O que me incomoda no culto

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O Daladier Lima está fazendo uma pesquisa entre seus leitores: “O que mais te incomoda no culto?”. Vi que a maioria se limitou a mencionar um detalhe, mas no meu caso há muitas razões para eu ficar incomodado. Então, inspirado pela pergunta, resolvi listar algumas delas, que me assaltam quando entro num templo da AD, minha principal referência. E é uma lista bem resumida, para não parecer uma versão irritada do salmo 122 com o volume do salmo 119:

Incomoda-me desde o início que o culto seja realizado no templo, tão impessoal, em vez de num ambiente aconchegante e familiar, onde todos podem se olhar nos olhos e se chamar pelo nome.

Incomodam-me os bancos direcionados para o púlpito, que não nos deixam interagir com o irmão do lado, a não ser quando um pregador chato manda o povo repetir alguma asneira.

Incomoda-me a verticalização do culto, pois a comunhão entre irmãos, que é horizontal, não é sentida nem desfrutada como deveria.

Incomoda-me a participação hierarquizada ou loteada entre os departamentos, que anula a espontaneidade (tão queridinha dos pentecostais) e não raro repele contribuições que seriam mais importantes para a edificação do Corpo.

Incomoda-me que a edificação esteja cada vez mais sendo substituída pelo espetáculo (a maioria não tão espetacular assim).

Incomoda-me, nos cultos temáticos, ver o seu propósito esquecido trinta segundos após o amém final.

Incomoda-me a verborragia piedosa despejada dos púlpitos, aquele sonido incerto e insistente que orienta o povo para lugar nenhum.

Incomoda-me — e pelas razões acima não me surpreende — o fato de muita gente deixar de frequentar os cultos e não sentir a mínima falta deles.

Incomoda-me, por fim, o fato de muitos deixarem de frequentar os cultos, e a igreja, por estar muito ocupada cultuando a Deus, não sentir a mínima falta deles.

Sobre vermes morais

Tipos de corruptos

Tenho acompanhado nos últimos meses a guerra ideológica — termo que uso por comodidade — em torno dos recentes acontecimentos políticos do Brasil e, mais especificamente, do impeachment da presidente Dilma. Leio as matérias cáusticas na imprensa e os comentários inflamados de amigos no Facebook, cada um defendendo o seu lado ou acusando o outro. Vez por outra, sinto um sopro de neutralidade, mas que em nada diminui o calor das batalhas travadas no Executivo, no Legislativo, no Judiciário e mesmo nas ruas. Como simples espectador, concluí que, se vivemos uma democracia, é do tipo que só grita e não escuta ninguém — o que não me parece ser uma democracia, em absoluto. Por isso, não manifestei a minha opinião. Além do mais, que efeito teria um fraco balido no meio de toda essa gritaria?

Porém hoje li uma frase que me levou a sacudir a poeira do teclado, talvez mais para satisfazer a própria consciência do que pela esperança de ser ouvido. Não escondo a minha antipatia pelo PT e quero ver toda a quadrilha na cadeia, mas não é com isso que a alegria dos brasileiros estará completa. Se toda a canalha petista for parar atrás das grades, o índice de corrupção no país baixará algumas linhas, mas a situação ainda será desesperadora, e a frase que li só fez reforçar esse meu temor.

Aquelas poucas palavras levaram-me a pensar pensar nas pessoas que depositam esperanças nos prováveis sucessores dos corruptos despejados do poder. A questão é que de modo algum podemos classificar esses substitutos como desinfetantes morais. Passa despercebido para alguns (e para outros nem tanto) que são apenas vermes ocupando o lugar de outros vermes.

Sim, minha modesta opinião — por fim emitida — é que o Brasil é e continuará governado por vermes. Teoricamente, se os vermes de hoje forem banidos, os substitutos terão a chance de promover uma profunda limpeza moral e cívica no país, mas para isso teriam de mudar a própria natureza, o que duvido muito. A única maneira de melhorar de fato a vida da nação é banindo os vermes da vida pública. Salvo honrosas exceções, no entanto, o povo parece ter se afeiçoado a eles.

E a frase que inspirou este curto desabafo é um aforismo de Samuel Hoffenstein (1890-1947), poeta que fez sucesso nos Estados Unidos na primeira metade do século XX. Ele diz: “Para onde o verme se virar, ele ainda é um verme”.

Triste.

