Arquivos de Categoria: Reflexão

Mero cristianismo

Dois mil anos se passaram.

E tem gente discutindo se o monopólio da igreja pertence aos católicos ou aos protestantes.

E tem gente mais aferrada a credos, confissões e estatutos que ao evangelho.

E tem gente pregando que só uma fina estirpe, registrada no cartório da Reforma, terá direito ao Lar eterno.

E tem gente que acredita que a salvação pode ser bloqueada e desbloqueada a qualquer momento, como amizade do Facebook.

E tem gente achando que quem usa bermuda vai para o inferno.

E tem gente delimitando o que o Deus soberano faz ou deixa de fazer.

E tem gente convicta de que sua denominação de cem anos finalmente descobriu a verdade.

E tem gente que não consegue distinguir igreja de templo.

E tem gente pagando bênção com carnê.

E tem gente venerando arcas de isopor.

Aquela teoria de que Cristo desceu da cruz e migrou para a Índia já não me parece tão absurda.

Aceitação

Aceitar os fatos não é desistir.

É o olhar maduro que perscruta a vida e nos convence de que o bom e o mau do passado não nos dominam.

É uma forma digna de superar o mal que nos fizeram e de contabilizar as benesses sem a tinta escorrida dos lamentos nostálgicos.

Melhor ainda, quando aceitamos os fatos adquirimos coragem para enfrentar os males de cada dia e aprendemos a desfrutar os momentos felizes como se fossem únicos.

Dessa forma, jamais seremos prisioneiros da dor nem escravos do prazer.

A semente sempre morre (reedição)

Grain of Wheat Dies

Na década de 1970, um obreiro do Rio Grande do Sul foi convidado para pregar na AD de Jaguaruna. Eu tinha uns 11 ou 12 anos, e ele cismou que eu ia ser missionário ou algo assim. Um dia, pouco antes do culto, ele estava lá em casa e me chamou para perto de si. Com a Bíblia aberta, mostrou-me uma passagem bíblica e explicou em poucas palavras como dividir um sermão. Após o curso de homilética mais rápido da história, ele me perguntou sobre qual texto eu gostaria de pregar. Escolhi João 12.24: “Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto”. No culto à noite, ele me chamou ao púlpito para que eu lesse o texto e fizesse um breve comentário. Acrescentei uma poucas palavras ao que havia lido, e a igreja explodiu em “glórias” e “aleluias” (mas não se iluda com o projetinho de Spurgeon: aquela igreja “glorificava” por qualquer coisa).

Até hoje me pergunto por que escolhi aquele texto, mas a ideia da semente me fascina desde então. O motivo é o seu ciclo paradoxal: ela precisa desaparecer para ser algo, e esse algo produz novas sementes que precisam desaparecer. É também o grande apelo do evangelho: para ser o que Deus quer, você tem de negar a si mesmo. Para ser, deixe de ser. É como diz uma composição de Edison Coelho: “Eu devo ser não eu,/ mas devo ser alguém/ que renuncie o ser/ para só ser o bem”. Deus nos chama para a vida produtiva por meio dessa morte. A conclusão óbvia é que a semente que não morre não produz fruto.

Mas a semente sempre morre. Se ela não se desfaz no solo, está condenada à morte de não morrer. A semente traz em si o esboço dos futuros órgãos da planta, mas não passará de um esboço se não cair na terra. Por si só, ela não cresce nem se move, e detectar vida nela é quase impossível. Não importa por quanto tempo seja preservada, ela jamais será planta. É a morte que não se deseja para a semente, porque o “fruto”, que é o nosso potencial, se perde na casca.

O conhecido episódio do encontro entre Cristo e o moço rico exemplifica esse tipo de morte. O jovem tinha qualidades impressionantes, mas ainda era uma semente. De fato, uma semente pode ser impressionante. O coco do mar, do arquipélago de Seicheles, no oceano Índico, chega a pesar 30 quilos. É a maior semente do mundo. Mas continua sendo uma semente. O jovem rico era como o coco de Seicheles. Impressionante, mas inútil para os planos de Deus. Ele preferiu o segundo tipo de morte. Então, se a morte é inevitável, escolhamos morrer no terreno da vontade divina.

As aflições  do tempo presente

Adaptado de um artigo de 2012

O fato de sermos cidadãos do Reino de Deus não nos isenta das leis naturais nem das agruras do sistema em que estamos inseridos. Se nos jogarmos de um precipício, iremos nos estatelar lá embaixo. Na vida diária, sofremos injustiças, ficamos doentes, nos afadigamos no trabalho e nem sempre realizamos os nossos sonhos. Atrasamos as prestações do carro, e as enchentes destroem os nossos móveis. Sentimos raiva e experimentamos frustrações. Ninguém passa incólume por este mundo. Caímos nas suas armadilhas e todos os dias pecamos contra Deus. Os milagres e livramentos estão longe de ser a nossa rotina.

Temos a alegria da salvação, mas nem por isso a vida é um oba-oba. Não somos seres etéreos, somos criaturas de carne e osso, e foi Deus que nos criou assim. Cristo andou sobre as águas, mas nunca reivindicou isenção de sua humanidade. Tentado pelo próprio Satanás, recusou-se a violar as leis da natureza em seu benefício (leia aqui). Mas Cristo venceu o mundo, e isso significou que ele teve ter de enfrentar esse adversário, não flutuar sobre ele. Só imergindo no mundo real abriremos caminho para essa outra dimensão onde todo o ar está impregnado de glória e de sons vitoriosos.

%d blogueiros gostam disto: