Deus, nunca remova esses filtros!

garatujas“Que lindo, filho!”, diz você quando seu menino de três anos lhe apresenta o desenho de algo que parece uma barata após um encontro infeliz com um chinelo. “É o papai”, ele informa orgulhoso de sua obra, e você não tem dificuldades em lhe dar um abraço agradecido enquanto tenta apagar da mente a imagem que ainda vê dançando diante dos olhos. Os pais têm essa condescendência inata, esse filtro natural que enxerga a perfeição por trás das mensagens confusas de um pequeno ser que está descobrindo o mundo.

Deus, nosso Pai, utiliza filtros semelhantes, como equipamentos especiais, para aceitar aquilo que somos e o que fazemos. Posso pensar na propiciação, o principal deles, como óculos especiais que eliminam as manchas de pecado da folha, de modo que possa ver alguma justiça em nós — justiça que nem mesmo é nossa, devo lembrar. Posso pensar ainda na longanimidade e na misericórdia e, claro, no amor. Mas você sabe que a lista é longa.

No mundo espiritual, que estamos sempre explorando, há meninos e adultos, mas não creio que alguém possa atingir a plena maturidade aos olhos do Pai a ponto de ele não precisar de nenhum filtro. Nesse sentido, somos apenas crianças menores ou maiores produzindo nossos desenhos mal-ajambrados.

Não vamos nos iludir. Nossas poesias mais sublimes são versos de pé-quebrado, nossa música é desafinada, o trabalho de nossa vida inteira não compensará um centavo do valor do resgate que ele pagou para nos ter de volta.

Ainda assim, nossos versos ganham ritmo e musicalidade diante dele ao sopro suave do Espírito, o sagrado Filtro que habita em nós. O auto-tune do Pai permite que ele se assente na porta do céu para escutar nosso louvor. E, para que não deixemos de lhe apresentar nossas pretensões bem-intencionadas, a graça paterna nunca deixa de nos fornecer as folhas de papel e as canetinhas de cor.

Deus, nunca remova esses filtros!

A bem-aventurança do anonimato

no-faceFazer o bem não é fácil, e mais difícil ainda é ajudar os outros sem esperar reconhecimento nesta terra. Ouvi de um pastor certa vez que o ego tem de ser massageado. Não discordo, se a massagem for aquele incentivo saudável que todo bom líder consegue aplicar na dosagem certa ou a gratidão demonstrada a quem merece. Mas, como cristãos, em nosso serviço ao próximo não devemos nem mesmo criar essa expectativa.

O motivo é que corremos o risco de cair na obsessão dos fariseus dos tempos de Cristo, que não davam uma moeda a um mendigo sem antes contratar um tocador de trombeta. A crítica de Jesus àqueles caçadores de elogios era uma forma de dizer: “Bem-aventurados os anônimos”. E, como toda bem-aventurança está acompanhada de uma promessa, a dos anônimos seria: “… porque eles obterão o reconhecimento de Deus”.

Um dos meus anônimos preferidos na Bíblia é o homem que emprestou o cenáculo para Jesus e seus discípulos. Mateus, Marcos e Lucas registram esse fato, e a tripla referência é sinal de sua importância. Não é para menos. No cenáculo, ocorreu a Última Ceia com os seus comoventes e dramáticos desdobramentos. Nesse lugar, provavelmente um espaço coberto sobre um terraço, os discípulos permaneceram após a ascensão de Jesus. Por fim, foi nesse local que nasceu a igreja. Mesmo assim, nenhum dos três evangelistas nos fez a gentileza de declinar o nome desse homem generoso e hospitaleiro. Conhecemos o nome do bandido Barrabás, mas não o da pessoa que acolheu em sua casa o Salvador do mundo e depois o Consolador da era da graça.

Não se pode negar: o reconhecimento humano é sempre imperfeito. É incompleto, injusto ou, na melhor das hipóteses, sobrevive ao homenageado, mas acaba se perdendo em algum corredor da história. O reconhecimento de Deus não só é perfeito como transcende o tempo. A aprovação divina transforma a gratidão efêmera num peso eterno de glória.

Só Deus, em sua onisciência e onipresença, pode nos agraciar com esse tipo de reconhecimento. Ele conhece os nossos caminhos, mesmo os mais solitários, e o fogo de seus olhos sonda os recantos mais ocultos do nosso coração sem deixar nenhuma intenção encoberta. Se depois desse escrutínio formos aprovados, teremos a nossa obra reconhecida em todo o Universo.

O dono do cenáculo não recebeu nem uma plaquinha para mostrar aos amigos, mas na eternidade ele será conhecido e reconhecido, em dimensões que nunca imaginou. A boa notícia serve para nós também. Todo bem que praticamos e não é reconhecido neste mundo está registrado em letras indeléveis no céu. Porque, afinal, para Deus não existem anônimos. Ele conhece os seus bem-aventurados.

Transforme a sua igreja num refeitório

agape-feast2Aproveito o tema do culto/ comunhão da postagem de ontem para reproduzir este artigo que escrevi em 2011.

De uma mesa de restaurante aqui em Curitiba, guarnecida por cumbucas de feijoada e algumas cervejas, veio-me a iluminação do que pode ser a melhor forma de culto.

Cultivando o meu hábito de ouvir conversas alheias com a dedicação de quem cuida de um orquidário, fiquei atento à conversa dos quatro homens que ocupavam a referida mesa, ao lado da minha, e conversavam justamente sobre o fato de estarem à mesa. Um deles disse:

— Isto é desestressante. Aqui falamos das dificuldades que cada um tem na vida, rimos, discutimos nossas opiniões.

