serão felizes quando possuírem uma mansão com uma Ferrari na garagem. Mas ninguém será feliz apenas por possuir riquezas (1Tm 6.17) ou a mulher do próximo. O resultado costuma ser o oposto de felicidade (Ec 5.12). Até porque, no caminho dessas conquistas, geralmente são cometidos atos desonestos, cruéis e egoístas, que teriam a desaprovação de Jesus.
  • As bem-aventuranças são encontradas em toda a Bíblia. No Antigo Testamento, a expressão apontava para as qualidades que traziam bênçãos aos que eram fiéis a Jeová (Sl 1.1; 119.1-2; Pv 28.14). Essas bênçãos consistiam muitas vezes em bens materiais. Foi assim que Deus abençoou Abraão (Gn 24.1). O “moço rico” que se encontrou com Jesus (Mt 19.16-23) era tido como bem-aventurado pela sociedade da época. No Novo Testamento, as bem-aventuranças apontam para certas virtudes e atitudes que mantêm o seguidor de Cristo num estado interior de felicidade, a despeito das circunstâncias.
  • Conquistas externas nunca farão ninguém feliz. Do contrário, Jesus não mandaria o moço rico se desfazer delas. Portanto, a verdadeira busca da felicidade consiste em cultivar as virtudes que Jesus relaciona nessa passagem. Ele nunca ordenará que você as descarte para ser feliz.

2. O cultivo das virtudes bem-aventuradas

  • As virtudes mencionadas por Jesus devem ser cultivadas e praticadas por todos os crentes. Convém observar que elas estão relacionadas às sete primeiras bem-aventuranças. As duas últimas (perseguidos por causa da justiça e perseguidos por causa de Cristo) obviamente não são qualidades cultivadas, mas situações que também resultam em bem-aventuranças.
  • Essas virtudes se desenvolvem ao mesmo tempo, pois são inseparáveis umas das outras. Todas devem se manifestar em conjunto na vida do seguidor de Jesus. Para usar uma ilustração prosaica, a espiritualidade cresce como uma laranja, que desenvolve todos os gomos ao mesmo tempo (leia Gl 5.22). Você não vê um gomo brotando sozinho na laranjeira.
  • O Mestre não espera que alguns sejam “limpos de coração”, e outros, “misericordiosos”. Por exemplo: é impossível conviver com a tristeza e a injustiça do mundo sem a qualidade da mansidão, pois quem não é manso tentará acabar com a injustiça por meios errados. É assim que nascem os fanáticos e os terroristas, que também alegam corrigir injustiças.
  • A entrega a Cristo deve ser total (Mt 16.23; 1Ts 5.23). É claro que tais virtudes não irão se manifestar de maneira plena ou perfeitamente equilibrada no seguidor de Jesus. Cada pessoa tem a sua jornada no caminho da santificação. Contudo, elas estão interligadas e interdependentes. O Espírito Santo, que habita em nós, também nos ajuda e proporciona esse crescimento abrangente e equilibrado. Qualquer desequilíbrio será resultado de nossas limitações e imperfeições.

3. Diferença entre as virtudes bem-aventuradas e as tendências naturais do ser humano

  • Há pessoas que, por temperamento, parecem mansas, misericordiosas, pacificadoras. Mas são características naturais. Dessa maneira, é possível alguém se portar com mansidão, mas não ser misericordioso. O enfermeiro, por experiência profissional, pode ser misericordioso (mais propenso a cuidar sem julgar), mas não necessariamente um pacificador ao se envolver nos conflitos internos de seu ambiente de trabalho. Qualidades naturais, inatas ou aprendidas, não integram o conjunto de virtudes que formam a nossa personalidade espiritual. São manifestações isoladas, não parte daquela entrega total que Jesus exige.