Ser crente é não crer em muita coisa (reedição)

Cross PlainUm homem que considero muito sábio um dia me ensinou: “Você não deve crer em muita coisa”. Longe de ser um incentivo ao ceticismo, esse conselho ao longo dos anos ajudou-me a selecionar de tudo que li e ouvi o que de fato importava para a minha fé.

A ideia de compendiar as crenças não é estranha às Escrituras. Todo o espírito da lei de Moisés está resumido nos Dez Mandamentos, que no Novo Testamento encontramos espremido ainda na ordem de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, e isso abrange não só a Lei, mas também os Profetas. Ou seja, toda a prática sugerida pela revelação do Antigo Testamento caberia num versículo.

Sobre o que, na era da graça, vem a constituir a “verdadeira igreja”, preocupação que veio a gerar inúmeras correntes migratórias, não raro conduzindo a destinos fatais para a fé, temos o teste simples de João: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus.

A fé tende ao simples, ao essencial, ao indispensável. Todo o resto é acessório. Não que as convicções pessoais ou coletivas que vinculamos à fé sejam necessariamente ruins, porque ninguém vive sem convicções. Afinal, elas é que nos orientam em todos os aspectos da vida. Mas tenho para mim que as convicções também são regidas por uma regra simples: não podem se igualar e muito menos se impor ao que é exclusivo da fé.

Fico exasperado quando ouço certos mestres, por mais piedosos e renomados, apresentarem teorias e meras convicções pessoais como se fossem “bíblicas”, no sentido de inquestionáveis, inspiradas, essenciais à salvação, seguidas da indefectível advertência de que os pensamentos divergentes são “antibíblicos”. No especulativo campo da escatologia, parecem ser mais esclarecidos que Daniel ou dão a impressão de que foram buscar em Patmos evidências que João deixou passar despercebidas. Posso não ter o conhecimento deles, mas afirmo que nisso estão errados, porque, em vez de esclarecer, semeiam confusão.

Nestes tempos de falsos cristos e teologias esdrúxulas que proliferam como baratas, a melhor atitude é nos agarrarmos à fé, porque cada vez mais iremos depender do essencial. Se necessário, abandone até as suas convicções, como o marinheiro que se desfaz da carga do navio na tempestade. Suas convicções não vão salvá-lo. Novas teorias e teologias poderão desviá-lo do céu. A única coisa que garante a sua salvação é a fé.

Coisas que considero impossíveis na igreja


É impossível alguém pastorear mais de quinhentas pessoas.

É impossível ser “dizimista fiel”.

É impossível a condescendência total com o irmão fraco.

É impossível duas pessoas crerem absolutamente a mesma coisa 

É impossível um pregador viver o que prega.

Discorda? 

A resolução da CGADB sobre o divórcio não é melhor que a da CONAMAD

DIVORCECausou indignação entre assembleianos de todas as linhagens a recente decisão da CONAMAD (Convenção Nacional das Assembleias de Deus Ministério Madureira) de liberar o divórcio e o segundo casamento em termos que, na prática, mostram excessiva condescendência por parte de uma entidade que por tradição e convicção doutrinária valoriza o casamento conforme o propósito divino. Além disso, todo o processo está sob suspeita, pois corre o boato de que a decisão foi tomada para facilitar a vida de alguns dos nobres membros do clero conamadiano já em vias de trocar a companheira de muitos anos por uma nova eleita, ou mais precisamente, por uma eleita nova.

No entanto, o boato não é o principal motivo das críticas que não tardaram a surgir na blogosfera, até mesmo entre cristãos de outras vertentes. O problema está na redação do documento, especialmente, creio eu, por legitimar o divórcio nos casos de “abandono emocional e espiritual do relacionamento”, mas sem explicar o que caracteriza tal abandono. Nem mesmo está claro se a expressão “emocional e espiritual” indica um único abandono, ou seja, se a rejeição tem de ser emocional e ao mesmo tempo espiritual, ou aponta abandonos distintos.

A falta de clareza abre um leque de possibilidades e interpretações. Por exemplo, se a mulher não sente empatia por projeto ministerial do marido, isso constitui abandono “emocional”? Se o marido aderir à teologia da prosperidade, contra a esposa, isso caracteriza abandono “espiritual”? E, se uma divergência de sentimentos ou uma discordância doutrinária é aceita como motivo para divórcio, não está aberta a porta para todas as outras? Não se chegaria assim ao divórcio por qualquer motivo, bastando que um dos cônjuges se sinta abandonado?