Os outros concordaram. Eu também, em silêncio, enquanto fingia estar mais concentrado no meu prato. Aliás, nenhuma novidade no comentário. Nossas maiores “descobertas” são na verdade coisas que já sabemos, de uma forma ou de outra. Um dia, descobrimos que a pessoa com quem convivemos há muitos anos não é tão má (ou tão boa) quanto pensávamos, mas essa percepção geralmente vem do que já sabemos a respeito dela, não é? Ou percebemos, depois de muito pensar, que a melhor atitude a tomar em determinada situação é aquela que sabíamos ser a melhor desde o início.

Mas já estou indo para a sobremesa. Voltemos às cumbucas. As vasilhas fumegantes lembravam pequenos sacrifícios consumidos num clima de certa reverência. Quando lemos sobre as oferendas prescritas na lei mosaica, tendemos a pensar em algo que simplesmente era entregue, mas nem tudo era consumido pelo fogo do altar. Nas grandes celebrações, principalmente, a maior parte da carne ia para as mesas. Os sacerdotes tinham o seu quinhão. As famílias literalmente faziam a festa com a melhor carne do rebanho e com outras guarnições que traziam de casa.

Na Igreja primitiva, os altares e os sacerdotes foram dispensados, mas não a comida. A ceia ritualística era o complemento, representação terrena da comunhão vertical com o Altíssimo, mas era na horizontalidade do sagrado refeitório que os laços do amor fraterno se fortaleciam. Os cristãos do primeiro século assim reunidos também falavam das dificuldades da vida, riam e expressavam opiniões, embalados pela comida farta e diversificada. Eles eram admirados por sua unidade e por sua união, mas sem dúvida a gastronomia merece boa parte do crédito.

Nos dias de hoje, em que tanto se reclama da falta de comunhão entre os irmãos e tanto se fala de voltar ao evangelho simples, temos a oportunidade de descobrir o que já sabemos: as igrejas precisam voltar a ser refeitórios. Se o pastor pretende um retorno ao cristianismo mais puro, que comece a comprar mesas. Que se façam dos cozinheiros ministros e se patrocinem cursos de garçom para os diáconos. O incenso da oração mantém a comunhão com Deus, mas o cheiro da comunhão com o próximo, com o irmão em Cristo, é o que emana das terrinas e assadeiras.

Os bancos da igreja nos permitem apenas olhar para a frente, sem conversas paralelas, apenas “com Deus”. A mesa garante a comunhão multidirecional e libera a conversação, a entrevista, a tribuna informal, as confissões, o envolvimento emocional que pode salvar uma vida.

Em suma, se o cristianismo pretende continuar a distribuir o Pão do céu com todo vigor, está precisando redescobrir a comida caseira.

A vida com sal (reedição)

SalSe você me convidar para jantar em sua casa, não precisa perguntar do que eu gosto ou do que eu não gosto. Vó Carmira dizia carinhosamente que eu era porco de boa boca, porque eu nunca rejeitava nenhum tipo de comida. Até hoje é assim. Feijoada. Churrasco. Polenta. Galinha ensopada (ou frita, ou assada, ou cozida com caldo para fazer pirão). Arroz com ou sem feijão, e vice-versa. Cachorro-quente. Fígado. Moela. Salada de qualquer tipo. Milho e tudo que é feito de milho. Peixe. Frutos do mar. Ovo frito, mexido ou cozido. Carne de sol. Sarapatel. Mocotó. Acarajé. Coxinha de rodoviária. Linguiça. Bisteca. Filé. E por aí vai. Nem sei dizer qual é o meu prato preferido.

Mas tem uma coisa. Não suporto comida sem sal. É como comer papelão molhado. Deus criou reservatórios monstruosos de sal por uma razão. Até a palavra “salário”, o suado dinheirinho que nos permite sobreviver, vem do sal. Por isso, comida de hipertenso é inaceitável para mim. Encurtaria dez anos da minha vida sem hesitar só para manter a minha dieta com sal (ainda bem que, aos 54 anos, a minha pressão é de 12 por 7, e talvez seja o motivo de eu fazer essa corajosa afirmação).

Cristo afirmou que nós, os seus seguidores, somos o sal da terra. É uma declaração que me deixa feliz, mas também me incomoda, porque implica uma responsabilidade maior que a Grande Comissão. Você consegue pregar sem acreditar no prega. Você consegue fazer discípulos mesmo sendo um hipócrita e pode ensinar verdades bíblicas sem vivê-las. Mas não dá para ser sal quando se é insípido.

As palavras enganosas podem iludir multidões. Mas a vida cristã sem sal não engana ninguém. É por isso que as igrejas proliferam no mundo ao mesmo tempo em que estão cada vez mais desacreditadas. Um elaborado cardápio de insipidez. Conversão sem arrependimento. Novos hábitos sem transformação. Um mundanismo de seis trocado por um evangelho de meia dúzia.

O mundo percebe quando algo dá sentido à vida, quando a existência passa a ter sabor. O sal liberta as pessoas da dieta de papelão molhado. Cada aspecto da vida passa a ter um gosto especial. O trabalho. A música. A família. As luzes urbanas. Os documentários da TV paga. As aflições agora exalam aromas de glória. Relacionamentos intragáveis adquirem gosto de sobremesa. As esperanças perdidas na mesmice se destacam como especiarias.

Enfim, uma pitada de sal na vida de alguém vale por mil sermões e muitas aulas de discipulado.