4. Diferença entre as virtudes bem-aventuradas e os dons espirituais

  • Os pentecostais e neopentecostais têm uma deficiência crônica no entendimento da espiritualidade. Em alguns desses ambientes eclesiásticos, a pessoa que tem um dom espiritual, como o de profecia, costuma ser considerada ou mesmo se julgar mais espiritual que as outras. É como se a espiritualidade fosse um jogo de computador, e o dom, o equivalente à mudança de fase. Mas a verdade é que esses dons não tornam ninguém mais espiritual. A igreja de Corinto é o caso clássico dessa realidade (1Co 3.1-3; compare com 1.7).
  • Os dons espirituais vêm “de fora” e são concedidos individualmente (1Co 12.27-30). Há variedade de dons distribuídos pelo Espírito Santo a diferentes pessoas. Uma pessoa pode ter mais de um dom, mas esse não é o objetivo. Pode-se até dizer que o oposto é o mais desejado: pessoas com diferentes dons contribuindo para o bem do Corpo. A espiritualidade (como efeito das virtudes bem-aventuradas), por sua vez, vem de dentro e abrange todo o ser.

5. Os efeitos das virtudes bem-aventuradas

  • Outra característica das virtudes enumeradas por Jesus é que cada uma delas tem o seu efeito, que pode também ser considerado uma promessa: os mansos herdarão a terra; os misericordiosos alcançarão misericórdia. E assim por diante.
  • Cada promessa tem duplo cumprimento: no tempo presente e no futuro que chamamos “estado eterno”. Por exemplo: os puros de coração verão a Deus. Isso significa que eles têm uma percepção maior da Divindade nesta vida e o verão em sua plenitude na glória (Hb 12.14; 1Jo 3.2). A felicidade alcançada em parte, digamos assim, pelos seguidores de Cristo nesta vida será vivenciada em sua perfeição na eternidade.

Breves notas sobre as palavras de Jesus: extratos da aula 27

Aos fariseus, sobre colher espigas e curar no sábado
Mateus 12.1-14 (Marcos 2.23—3.6; Lucas 6.1-11), ARC 

O texto em  estudo apresenta dois episódios relacionados com a questão do sábado. No primeiro, Jesus é questionado por permitir que os seus discípulos colham espigas num sábado para matar a fome. No segundo, Jesus é interrogado sobre a licitude de curar no sábado e, depois de responder aos seus oponentes, realiza uma cura nesse dia.

Naquele tempo, passou Jesus pelas searas, em um sábado; e os seus discípulos, tendo fome, começaram a colher espigas e a comer. E os fariseus, vendo isso, disseram-lhe: Eis que os teus discípulos fazem o que não é lícito fazer num sábado (v. 1-2).

  • Não há indicação de tempo nem de lugar desse incidente. Sabe-se apenas que os discípulos passavam por uma das “searas” ou plantações ao longo do caminho.
  • Só Mateus informa que os discípulos tinham fome. O costume de debulhar o trigo com as mãos e comer os grãos crus manteve-se até os tempos modernos. Os grãos também podiam ser assados. Não era considerado roubo cortar espigas para matar a fome. Mas a pessoa não podia, por exemplo, encher os bolsos de grãos e levá-los para casa. Além disso, a Lei determinava que os donos das plantações deixassem parte da produção sem ser colhida a fim de que os pobres pudessem abastecer a sua despensa (Lv 19.9-10; veja Rt 2.1-3). A ação dos discípulos aqui parece encaixar-se no primeiro caso, e os fariseus começaram a implicar com os discípulos porque eles faziam isso no sábado, o dia sagrado de descanso dos judeus.
  • A lei do sábado proibia todo tipo de trabalho (Êx 23.12; 31.13-14). No período interbíblico, surgiram os “escribas e fariseus”, e eles passaram a definir o que exatamente era trabalho e o que não era. A Lei dizia que comer não era trabalho (Êx 12.16) e proibia a colheita e a debulha no sábado, ou seja, que se trabalhasse no campo nesse dia. Mas não dizia nada sobre colher espigas para matar a fome. Os fariseus, porém, insistiam em que arrancar o trigo, como os discípulos estavam fazendo, era o equivalente a colher, e esfregá-lo com as mãos era o mesmo que debulhar. Para eles, era um ato ilícito, passível de apedrejamento.
  • Convém lembrar que a hostilidade a Jesus agora era mais aberta, e os lideres religiosos judeus estavam procurando motivos para incriminá-lo.