E isso me levou à resolução da CGADB sobre o mesmo assunto, que é bem mais antiga, de 1995, mas tem os seus probleminhas. Como leigo, posso estar estar enxergando tempestade em céu claro, mas fiquei intrigado quando, há vinte anos, li o texto original, que diz:

A 32ª Assembléia Geral Ordinária da Convenção das Assembléias de Deus no Brasil resolve:
Artigo 1° – As Assembléias de Deus no Brasil, tendo em vista a legislação vigente e o preceito bíblico expresso em Mateus 5.31, 32 e 19.9, e outras passagens similares, somente acolherão o divórcio nos casos de infidelidade conjugal e crimes hediondos devidamente comprovados, admitindo-se, nesses casos, novo matrimônio, esgotados todos os recursos para reconciliação.
Parágrafo Único – Entende-se por infidelidade conjugal, a prática do adultério, e por crimes hediondos:
1. o tráfico e consumo de drogas e coisas assim;
2. a prática do terrorismo e suas formas de expressão;
3. o homicídio qualificado ou doloso; e
4. o desvio sexual.

Sem levar em conta as vírgulas equivocadas do enunciado ao Parágrafo Único e a problemática classificação dos “crimes hediondos”, a expressão “tráfico e consumo de drogas e coisas assim”, no item 1, foi o que me chamou a atenção naquela primeira leitura.

Tudo bem que a denominação libere o divórcio para quem se casou com um(a) traficante, no pior sentido da palavra, mas convém lembrar que atualmente o tráfico de drogas é caracterizado por estas condutas: “importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à venda, oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar, entregar a consumo ou fornecer drogas, ainda que gratuitamente, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar” (Lei 11.343, de 2006).

Vamos lembrar que nem todos os que participam dos esquemas de tráfico são bandidões: muita gente simples e pacata está envolvidas no processo. Não vamos desculpá-los por isso, mas a questão é que há uma gradação de crimes entre aquelas atividades. Assim, na prática, a denominação está liberando o divórcio também para alguns crimes leves. Então, por que então não liberar o divórcio para outros crimes não tão graves? Por exemplo, para quem se casou com alguém que recebeu propina de algum esquema político, inclusive do pastor que vende votos em época de eleição? Penso que cabe uma (nada) boa discussão aqui.

Não bastasse isso, a CGADB permite que a pessoa se divorcie do cônjuge que consome algum tipo de droga. Vamos concordar em que é difícil conviver com um viciado contumaz, porém o texto não limita a liberação do divórcio a esse caso. A resolução diz que o marido ou a esposa pode se divorciar de quem consumiu drogas, nada mais. E se alguém era drogado e teve uma recaída? O outro cônjuge pode se livrar dele, mesmo sem tentar a recuperação? Ou se fumou um baseado uma única vez, por uma razão qualquer? Mesmo que os nobres pastores tenham chegado a um acordo verbal sobre as situações a que a resolução se aplica, vale o que está escrito, não é? Se algo estava subentendido na mente deles, não significa que todas as interpretações irão coincidir com essa ideia.

E as tais “coisas assim”? Imagino que se tenha pensado em álcool, mais especificamente no alcoólatra. Mas o texto, como já disse, não fala em dependência e ainda usa a palavra-ônibus “coisas”, de generosa semântica. Então, se o marido costuma tomar uma cerveja no churrasco de domingo ou tem o hábito de beber uma taça de vinho à noite, a esposa pode se divorciar dele com a bênção da denominação? E aqueles que se convertem e não conseguem largar de imediato o vício do cigarro, não se fará objeção a um pedido de divórcio por esse motivo? Pense no que um bom advogado poderia argumentar com com base em termos tão elásticos!

Se nada foi regulamentado ou atualizado desde então, sugiro que a CGADB reveja com urgência esse texto, pois, a meu ver, também deixa algumas brechas para a “banalização do casamento”. Eu também seria mais específico quanto ao “desvio sexual”. Há muitos tons de cinza nesse quesito.

P.S.E. (Postscriptum engraçadinho): Nos casos de terrorismo e homicídio qualificado/ doloso, há duas situações em que a discussão do divórcio não se aplica, absolutamente. No primeiro caso, se o cônjuge terrorista for um homem/ mulher-bomba. No segundo, se a vítima do assassinato for o outro cônjuge.