Não é só o “mundo” que inverte valores (reedição)

Costumamos acusar o sistema do “deus deste século”, que chamamos “mundo” de inverter os princípios bíblicos e emporcalhar as instituições saudáveis e benéficas ao ser humano, e nisso estamos absolutamente certos. Não se poderia esperar outra coisa, aliás. Se vivemos num mundo imerso no Maligno, seria muito estranho que os valores cristãos não encontrassem resistência. Mas os cristãos, que não são do “mundo”, às vezes se esquecem de que ainda vivem nele e por descuido, quero crer, acabam jogando contra o patrimônio.

Por exemplo, costumo passar diante de uma dessas denominações ou comunidades que se proliferam como gramíneas nos centros urbanos, e vejo ali a prova da inversão das prioridades do evangelho: o pequeno salão com portas de rolo que se abrem para a calçada; a placa de identificação cujo nome corresponde a um clichê evangélico; a foto da pastora Fulana de Tal.

Se pensarmos nos principais componentes da igreja, iremos nos lembrar de Cristo, seu fundador e cabeça. A Cabeça nos remeterá ao seu corpo espiritual, a igreja dita universal ou invisível. Por fim, cogitaremos a igreja local, a ekklesia que acontece quando um grupo de crentes que se reúne em determinado lugar.

O descrente alcançado pelo evangelho deveria ser apresentado antes de tudo a Cristo, mas a primeira pessoa que ele conhece ao passar diante de um desses estabelecimentos é o “pastor”, “missionário” ou “apóstolo” titular do CNPJ.

Ele deveria em seguida ser introduzido no organismo vivo para se integrar como membro, mergulhado na sublimidade do batismo espiritual que nos faz um com o Senhor. Em vez disso, depara com um nome esquisito numa placa (ou com um nome tradicional, não faz diferença).

O convertido deveria logo depois ser conscientizado de que pertence a um povo, não um lugar (daí a expressão bíblica “a igreja que se reúne na casa de…”). Mas antes mesmo que exista povo, o templo já está ali, muito parecido com uma lojinha de 1,99. Depois disso, o novo crente confundirá templo com igreja pelo resto da vida. Ou com uma lojinha, se não ficar atento.

O líder religioso antes de Cristo. A instituição legal antes da igreja. O prédio antes do povo. Em todas essas coisas, o humano antes do divino. Eis a inversão.

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Michelangelo e o Espírito Santo (reedição)

Michelangelo, um dos maiores gênios criadores da humanidade, segundo a história da arte, além de pintor, poeta e arquiteto, era excelente escultor. Os estudiosos que tentam entender o sentido de sua arte acreditam que ele era capaz de enxergar dentro da pedra bruta a peça que pretendia esculpir e usava o cinzel e o martelo apenas para retirar os excessos.

Em minhas rápidas pesquisas sobre o Espírito Santo para algumas as aulas que andei ministrando (leia aqui), não pude deixar de perceber a semelhança entre o método do grande escultor e a obra de santificação operada em nós. A santificação é um processo que aponta para a perfeição, o crescimento interior que tem como propósito fazer com que cada cristão atinja a estatura espiritual de Cristo.

Sabemos, porém, que a perfeição nesta vida é impossível. As esculturas de Michelangelo, humanamente falando, podem ser consideradas obras perfeitas. Aliás, conta-se que quando ele concluiu uma delas, bateu no joelho da estátua e ordenou: “Fala, Moisés!”, tão impressionado ficou com o próprio trabalho. Aos olhos de Deus, porém, jamais atingiremos tal completude, muito menos seremos alvos de sua admiração.

Além disso, como pedras vivas e pensantes, temos a tendência de pensar que o cinzel divino está trabalhando no lugar errado, porque também idealizamos a nossa escultura interior, e ela não coincide com a do Espírito Santo. Não conseguimos enxergar dentro de nós a mesma imagem que ele visualizoua obra perfeita que enxerga na matéria bruta da alma regenerada e que pretende concluir. Assim, protestamos quando ele remove algo que fazia parte da peça que havíamos concebido. É quando o mármore insubmisso pergunta ao Escultor: “Que fazes?”.   

Por causa de nossa natureza rebelde, a perfeição cristã será sempre uma escultura inacabada, como São Mateus, outra obra de Michelangelo, porém não concluída. Percebem-se belas linhas emergindo da pedra bruta, mas o produto final não é conhecido. Nisso a perfeição cristã guarda uma semelhança e uma diferença com a obra inacabada do grande mestre italiano.

A semelhança é que nós, do ponto de vista da perfeição que nos é exigida, somo todos obras inacabadas. Ao encerrar a nossa jornada aqui, seja pela morte, seja por ocasião da vinda de Jesus, seremos todos parte pedra bruta e parte trabalho artístico, nos mais variados estágios.

A diferença é que a obra que o Espírito Santo começou em nós será concluída. Na eternidade, iremos ter plena consciência do que ele pretendia realizar em nós, ambos veremos a mesma peça no interior da pedra bruta. Creio que Paulo também se refere a isso quando menciona o conhecimento pleno que teremos quando vier o que é perfeito. Então o Espírito Santo irá bater em nosso joelho e dizer: “Pode falar agora!”. Ou então: “Era isto o que eu queria fazer”. Porque ele terá diante de si uma obra perfeita. 

Breve história da igreja (reedição)

Jesus Christ and DisciplesA igreja começou com poeira nos pés.

Depois tomou carona na carruagem do imperador.

Com o progresso, dispersou-se em concessionárias de marcas variadas.

Agora parece estar na fase do carro alegórico.

Já passou da hora de pôr os pés outra vez na estrada da simplicidade.

Deus, nunca remova esses filtros!

garatujas“Que lindo, filho!”, diz você quando seu menino de três anos lhe apresenta o desenho de algo que parece uma barata após um encontro infeliz com um chinelo. “É o papai”, ele informa orgulhoso de sua obra, e você não tem dificuldades em lhe dar um abraço agradecido enquanto tenta apagar da mente a imagem que ainda vê dançando diante dos olhos. Os pais têm essa condescendência inata, esse filtro natural que enxerga a perfeição por trás das mensagens confusas de um pequeno ser que está descobrindo o mundo.

Deus, nosso Pai, utiliza filtros semelhantes, como equipamentos especiais, para aceitar aquilo que somos e o que fazemos. Posso pensar na propiciação, o principal deles, como óculos especiais que eliminam as manchas de pecado da folha, de modo que possa ver alguma justiça em nós — justiça que nem mesmo é nossa, devo lembrar. Posso pensar ainda na longanimidade e na misericórdia e, claro, no amor. Mas você sabe que a lista é longa.

No mundo espiritual, que estamos sempre explorando, há meninos e adultos, mas não creio que alguém possa atingir a plena maturidade aos olhos do Pai a ponto de ele não precisar de nenhum filtro. Nesse sentido, somos apenas crianças menores ou maiores produzindo nossos desenhos mal-ajambrados.

Não vamos nos iludir. Nossas poesias mais sublimes são versos de pé-quebrado, nossa música é desafinada, o trabalho de nossa vida inteira não compensará um centavo do valor do resgate que ele pagou para nos ter de volta.

Ainda assim, nossos versos ganham ritmo e musicalidade diante dele ao sopro suave do Espírito, o sagrado Filtro que habita em nós. O auto-tune do Pai permite que ele se assente na porta do céu para escutar nosso louvor. E, para que não deixemos de lhe apresentar nossas pretensões bem-intencionadas, a graça paterna nunca deixa de nos fornecer as folhas de papel e as canetinhas de cor.

Deus, nunca remova esses filtros!