Ele, porém, lhes disse: Não tendes lido o que fez Davi, quando teve fome, ele e os que com ele estavam? Como entrou na Casa de Deus e comeu os pães da proposição, que não lhe era lícito comer, nem aos que com ele estavam, mas só aos sacerdotes? (v. 3-4).

  • Jesus lembra um fato ocorrido com Davi (1Sm 21.1-6). Nobe era uma comunidade sacerdotal, para onde o Tabernáculo fora transferido após a destruição de Siló (1Sm 4). Os pães da proposição (Lv 24.5-9) ficavam no Lugar Santo e eram substituídos toda semana e consumidos pelos sacerdotes, os únicos autorizados a fazer isso. Contudo, nada é mais sagrado que atender às necessidades humanas, que deviam ter prioridade sobre qualquer costume ou prática ritual, como era o caso dos discípulos aqui. Lembremos que Jesus veio à terra satisfazer a maior necessidade humana, a de salvação, “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23, ARA).
  • Nem mesmo o que consideramos mais sagrado (como as tradições teológicas, as declarações doutrinárias ou o regimento interno de uma denominação) pode ser usado em detrimento da alma humana. Quem foi criado numa denominação de viés mais legalista sabe quantas injustiças já foram cometidas por conta de se preservarem “costumes”, que na verdade são leis extrabíblicas, como as ordenanças dos fariseus, que Jesus condenava. Cristo veio mostrar que o cumprimento da Lei é o amor. Então, como matar alguém por colher trigo para comer? Como banir de uma instituição que abriga a igreja (povo) alguém que violou uma regra que Jesus jamais criaria?

Ou não tendes lido na lei que, aos sábados, os sacerdotes no templo violam o sábado e ficam sem culpa? (v. 5).

  • Um fato notório era que justamente os sacerdotes trabalhavam no sábado, à vista de todo o povo (Nm 28.9-10), e não eram condenados por isso. É a prova bíblica de que toda regra tem exceção. Era uma impossibilidade o descanso dos sacerdotes no sábado porque os sacrifícios e certas atividades na Casa de Deus eram ininterruptos, determinados pelo próprio Deus. Ao trabalhar no sábado, portanto, eles estavam obedecendo a Deus, o que está longe de ser um pecado.
  • “Sábado” significa “repouso ou descanso”, mas a simples observância religiosa não proporciona descanso algum. Como se não bastasse, os fariseus ataram fardos adicionais às costas do povo (Mt 23.4). Isso é o oposto de descanso. Mas Jesus oferece descanso a todos os que se aproximarem dele (Mt 11.28).

Pois eu vos digo que está aqui quem é maior do que o templo (v. 6).

  • A instituição do Templo estava acima das interpretações dos fariseus e da autoridade dos sacerdotes. E Jesus afirma estar acima do Templo. Isso é uma nova declaração de sua divindade. O Templo abrigava a presença divina, mas Jesus era a Presença encarnada, “porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9; cf. Jo 10.30).
  • Observe-se que os fariseus, que se julgavam tão importantes são empurrados cada vez mais para baixo na cadeia alimentar. Eles são inferiores aos sacerdotes, que são inferiores ao Templo, que está abaixo de Jesus.

Mas, se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero e não sacrifício, não condenaríeis os inocentes (v. 7).

  • Convém atentar para os exemplos que Jesus utiliza. Ele apela para um rei (Davi), depois para os sacerdotes e agora para um profeta. Eram as classes mais respeitadas entre os judeus.
  • Jesus aqui está citando um texto dos Profetas (Os 6.6). Ele destacava a misericórdia (Mt 9.3). Afinal, Deus é misericordioso, e o seu povo deve demonstrar essa virtude (Mt 5.7). A ausência de misericórdia não pode ser substituída pela oferta de sacrifícios, ainda que numerosos. Os fariseus eram destituídos de compaixão. A fome dos discípulos não despertou neles nenhum sentimento compassivo nem o desejo de socorrê-los.

Porque o Filho do Homem até do sábado é Senhor (v. 8).

  • Jesus, naturalmente, está acima também daquelas classes de pessoas. Ele mesmo é Rei, Sacerdote e Profeta, porém “maior” que todos eles. Ele é “maior do que o templo” (Mt 12.6), “maior do que Jonas” (Mt 12.41) e “maior do que Salomão” (Mt 12.42). Essas declarações implicam que ele está acima de qualquer instituição, por mais sagrada e honrada. Sua superioridade ao sábado, portanto, é inquestionável.

 E acrescentou: O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado (Marcos 2.27).

  • O homem foi criado antes que existisse a complicada lei do sábado e não foi criado para ser vítima ou escravo dessa lei. As normas em torno da celebração do sábado foram criadas para que a vida humana fosse mais plena e melhor.
  • O sábado estabelece o princípio de que o ser humano precisa trabalhar, mas também descansar. É assim que ele é beneficiado. Se o dia de descanso se tornar um fardo também, onde está o benefício?

E, partindo dali, chegou à sinagoga deles. E estava ali um homem que tinha uma das mãos mirrada; e eles, para acusarem Jesus, o interrogaram, dizendo: É lícito curar nos sábados? E ele lhes disse: Qual dentre vós será o homem que, tendo uma ovelha, se num sábado ela cair numa cova, não lançará mão dela e a levantará? (Mateus 12.9-11).

  • Na seção anterior, os fariseus queriam saber se era lícito trabalhar no sábado. Aqui perguntam se era lícito curar no dia sagrado de descanso.
  • A tradição religiosa dizia só se podia ajudar alguém no sábado quando a vida da pessoa corria perigo. Quem ajudasse um doente no sábado era punido com apedrejamento. As escolas rabínicas mais radicais proibiam até que se consolasse um enfermo no sábado. Ou seja, aquela visitinha para dar uma força a um amigo doente era vista como sacrilégio pelos zelosos guardiães da Lei. A cura do homem da mão ressequida não era urgente. Na visão deles, portanto, Jesus estaria violando o sábado se o curasse.

Pois quanto mais vale um homem do que uma ovelha? É, por consequência, lícito fazer bem nos sábados (v. 12).

  • Aqueles mesmos homens, insensíveis aos semelhantes em dificuldades, não se incomodavam se o sábado fosse violado para salvar um animal. O trabalho de resgatar uma ovelha de um buraco era plenamente justificado.
  • Ao contrário do que sugere o politicamente “correto” nos dias de hoje, o ser humano é superior ao animal. Isso não significa que maus-tratos aos animais se justifiquem, mas que o ser humano tem precedência sobre eles. Na verdade, a tendência é a inversão de valores. Os fariseus matavam um ser humano por picuinhas, mas tinham pena de uma ovelha. Se era permitido fazer bem a um animal no sábado, muito mais correto seria ajudar um ser humano, que é portador da imagem de Deus. Mas nenhum argumento funcionaria com eles, porque eram obstinados (veja Mc 3.5).

Então disse àquele homem: Estende a mão. E ele a estendeu, e ficou sã como a outra. E os fariseus, tendo saído, formaram conselho contra ele, para o matarem (v. 13-14).

  • Os fariseus não cediam, mas ficaram sem argumento. O ato de misericórdia divina não os convenceu. Em vez disso, o ódio deles contra Jesus se intensificou, e ele se retiraram para tramar a morte de Jesus. Sem ninguém mais a contestá-lo, Jesus curou o homem.

Acesse as outras aulas clicando em Estudos no menu aí em cima.